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A revolução "duplamente verde" de José Graziano

por André Siqueira e Soraya Aggege — publicado 01/07/2011 15h47, última modificação 03/07/2011 08h45
Eleito diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano acredita que sua escolha reforça a política Sul-Sul e defende uma revolução “duplamente verde” na produção mundial de alimentos
A revolução "duplamente verde" de José Graziano

Eleito diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano acredita que sua escolha reforça a política Sul-Sul e defende uma revolução "duplamente verde" ns produção mundial de alimentos. Por André Siqueira e Soraya Aggege. Foto: Pier Paolo Cito/AP

Eleito com o apoio dos países emergentes para dirigir a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO, em inglês), o brasileiro José Graziano afirma que a aliança em torno de seu nome reflete o reconhecimento do êxito do modelo brasileiro de combate à fome e representa uma aposta na Cooperação Sul-Sul. Em entrevista exclusiva a CartaCapital, Graziano fala das demandas que o Brasil terá de enfrentar, como fazer uma “revolução duplamente verde” na agricultura.

Graziano terá de transpor o abismo entre os países desenvolvidos – que fornecem a maior parte do orçamento bianual de 2,2 bilhões de dólares da instituição – e as nações emergentes, gravemente afetadas pela alta dos preços dos alimentos. Segundo ele, será preciso transformar promessas políticas em aumento efetivo do investimento na agricultura. A seguir, os primeiros trechos da entrevista. A íntegra está disponível em www.cartacapital.com.br.

CartaCapital: Até que ponto a eleição de um brasileiro para  um órgão das Nações Unidas representa avanço na  representatividade dos emergentes?

José Graziano: A aliança (dos países em desenvolvimento) reflete o reconhecimento do êxito do modelo brasileiro de combate à fome, uma aposta na Cooperação Sul-Sul e a certeza de que podemos avançar rapidamente na promoção da segurança alimentar.

CC: Uma de suas bandeiras, ao postular o cargo, era a descentralização da FAO. De que maneira a concessão de mais autonomia aos países pode contribuir para fortalecer a entidade?

JG: Há preocupações legítimas de ambos os lados, mas também existe o consenso de que divergências não podem travar o trabalho da FAO e o compromisso de buscar acordos que permitam superá-las. Há um consenso, por exemplo, de que devemos fortalecer a capacidade técnica das oficinas regionais e -sub--re-gionais-. O problema é quem vai pagar o custo financeiro disso. Por isso, durante toda a minha campanha, pedi aos países de ingressos médios, como os BRICS, Argentina, Chile, México, Venezuela e tantos outros, que apoiem mais a organização e os projetos executados nos seus próprios países para deixar mais recursos disponíveis aos países mais pobres.

CC: A crise financeira internacional atingiu mais as economias desenvolvidas do que o mundo em desenvolvimento, mas parece ter reconfigurado os mercados internacionais de commodities agrícolas, ao estabelecer patamares mais elevados para os preços dos alimentos. Qual o impacto desse cenário para as populações mais pobres?

JG: Na maior parte do mundo, a fome é um problema de acesso: existe comida suficiente, mas o que muitas vezes falta é o dinheiro para comprá-la. Famílias pobres chegam a gastar até 70% de sua renda em alimentos, daí a importância de reforçar as redes de proteção social, especialmente em épocas de alta de preços. No entanto, se isso não for acompanhado de programas de inclusão produtiva, dificilmente as famílias conseguirão manter-se acima da linha da pobreza, graças a seu próprio esforço. Para grandes exportadores de alimentos, a alta dos preços representa uma oportunidade. O desafio é utilizar isso em benefício da inclusão social. Mas o lucro com os preços mais altos nem sempre- chega até os agricultores familiares, muitas vezes ficando com intermediários do processo. Também é importante lembrar que a atual alta dos preços vem acompanhada de um aumento na volatilidade. Sem saber a que preço poderão vender sua safra, muitos agricultores têm receio de investir.

CC: Uma solução de longo prazo para os desafios da segurança alimentar está mais relacionada ao aumento da produção ou a uma melhor distribuição e utilização dos recursos disponíveis? E essa solução exige mais dinheiro ou vontade política, em âmbito mundial?

JG: Garantir a segurança alimentar depende, essencialmente, de traduzir a vontade política em ação concreta. Sem isso, o discurso fica vazio.

Para alimentar uma população mundial que deverá subir dos atuais 7 bilhões para 9 bilhões em 2050 e que vai se alimentar melhor, a FAO estima que precisamos aumentar a produção em 70%. Temos as condições de fazer isso, mas é preciso voltar a investir em agricultura. Entre a década de 1980 e 2005, a ajuda internacional destinada ao setor caiu de 17% para 3%.

CC: O Brasil tem erguido barreiras legais à venda de terras para estrangeiros. Em países da África, chineses têm adquirido largas extensões territoriais e exportam para o continente até mesmo a mão de obra que trabalhará no cultivo do solo. A internacionalização da agricultura é de fato uma ameaça?

JG: A compra de terras por estrangeiros é um fenômeno que vem ocorrendo em várias partes do mundo, que pode trazer benefícios se vier acompanhada de reinvestimentos que busquem melhoras econômicas e sociais nas áreas em questão. O fundamental é que os países desenvolvam um sistema de uso responsável da terra. A FAO está apoiando esse processo, organizando uma série de consultas com governos, setor privado, produtores, sociedade civil e organismos internacionais, que vão resultar em diretrizes voluntárias para a governança da terra e outros recursos- naturais (http://www.fao.org/nr/tenure/directrices-voluntarias-/es/).

CC: Que passos o Brasil deveria dar para se firmar como um exemplo mundial na produção sustentável de alimentos?

JG: A “Revolução Verde” ajudou a duplicar a produção mundial de cereais, mas a agricultura intensiva também tem causado uma degradação ambiental. Por isso, precisamos de uma revolução duplamente verde. Podemos produzir mais alimentos, o desafio é fazê-lo de modo ambiental e socialmente sustentável.

CC: O Brasil tem tentado, com o etanol de cana-de-açúcar, provar ao mundo que é possível apostar na bioenergia sem amea-çar a produção de alimentos. A empreitada será bem-sucedida?

JG: Eu vou parafrasear o ex-presidente- Lula para responder: biocombustível é que nem colesterol, tem o bom e tem o mau. No caso do Brasil, a produção de etanol a partir da cana-de-açúcar não afeta a segurança alimentar, e a inclusão da agricultura familiar na cadeia produtiva de biodiesel oferece a milhares de pessoas uma fonte adicional de recursos. Mas, dependendo da matéria-prima utilizada e o país em questão, o impacto pode ser negativo. Enfim, biocombustíveis não podem ser considerados uma bala de prata, mas
também não podemos demonizá-los.

Confira da entrevista

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