Antibolsonarismo será maior que antipetismo em 2022, avaliam cientistas políticos

Papéis da última disputa presidencial se invertem e a maior rejeição pesa para o atual presidente na disputa pela reeleição

Fotos: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Fotos: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Política

O antipetismo, sentimento de parte da população que foi decisivo nas últimas disputas eleitorais, deve dar lugar ao antibolsonarismo nas eleições de 2022. O cenário é desenhado por cientistas políticos consultados por CartaCapital.

A queda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro, registrada em pesquisa do DataPoder, e a recuperação dos direitos eleitorais do ex-presidente Lula são, segundo os especialistas, fatores que devem ser decisivos no ano que vem.

“O antibolsonarismo é ainda maior que o antipetismo, pois todos aqueles que se colocam em uma condição de democratas e se afastam de qualquer discurso que busque solapar a democracia formaram um percentual enorme que não vota de jeito nenhum no presidente. A questão é que se o bolsonarismo tem, em média, cerca de 30% de uma base resiliente, podemos dizer que os outros 70% não estão com ele”, diz Rodrigo Prando, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

“O sentimento de desgaste do Bolsonaro e o alinhamento do antibolsonarismo são mais fortes [do que o antipetismo], porque hoje o Bolsonaro está no poder. Quem está no poder torna-se vidraça. O presidente deixa de ser o outsider e vai ter que se acertar com tudo que fez de certo e errado em sua gestão”, acrescenta o professor.

Para ele, no entanto, a rejeição a Lula e ao petismo ainda terá peso, embora menor, na eleição que se avizinha. “É improvável que o sentimento desapareça”, avalia. “Os adversários vão tentar jogar na conta do Lula o ônus [da crise econômica] dos anos Dilma”, continua.

 

 

Com a disputa, até o momento, afunilada entre Lula e Bolsonaro, a tendência é que o atual presidente busque reacender o sentimento antipetista que vigora desde 2013 com o início das manifestações de junho daquele ano e foi aprofundado com a Operação Lava Jato, o impeachment de Dilma e a prisão de Lula.

Na última semana, após pesquisa apontar que a rejeição ao seu governo subiu e chegou a 59%, Bolsonaro publicou nas redes sociais um vídeo com o registro de seu desembarque em São Paulo após levar uma facada em Juiz de Fora (MG), durante a campanha eleitoral de 2018.

“Essas imagens já fazem parte da história. Desembarque em São Paulo, vindo de Juiz de Fora (07/setembro/2018)”, escreveu o presidente na legenda da postagem.

“Entre os eleitores do Bolsonaro, [o antipetismo] ainda é um assunto fundamental. [Nas eleições, os bolsonaristas] não vão defender o governo, vão defender a necessidade de derrotar o Lula e o PT”, avalia o cientista político pela Universidade de Brasília Gabriel Elias.

“O Bolsonaro já disse: ‘se não votarem em mim tem aí o Lula’. Isso será o discurso principal dele”, afirma Elias.

No sábado 29, em várias cidades do País, ocorreram manifestações contra Bolsonaro, a favor da vacinação e do auxílio emergencial.

A pandemia do novo coronavírus, que no Brasil já vitimou mais de 460 mil pessoas, é o fator de maior desgaste do presidente em seu mandato. De acordo com Elias, os próximos meses serão cruciais para o presidente manter  as chances de reeleição.

“O Bolsonaro não chegou no seu pior momento ainda”, pontua. “Nos próximos meses, ele vai enfrentar um teste de fogo: o auxílio deve acabar e a terceira onda deve chegar com mais força. Tudo isso pode coincidir com a entrega dos resultados da CPI”.

“Se o Bolsonaro passar por esse teste de fogo e se sustentar, tem a chance dele se recuperar e o antibolsonarismo se tornar algo menor”, aponta.

Para Elias, o cenário ainda não é uma certeza e até mesmo o ex-presidente Lula, que lidera todas as pesquisas de intenção de voto para 2022, pode sofrer reveses.

“Se a situação se agravar nos próximos meses, há chances de impeachment. Caso aconteça, o que vamos ver é uma profusão de candidaturas e o segundo turno vai ficar muito incerto, sem saber quem vai enfrentar o Lula”, diz. “Se o Bolsonaro se enfraquecer a ponto de não chegar ao segundo turno ou sequer chegar às eleições, o resgate do antipetismo e antilulismo volta com muita força”, afirma.

“Vale ressaltar que o antipetismo não acabou”, lembra Prando.

Segundo os especialistas, a disputa hoje aponta para um favoritismo do petista.

“Em 2022, mantido o cenário atual, vence quem tiver menor rejeição. Creio que potencialmente o Lula tem mais condições de dialogar com o centro. O Bolsonaro, nesses anos de governo, continua falando só com os apoiadores”, afirma o professor da Mackenzie.

“O Lula deve chegar mais fortalecido do que estava nos últimos anos e tem o Bolsonaro mais enfraquecido por conta da pandemia, por não ser mais uma novidade e pelas acusações de corrupção”, prossegue.

 

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Editor do site de CartaCapital. Twitter: Alisson_Matos

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