Aliados de Lula veem discurso de ‘estadista’ e ‘projeto de Nação’; ex-presidente quer percorrer o Brasil

'A política é uma relação química. Vamos ter que tomar uma atitude para que este País possa crescer e voltar a sonhar', disse o petista

Foto: Ricardo Stuckert

Foto: Ricardo Stuckert

Política

Com um discurso de candidato, o ex-presidente Lula concedeu nesta quarta-feira 10 sua primeira coletiva de imprensa presencial desde que deixou a prisão, em novembro de 2019. Durante as quase duas horas em que permaneceu no Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, Lula se contrapôs abertamente ao presidente e virtual candidato à reeleição Jair Bolsonaro: defendeu a vacina, o uso de máscaras e a criação de um comitê de combate à Covid-19 com gestores estaduais e municipais. Moderou, contudo, ataques diretos ao ex-capitão.

 

 

Antes de subir ao palco montado na sede do sindicato, o ex-presidente foi aconselhado a adotar um discurso de “estadista”, evitando revanchismos e destacando que a vida do povo brasileiro, a vacinação e o combate à pandemia deveriam se sobrepor a questões eleitorais.

A ideia é justamente criar um contraponto ao atual presidente, que se move de olho em 2022 e tem visto sua popularidade cair pela maneira como age – ou não – no combate à pandemia. A defesa do legado dos anos petistas ainda está presente no discurso de Lula, mas aliados já admitem um “teto” dessa narrativa, o que reforça a necessidade de sinalizar “mais para frente”.

“O sofrimento do povo brasileiro é infinitamente maior que o meu”, disse Lula no início de seu discurso. O petista também defendeu o diálogo com governadores e deu a linha de como atuaria no combate à pandemia. “Lá em março, o presidente já deveria ter criado um comitê de combate à Covid, se reunindo toda semana com secretários de saúde, governadores, a Fiocruz, o Butantan, toda semana dando uma foto, orientando a população. Era preciso priorizar dinheiro para comprar vacinas em qualquer lugar da Terra”. Bolsonaro é alvo de criticas dos governadores justamente pela ausência de diálogo e de um comando central de combate à pandemia.

Durante seu pronunciamento, Lula afirmou que quer voltar a correr o País e mandou ainda um recado aos empresários: “Não tenham medo de mim”.

“Ele apresentou um projeto de Nação. Com toda certeza foi uma sinalização muito positiva para o País e vai mudar o jogo político para 2022. Foi um discurso de candidato”, avaliou um aliado. Dirigentes comemoraram o resultado do pronunciamento que, de acordo com eles, movimentou de “Rodrigo Maia a Felipe Neto”, mencionando as postagens do ex-presidente da Câmara enaltecendo o discurso de Lula.

 

Eleições e frente ampla

Lula afirmou que na próxima semana tomará a vacina para, posteriormente, retomar as andanças pelo País. “Eu pretendo voltar a correr o Brasil, porque isso faz parte da minha vida desde 79. Visitar o País e conversar com as pessoas. A política é uma relação química. (…) Vamos ter que tomar uma atitude para que este País possa crescer e possa voltar a sonhar”.

Questionado sobre a formação de uma frente ampla, Lula foi enfático ao defender a candidatura do PT e afirmou que “frente de esquerda sempre foi feita”.

“Acho que em 2022 o partido vai pensar quando chegar o momento de discutir certo, que é ano que vem. Acho que agora o PT precisa colocar suas lideranças para andar o País, como Haddad está fazendo, discutir a economia, discutir vacina. Precisamos garantir emprego, renda e desenvolvimento”, declarou. Quanto à frente ampla, Lula defendeu o que chamou de “frente de esquerda”.

Questionado sobre os temores de que uma candidatura do PT produza uma repetição de 2018, Lula minimizou: ”Vejo muita gente falar de frente ampla. Isso a gente faz desde 89. O meu nome sempre vai aparecer, eu gosto que apareça, senão vai cair no esquecimento. Politico que ninguém lembra não é mais politico. O PT polariza desde 89. O PT não pode ter medo de polarizar e ficar esquecido. Gosto de eleição em dois turnos, porque permite a você construir tua aliança no processo de disputa eleitoral”, declarou, sem negar a possibilidade de até incluir alianças com partidos de centro, por exemplo.

Lula também aproveitou para alfinetar o apresentador da Globo Luciano Huck, cotado para ser o candidato do “centro” nas próximas eleições, e comentou uma postagem do global nas redes sociais. Escreveu Huck: “No Brasil, o futuro é duvidoso e o passado é incerto. Na democracia, a Corte Suprema tem a última palavra na Justiça. É respeitar a decisão do STF e refletir com equilíbrio sobre o momento e o que vem pela frente. Mas uma coisa é fato: figurinha repetida não completa álbum”.

O ex-presidente rebateu: “Huck está falando de figurinha. Fiquei tão chateado, um cara que considero bom de televisão, mas que não conhece nada de figurinha. Ele não sabe que uma figurinha repetida carimbada vale pelo álbum inteiro”, ironizou.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Repórter da revista CartaCapital

Compartilhar postagem