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Afeitos a reeleições, baianos devem dar quarta vitória seguida ao PT

Política

“O governo do estado mudou Salvador”, destaca a comunicação do governador e candidato à reeleição Rui Costa (PT). “Nunca uma prefeitura fez tanto por Salvador”, retruca a publicidade do executivo municipal, comandado por ACM Neto (DEM).

Na Bahia, o outdoor ao lado pode ser do pior inimigo. A batalha da propaganda, adaptada em localidades do interior, somada a determinadas políticas públicas consistentes e a obras com apelo social teve como consequência a reeleição tranquila dos recentes governos a nível estadual e na capital, apesar do embate permanente  entre o carlismo e o petismo e das diferenças ideológicas entre o modelo dos azuis e o dos vermelhos, como é conhecida a divisão política da região.

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O retrospecto deve repetir-se, segunda as pesquisas, com a conquista do quarto triunfo consecutivo do PT, no colégio eleitoral mais numeroso governado pelos petistas a mais tempo, junto à ampla aliança estabelecida no estado. Segundo pesquisa Ibope divulgada na quarta-feira 22, Rui Costa tem 50% dos votos, enquanto o aliado de ACM Neto, José Ronaldo, também do DEM, tem apenas 8%.

Os investimentos na área da mobilidade urbana e na rede de saúde com a construção do Hospital da Mulher, postos e as reformas são dois dos pontos mais aprovados da gestão, que busca transmitir na imagem do “Rui Correria” a pressa em melhorar a qualidade de vida da população.

“Interiorizamos a saúde. Inauguramos oito policlínicas especializadas ao custo de 26 milhões cada – além das onze em andamento – que alcançam em torno de 500 mil habitantes por unidade. Desenvolvemos serviços  humanizados, diferentemente do imaginário do mau serviço público. Expandimos os atendimentos, a informatização, fomos o maior comprador de equipamentos hospitalares do Brasil, além do trabalho essencial dos profissionais do Mais Médicos, mais de mil cubanos permanecem apesar do contingenciamento federal”, expõe o cardiologista e secretário da Saúde, Fábio Vilas-Boas.

Os 41 quilômetros que fazem do metrô de Salvador o terceiro maior do país também coloca nos trilhos a perspectiva da continuidade. Parado por 14 anos, a obra concluída por Rui se relaciona com a popularidade dos mandatos do ex-governador Jacques Wagner (PT), candidato ao Senado, e com o legado social do ex-presidente Lula.

Ambos estão na memória dos baianos impactados com a chegada de cinco universidades federais,  a construção de 240 mil moradias do Minha Casa, Minha Vida, além de programas de acesso à água, à energia e das campanhas de alfabetização.

“Poucos imaginam com o Fome Zero foi importante, especialmente para o Nordeste. A atenção sobre a região e os avanços obtidos na Bahia nos motivam a seguir militando por essa proposta de inclusão”, afirma Elisa Coutinho, de Camaçari.

O progressismo conquistado no campo social perde terreno quando aborda-se as decisões na área da segurança. A visão conservadora e a defesa intransigente da polícia teve no episódio do Cabula, chacina que assassinou 12 jovens no bairro da periferia de Salvador e até hoje indigna pela impunidade dos autores, o momento de maior desgaste do governo em relação às comunidades pobres e aos defensores dos direitos humanos.

A contratação de mais de seis mil policiais e a renovação completa da frota veicular não trouxeram a pacificação. O medo de andar à noite nas ruas da capital e do interior coloca a Bahia como um dos lugares mais inseguros do país, somente em 2017, sete mil mortes violentas foram registradas.

“A sombra do Cabula é o esqueleto no armário desse governo. A polícia genocida, de extermínio da juventude, o mapa da violência que coloca a Bahia no topo encontra respostas  conservadoras , como militarização de escolas, o aparelhamento do corpo policial. Por outro lado, Rui é visto como o homem das obras, um pagador de promessas que jamais teve seu nome envolvido em desvios e que governa com as pesquisas na mão “, opina uma soteropolitana que preferiu não ser citada.

