Política

Acuado, Araújo ataca Katia Abreu e é criticado por senadores: ‘Passou da hora de ser demitido’

O pressionado chanceler divulgou uma conversa reservada com a senadora; a atitude gerou a revolta de parlamentares

 Foto: Gustavo Magalhães/MRE
Foto: Gustavo Magalhães/MRE

Cada vez mais pressionado no cargo, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi às redes sociais neste domingo 28 para atacar a senadora Katia Abreu (PP-TO), gerando uma onda de ofensas a ela por parte da militância digital bolsonarista.

O chanceler divulgou o conteúdo de uma conversa privada com a parlamentar durante um almoço no Itamaraty.

“Em 4/3 recebi a senadora Kátia Abreu para almoçar no MRE. Conversa cortês. Pouco ou nada falou de vacinas. No final, à mesa, disse: ‘Ministro, se o senhor fizer um gesto em relação ao 5G, será o rei do Senado’. Não fiz gesto algum”, escreveu Araújo.

“Desconsiderei a sugestão inclusive porque o tema 5G depende do Ministério das Comunicações e do próprio Presidente da República, a quem compete a decisão última na matéria”.

Katia Abreu preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado e é crítica ao trabalho de Araújo. No último dia 21, ela declarou, em entrevista à CNN Brasil, que o Congresso Nacional deve assumir o protagonismo nas ações diplomáticas envolvendo a aquisição de vacinas contra a Covid-19.

Em nota, Abreu afirmou que “se um Chanceler age dessa forma marginal com a presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado da República de seu próprio País, com explícita compulsão belicosa, isso prova definitivamente que ele está à margem de qualquer possibilidade de liderar a diplomacia brasileira”.

No último sábado 27, a senadora compartilhou nas redes sociais a notícia de que um grupo de mais de 300 diplomatas publicou uma carta em que acusa a política externa do governo Bolsonaro de provocar “graves prejuízos para as relações internacionais e à imagem do Brasil”. Os diplomatas defendem ainda a demissão de Araújo.

A relação entre China e Brasil ao longo da pandemia é marcada pela falta de diplomacia do governo de Jair Bolsonaro. Ernesto Araújo já se referiu em diferentes ocasiões ao novo coronavírus como “comunavírus” e “vírus ideológico”. Além disso, pesa contra ele a postura nada diplomática em relação aos chineses no âmbito das discussões sobre o 5G.

Pelas redes sociais, senadores se manifestaram em defesa de Katia Abreu. O líder do PDT na casa, Weverton Rocha, escreveu: “Encurralado pela péssima gestão à frente da política externa brasileira, principalmente na compra de vacinas, Ernesto Araújo tenta se manter no cargo abrindo uma guerra de fake news contra senadores sérios como Katia Abreu”.

“Não vamos aceitar mais esse desrespeito contra o Senado Federal e o Congresso Nacional. Táticas de mobilização, com cortinas de fumaça, não funcionarão. Já passou da hora de Ernesto Araújo ser demitido do Itamaraty”, completou.

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), também se manifestou. Ele lamentou que, “no momento em que há um grande esforço para a pacificação e o entendimento, muito que justamente o responsável por nossa diplomacia venha a criar mais um contencioso político para as instituições”. “O Brasil e o povo brasileiro não merecem isso”, completou.

O próprio presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), tem feito críticas abertas a Araújo. Na última quinta e na última sexta-feira, afirmou que a política externa brasileira “precisa ser aprimorada”. O tom da gestão Araújo, para Pacheco, é a falta de diplomacia.

Em entrevista a CartaCapital, Celso Amorim, que ocupou o posto de chanceler nos governos do ex-presidente Lula, declarou que o Brasil sob Bolsonaro e Araújo operou “um milagre”: o de se isolar.

“O Brasil, que tem dez vizinhos, não tem diálogo com ninguém, nem com os países de direita. Quando o Iván Duque, da Colômbia, fez uma reunião sobre cooperação em relação à pandemia, ele convidou o Uruguai e o Chile. Não convidou o Brasil, porque o Brasil é tóxico”, afirmou o ex-chanceler.

Para Amorim, a saída de Araújo, por si só, não resolveria todos os problemas da política externa brasileira, mas seria simbólica. “Em geral, quando você tira um ministro, está indicando alguma mudança de rumo. Eu não espero coisas boas, mas pelo menos um pragmatismo nas relações externas ou menos presença de uma ideologia enlouquecida”.

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