Ao salvar Pazuello, Exército abre a porteira para a politização dos quartéis, alerta Celso Amorim

O ex-ministro da Defesa cobra uma reação enérgica das instituições democráticas: 'Não foi uma transgressão casual. Isso foi planejado'

O presidente Jair Bolsonaro, em ato no Rio de Janeiro, junto ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Reprodução/CNN Brasil

O presidente Jair Bolsonaro, em ato no Rio de Janeiro, junto ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Reprodução/CNN Brasil

Política

A decisão do comando do Exército de não punir o general Eduardo Pazuello por comparecer a um ato político e eleitoreiro ao lado do presidente Jair Bolsonaro marca um ataque à integridade da essência das Forças Armadas. Representa, ainda, motivo de preocupação quanto à escalada de um processo de politização nos quartéis. A análise é de Celso Amorim, que chefiou o Ministério da Defesa no primeiro governo da presidenta Dilma Rousseff.

 

 

“Gravíssima a situação. O Exército é uma instituição do Estado, não do governo. Então, as pessoas ali têm que obedecer a Constituição, a lei e os regulamentos. O que houve, obviamente, foi um desrespeito ao regulamento, como o Mourão, um general de quatro estrelas, disse”, afirmou Amorim em entrevista a CartaCapital.

Em 24 de maio, um dia depois de Pazuello participar da manifestação com Bolsonaro no Rio de Janeiro, o vice-presidente Hamilton Mourão declarou que uma punição ao ex-ministro da Saúde seria “provável”. Nesta quinta-feira 3, pouco depois de o Exército salvar Pazuello, Mourão disse que não comentaria o desfecho “por uma questão de disciplina intelectual”. Para Amorim, “ao dizer isso, ele já comentou”.

“Ser isento de qualquer consequência deixa uma enorme preocupação com a situação do País, porque, na realidade, as Forças Armadas, além da missão de defender a Pátria, são a força de última instância, não para arbitrar, mas para que os Poderes constituídos possam agir em defesa da ordem democrática”, avalia o ex-ministro da Defesa.

“Se houver uma situação no Brasil similar ao que foi a invasão do Capitólio, você não tem a quem recorrer. É uma hipótese, não estou dizendo que vai ocorrer. Vai ser a força da delinquência se fazendo presente. É uma situação em que não apenas a integridade das Forças Armadas é ameaçada, mas a integridade das instituições democráticas. É muito grave”.

 

“Do ponto de vista institucional, é a coisa mais grave que já aconteceu”.

 

Celso Amorim afirma torcer por uma reação “bastante afirmativa” das forças democráticas, inclusive do Congresso Nacional. Afinal, ressalta, “o comandante do Exército não ia tomar uma decisão dessa gravidade sem auscultar o alto comando. Ele deve achar que tem apoio para tomar a decisão que tomou, uma decisão que abre a porteira para uma politização das Forças Armadas”.

O ex-ministro também analisou as recentes ocasiões em que Jair Bolsonaro se referiu ao “meu Exército”.

“Eu acho que o que fica bastante claro é que isso não foi uma coisa casual, uma transgressão casual que você pode punir ou deixar de punir. Isso foi planejado. Ele chamava de ‘meu Exército’ e o general [Edson] Pujol [ex-comandante do Exército] não se comportava de maneira que implicasse aceitar essa caracterização. Nós não temos um imperador. Então, ao considerar ‘meu Exército’, é como um imperador. E acho que tudo isso que aconteceu não foi gratuito. O general Pazuello, que já está fustigado por outros lados, conhece os regulamentos, que são claríssimos. Aquela manifestação foi obviamente política”, pondera Amorim.

 

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Editor do site de CartaCapital

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