A questão econômica pesa no aumento da criminalidade. A depressão nacional afetou os baianos, cujo número de desempregados atinge 18%, índice acima da média nacional. O custo de vida menor em comparação com o sul e sudeste – é possível comprar acarajé e água de coco na Lapa baiana por dois reais, por exemplo – e a inserção de milhões de cidadãos no Bolsa Família, que fazem da Bahia o estado com o maior número de contemplados pelo programa, amenizam mas não resolvem a situação sobretudo em tempos de corte de repasses da União.

“É preciso um novo projeto nacional de desenvolvimento que possibilite a volta do crescimento e da democracia. Queremos a retomada da Ferrovia Oeste e Leste, do Estaleiro do Paraguassu e outras grandes obras grandes paralisadas pela ineficiência federal. Na contramão desse governo ilegítimo de Temer e seus coligados que acirraram a violência, o racismo e a miséria, conseguimos realizar o maior programa de Primeiro Emprego do país. Mais de cinco mil jovens foram contemplados, a maioria negros e mulheres, todos oriundos de escolas públicas”, destaca a ex-secretária do Trabalho e candidata à Assembleia, Olivia Santana (PCdoB), referência na luta das mulheres e dos negros.

A oposição liderada pelo ex-prefeito de Feira de Santana José Ronaldo (DEM) tenta convencer o eleitorado sobre a necessidade de renovação, argumento difícil para o político atrelado ao carlismo e reeleito quatro vezes, a última com 72% dos votos. “Parece que estamos vivendo uma guerra. Mas o governo da Bahia sabe gastar em propaganda e diz que faz obras tamanho G. Só se for o G da galhofa e da gatunagem”, compara. Apesar das seguidas reconduções, o candidato não escapa às contestações sobre seu estilo de governar na própria cidade.

“Aqui muitos o conhecem por Zé cimentinho, pelas maquiagem que faz e pelas obras faraônicas, sempre de cima pra baixo, sem qualquer consulta popular. A venda do centro de abastecimento, local em que gerações de trabalhadores tiraram seu sustento e a prioridade pelo BRT, que matou lençóis freáticos e tornou-se um elefante branco entram nessa lógica”, aponta a historiadora Selma Souza.

 Os limites do controle político dos vermelhos

A costura política que permitiu ao governador Rui Costa aprovar seus projetos na Assembleia e contar com o apoio majoritário das bancadas em Brasília está baseada fortemente em alianças que abrangem setores de centro e até da direita local. A transição do senador Otto Alencar (PSD) é sintomática nesse sentido. O político que foi vice-governador de Paulo Souto (DEM) no início dos anos 2000, foi convidado para ser vice de Jacques Wagner e desde então alinha-se ao modelo liderado pelo PT.

Criticado por setores que advogam uma postura de maior confrontamento com as siglas tradicionais, o arranjo fez da Bahia o único estado em que os três senadores votaram contra o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Na câmara, a maioria já havia votado pela manutenção do mandato,  dos 39 parlamentares vinte votaram contra o impeachment.

O pragmatismo que ora pende para o centro e até para o conservadorismo é responsável pela larga aliança que contempla 14 partidos, tendo como expectativa a eleição de dois terços das bancadas federal  e estadual, revela seus limites com a exclusão da senadora Lídice da Mata (PSB) para concorrer à reeleição. A socialista teve seu lugar na chapa majoritária cedido ao deputado estadual e candidato a senador Antonio Coronel (PSD), cuja sigla lidera o maior número de prefeituras do estado. 

“Pense um absurdo, na Bahia haverá precedente. A expressão originada em Roma e adaptada pelo ex governador Mangabeira fala da nossa política. Essa legislatura acaba com grandes dificuldades para as mulheres do senado e a bancada, que chegou a ser a mais alta do parlamento brasileiro pode cair”, preocupa-se Lídice.

