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A aniquilação das mulheres como forma de fazer política

Opinião,Política

“E pras feministas, ração na tigela / As mina de direita são as top, as mais bela / Enquanto as esquerda tem mais pelo que as cadela”

Trecho de um canto que tocou no final de semana em um ato, no Recife (PE) pela candidatura de sabemos bem quem. Não é fake news, foi tudo registrado em vídeo.

Ouvir o canto na íntegra é horrorizante: não é “apenas” discurso de ódio (o que já seria suficientemente grave), é um cântico de morte. É uma toada de aniquilação. Aniquilação de mulheres.

Não reproduzo a letra toda — que piora muito — em respeito às mulheres, sobretudo as mencionadas na letra, uma das quais é minha grande amiga. Ninguém deveria ler ou ouvir esse tipo de violência.

Reconhecer que a possibilidade de que tal violência seja passível de ser concretizada, e que talvez isso não tarde, deveria espantar a todas as pessoas que dizem ter um mínimo de respeito pela vida, pela humanidade, por si mesmo. (E é óbvio, porém vale constatar: cada uma vida que compõe isso que chamamos de humanidade, inclusive a sua e a do candidato, só é possível por causa de nossos úteros.)

Como indiquei na minha última coluna, muitas de nós, mulheres brasileiras, “Viemos manifestando nossa recusa ao candidato desde antes dele liderar as pesquisas porque reconhecemos seu machismo, entendemos os efeitos concretos da misoginia em todos os aspectos de nossas vidas, e vemos em sua encarnação como presidente a legitimação institucional da violência masculina, já tão presente em nosso cotidiano.”

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A História nos ensina que direcionar tamanha desumanização a uma parcela da população tem efeitos graves: a escravidão justificava-se pelo tratamento de corpos negros como unidades de trabalho, o genocídio indígena justificava-se pela equalização de populações inteiras a animais, a propaganda nazista comparava judeus a ratos e baratas.

Hoje a cadela sou eu. Amanhã pode ser qualquer mulher que se manifeste sobre qualquer assunto.

Também na coluna mencionada acima escrevi que esta chapa é assustadora, mas que a preocupação aumenta com a realização de que ela simplesmente reflete os desejos de tanta gente no Brasil, e é não a origem, mas um sintoma cultural do machismo brasileiro, que nos coloca na 5a posição mundial do número de feminicídios.

Mulheres não-feministas, mulheres de direita, mulheres que não se reconhecem em nenhum campo político-ideológico, mulheres que trabalham, que estudam, que pensam, que falam, que vivem neste país já tão cruel conosco: nenhuma de nós estará segura com a eleição desse sujeito, não tenham dúvidas.

Rogo que cada uma de nós convoque suas amigas, namoradas, companheiras, primas, irmãs, mães, avós, tias, sobrinhas, colegas e quem mais for para que se manifestem, não apenas em repúdio a esta chapa, mas também  na promoção da eleição do maior número possível de mulheres para os cargos legislativos.

Independentemente dos resultados do pleito presidencial, é urgente que a gente garanta a formação de uma bancada feminina (preferencialmente feminista) com acesso ao poder de legislar — ou seja, de batalhar políticas públicas que assegurem nossos direitos fundamentais.

Rogo também a todos — e especialmente aos homens — que têm amigos e familiares com quem o diálogo ainda é possível, e que declaram voto para essa chapa, que usem o tempo até 07/10 (ou ainda bastante provavelmente 27/10) para demonstrar o horror que ela representa, e dissuadi-los de colaborar democraticamente – e muito contraditoriamente – para a eleição do autoritarismo.

Por favor analisem as falas e plano de governo do capitão, e usem qualquer argumento que sirva para dissuadir cidadãos seduzidos por esse projeto de morte: economia para quem só entende economês, política armamentista para quem se diz de paz e bem, racismo e misoginia explícitos para quem tem um mínimo de respeito pela vida, e por aí vai.

Pode parecer ingênuo, e certamente não é tudo que podemos ou precisamos fazer. Porém, este é um trabalho urgente que pode ser feito por qualquer pessoa em qualquer situação.

Hashtags e campanhas online têm potência, mas também têm suas limitações. Até onde sei, não há muita evidência de que pessoas mudam de ideia a partir dos slogans e linguagens meméticas das redes, nem garantia de que a leitura de críticas mais sofisticadas seja feita ou surta algum tipo de efeito.

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Mas é bom lembrar que apesar das tecnologias de comunicação e informação, o corpo a corpo não deixou de existir. Se cada um de nós conseguir ter uma boa conversa com quem é de conversa, isso pode mitigar a ascensão do fera.

Como muitas analistas políticas e psicanalistas vêm dizendo, o candidato se apropriou muito bem da sanha antipetista — que causa torpor por ser um afeto, uma paixão negativa — criando uma narrativa fantástica sobre o salvamento da nação. Chamar o cabra de “mito” indica não só fervor, mas também o quanto seus eleitores estão dispostos a concretizar o que na verdade são suas fantasias machistas. Um mito, afinal, é um ser inexistente. Já a realidade, esta pode ficar ainda mais letal para populações marginalizadas.

A sanha antipetista é bem diferente de ser veementemente crítico do PT. É perfeitamente compreensível que a decepção e raiva de muitos setores da população brasileira com o partido tenha se transformado em ódio absoluto para alguns desses setores, por uma série de motivos que incluem mas não se restringem a herança antidemocrática desse país colônia, a precariedade da nossa educação, particularmente sobre assuntos ligados a cidadania e sociedade, e à incontestável participação da mídia hegemônica na construção de uma narrativa desequilibrada sobre a corrupção institucionalizada, característica de governos brasileiros desde antes do PT.

A gravidade da sanha antipetista é que sua campanha de ódio é distribuída para muito, mas muito além do petismo (o que, de novo, já seria suficientemente grave). O feminismo — que pode ser e frequentemente é bastante crítico do PT, por exemplo — acaba de ser colocado na linha de frente desse ódio redistribuído.

Vamos para cima, gente. #EleNão. É pelas nossas vidas.

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É fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura.

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