A volta de um líder: os bastidores de Lula em São Bernardo do Campo

São Bernardo do Campo foi palco de um momento histórico: em que Lula volta ao cenário político e reafirma seu imenso poder de mobilização

Manifestantes em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. 
Foto: AFP

Manifestantes em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Foto: AFP

Política

Eram 6 horas da manhã. A rua João Basso, no centro de São Bernardo do Campo, já começava a ter uma movimentação atípica para um sábado. Pessoas chegavam ao local vestindo vermelho e trazendo suas bandeiras, pois era o dia de receber de volta o seu grande líder: Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula, que foi presidente do Brasil de 2002 a 2010, ficou preso durante 580 dias na superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Condenado a 12 anos e 8 meses de prisão pelo caso envolvendo o tríplex do Guarujá, o petista foi beneficiado pelo novo entendimento do STF sobre prisão após segunda instância e foi libertado. Ele saiu da prisão na sexta-feira 8 e no sábado 9 já estava no seu reduto ideológico.

E não à toa o petista escolheu este lugar para dar seu primeiro discurso oficial. Ao chegar no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, já dava para perceber a paixão dos que estava têm pelo ex-presidente. Faixas, camisetas, bandeiras, tatuagens, gritos e choros dominaram aquela estreita rua que foi palco também do dia da prisão de Lula, em 7 de abril de 2018, quando o petista saiu carregado pelos militantes para se entregar à justiça.

O carro de som parado em frente à entrada do Sindicato tocava músicas de resistência enquanto as pessoas e caravanas chegavam. “Vermelho”, de Fafá de Belém, foi a canção mais tocada do dia. A letra fala da cor vermelha, que é do comunismo, mas também é da paixão. Ela até cita um velho comunista, que claramente as pessoas cantavam remetendo a Lula de forma apaixonada.

Ao meio-dia começaram as apresentações artísticas. O cantor Fabrício Ramos foi o primeiro a se apresentar, seguido de Rappin Hood e Francisco El Hombre. Todos começavam o show puxando o canto de Lula Livre, mesmo o petista já ter sido libertado. E as pessoas não paravam de chegar.

Reencontros

Guilherme Boulos foi em comitiva com o MTST, e trouxe consigo milhares de pessoas, todas de vermelho e com a bandeira do movimento. Boulos deixou seus companheiros na porta do Sindicato e seguiu em direção a Lula. Foi aclamado por todos que ali estavam.

O clima era de festa e reconciliação da esquerda com seu grande líder. E a parte da frente do caminhão era a mais disputada por todos. Quem chegou antes de todo mundo e conseguiu um bom lugar, não saiu de jeito nenhum, nem para ir ao banheiro.

Foi o caso da paulistana Leila Carvalho, de 53 anos. A moradora de São Bernardo do Campo estava quase esmagada na grade por onde Lula iria passar para subir no caminhão. Com faixa na cabeça e fazendo o símbolo do “L” com a mão o tempo todo, Leila cantava as músicas que tocavam balançando os ombros, única parte do corpo que conseguia mexer.

“Sempre fui petista. Estou na batalha desde o início, votei no PT em todas as eleições e votarei sempre que possível”, disse ela enquanto dividia seu olhar entre as pessoas em volta e a porta pela qual Lula iria sair.

Leila Carvalho, a petista que grudou na grade para ver o discurso de Lula em São Bernardo

“Lula representa o melhor do Brasil. É o maior presidente da República que esse País já teve. Foi o único que olhou para os pobres. Ele jamais deixará a gente na mão. Lutarei para ele voltar e para eu conseguir me aposentar”, disse ela, que é funcionária pública.

Quando Lula passou pelo corredor onde Leila estava ancorada, a paulistana caiu no choro enquanto era esmagada pela população que tentava ver o presidente. Esse momento deixou claro que as pessoas da organização não esperavam tanta gente. As grades quase romperam, houve tumulto e a todo instante os bombeiros eram chamados para socorrer alguém passando mal, o calor de 30 graus contribuiu para os incidentes.

E mesmo no meio do empurra-empurra, as pessoas não desistiram de esperar pelo tão aguardado discurso do líder de esquerda. Foi o caso da integrante da Juventude Petista Josi Nascimento. A militante de 26 anos também ficou ancorada nas grades esperando pelo ídolo. Carregava um boneco do petista com uma faixa presidencial, lembrando do tempo que, segundo ela, o Brasil era feliz.