Respaldada pela trajetória de trabalho, a ex-prefeita de Salvador concorrerá à Câmara, diferente da decisão do atual administrador da cidade, ACM Neto, principal liderança do campo conservador baiano.  “A Bahia tem uma tradição de grupos políticos que buscam a hegemonia. Nesse momento quem faz isso é o PT enquanto lutamos para impedir essa consolidação. O sentimento de mudança existe, aqueles que votariam em ACM votarão por Zé Ronaldo”, acredita o deputado federal e candidato a senador Jutahy Magalhães (PSDB), que tem como companheiro  na disputa pelas duas cadeiras do senado, o também deputado Irmão Lázaro (PSC), cantor evangélico aliado de Magno Malta (PR).

Aprovado pela maioria dos soteropolitanos, o neto de Antônio Carlos Magalhães se vale do prestígio do clã para determinar os rumos da direita local. Nos seis anos em que dirige a prefeitura, ACM promoveu o que muitos chamam de ipanemização da orla enquanto a cobertura de saúde da família da capital está entre as mais baixa da Bahia, e teve a vantagem de suceder um dos gestores mais desaprovados pelos eleitores, João Henrique (PRTB), que curiosamente coloca-se como candidato a governador depois de ter sido preterido na eleição que disputou para vereador de Salvador, em 2016.

O ex-prefeito apresenta-se pela extrema-direita, associando-se a Jair Bolsonaro para tentar fugir do ostracismo. Quem também não se furtou a apresentar sua opção é o PMDB baiano com a candidatura do experiente João Santana. As malas de dinheiro encontradas no apartamento dos irmãos Geddel e a ligação partidária com Temer atrapalham a remota chance de poder do ex-ministro da Integração Nacional. Completam a lista de postulantes a ex-prefeita de Salvador Célia Sacramento (Rede), Marcos Mendes (Psol) e Orlando Andrade (PCO).

A Bahia fora dos cartões postais

As terras baianas estão entre as mais conflagradas do cenário brasileiro. A presença de povos originários, pequenos agricultores, latifundiários da zona do sisal e do cacau, integrantes de movimentos sociais da terra e, especialmente quilombolas formam parte dos atores envolvidos. No lugar com maior predominância negra fora da África, os quilombos ainda aguardam maior segurança jurídica e reconhecimento histórico do solo sobre o qual seus descendentes tem direito.

 O número recorde de comunidades registradas alcança 736 e divide espaço com uma população rural de quatro milhões de agricultores distribuídos pelo território do semiárido ao recôncavo. A presença do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra  também é marcante com doze mil assentados e 25 mil pessoas acampadas, muitas em zonas de conflito, em beira de estrada e com o risco contínuo de serem despejadas e até mesmo, assassinadas.

“Dilma desapropriou áreas para a reforma agrária, fez a demarcação de terras indígenas e quilombolas, mas o atual governo revogou esses processos o que acelerou os conflitos no campo. O governo do estado evoluiu com o aspecto da estabilidade das famílias e a inclusão produtiva, sobretudo na cadeia do leite, mamona e café, com equipamentos e as aguadas, para captação de recursos hídricos. A construção de escolas e de estradas, por outro lado, não avançou”, contextualiza Evanildo Costa, da Direção Nacional do MST.

O fim da Cesta do Povo, mercado que oferecia preços mais baixos dos itens básicos e o apoio ao agronegócio de exportação levanta questionamentos, somente o município de Luís Eduardo Magalhães concentra praticamente a metade da produção de grãos de todo o estado. A resposta estatal vem de alguma forma respondidas pelo cadastro de 400 mil agricultores no plano safra e pela instalação de diques e barragens pelo programa Água para Todos para contornar uma das secas mais severas das últimas décadas, em especial nas zonas de pasto e da agricultura familiar.

No ano em que recebeu pela primeira vez o Fórum Social Mundial, evento de encontro dos polos progressistas de todo o mundo, a Bahia que mistura avanços e permanências deve repetir o tom vermelho em mais uma vitória da esquerda local.

Mas na terra de todos os santos, não há virada impossível para nenhum dos lados. “A Bahia que vive pra dizer como é que se faz pra viver onde a gente não tem pra comer mas de fome não morre porque na Bahia tem mãe  Yemanjá e de outro lado Senhor do Bonfim que ajuda o baiano a viver”, no canto de Gilberto GIl.

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