“O Lula ser libertado é uma esperança. Ele vai fortalecer a oposição contra o Bolsonaro, pois ele é capaz de construir um grande poder de mobilização”, afirmou a militante. Josi chegou a São Bernardo pela manhã e ficou no mesmo lugar até conseguir ver de perto o presidente que mudou sua vida.

“Eu sou filha de nordestina. Minha mãe sofreu muito aqui, teve seis filhos e adotou mais dois. Antes de Lula, nossa dieta era baseada em cuscuz, depois conseguimos ascender. A nossa vida mudou da água pro vinho. Conseguimos comer carne e pão todos os dias. Sou muito grata a esse homem”, concluiu, emocionada, a paulistana.

Josi Nascimento, integrante da Juventude Petista, fez questão de participar da festa em São Bernardo

E Lula conseguiu algo raro em locais com muita gente reunida. Enquanto discursava, o silêncio era absoluto. Se alguém falasse algo, mesmo que em baixo tom, imediatamente já se ouvia uma advertência de alguém na multidão pedindo silêncio.

O presidente parece que saiu da cadeia com o discurso ainda mais afiado. Atacou Bolsonaro, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, a Rede Globo e enalteceu mais uma vez os pobres. Os olhares do público atentos ao líder que prometeu rodar o Brasil para fazer oposição ao governo Bolsonaro.

Entre gritos de “guerreiro do povo brasileiro”, “Lula, eu te amo”, “o melhor presidente do Brasil”, um pequeno grupo em frente ao palco começou a berrar palavras de baixo calão direcionadas a Bolsonaro. Nesse momento, o petista deu uma demonstração de como será a oposição a partir de agora.

“Não, gente, não vamos fazer isso. Parem. Eu fui criado por uma mãe analfabeta, mas que nunca me deixou utilizar palavrões como argumento. Não vamos falar palavrões para o Bolsonaro, ele em si já é um palavrão. Vamos mostrar resistência nas ruas, mostrar para ele a força do povo.”

A intervenção do ex-presidente foi aceita, pois foi aplaudida por todos. E as pessoas voltaram a ficar em silêncio para continuar escutando o que o petista falava.

Centenas de manifestantes ouviram o discurso do ex-presidente Lula (Foto: Victor Rodrigues)

Lula, então, se despediu. “Vou parar de falar senão vocês vão me querer preso de novo”, disse, arrancando risos da população. Saiu carregado nos braços do povo, só que dessa vez para dentro do sindicato e não mais para a saída, como foi naquele 7 de abril de 2018, ocasião em que foi preso. Ao deixar o local, os manifestantes permaneceram gritando o nome do presidente, em clima de euforia geral.

Todos estavam agitados, menos seu Raimundo de Montie, de 58 anos. O funcionário do Sindicato, que trabalhou com Lula há 40 anos, ficou na grade olhando para a população com um olhar emocionado.

O morador de Diadema que veio do Ceará há 40 anos estava feliz com a volta do presidente. Para ele, Lula representa tudo de melhor que existe no Brasil. “Só ele fez o que fez pela nação. Ele não mudou só a minha vida, mas a da população brasileira inteira. Estou feliz que ele está de volta”, afirmou o sindicalista.

Lula para seu Raimundo representa também a melhora do Nordeste, estado onde nasceu. Ele conta que muitos conhecidos mudaram de vida graças ao governo do PT e suas políticas públicas como o Bolsa Família. “Precisamos resistir e trazer Lula de volta”, concluiu.

Raimundo de Montie foi receber o companheiro de Sindicato dos Metalúrgicos

E assim terminou o reencontro de Lula com o local que o transformou no que ele é hoje. No maior estilo “popstar”, o petista mostrou sua força e se reafirmou como o principal opositor de Jair Bolsonaro e de toda a direita brasileira.

A força que Lula tem com seus seguidores mostra, talvez, porque sua saída era tão temida por seus opositores. Ao anunciar sua caravana pelo Brasil, o petista já inicia a campanha presidencial para 2022, que ele não poderá concorrer, mas já mostra que solto há grandes chances de eleger quem ele quiser.

 

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Repórter do site de CartaCapital

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