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A pinça bolsonarista

Opinião,Política

O crescimento recente das intenções de voto em Jair Bolsonaro, do PSL, captado pelas pesquisas do Ibope e Datafolha, e sua resiliência, mostrada pelo núcleo duro de ao menos um quarto do eleitorado que lhe declara preferência desde o começo da corrida eleitoral, são fenômenos que precisam ser bem compreendidos.

Eles se tornam ainda mais surpreendentes se levarmos em conta o fato de o candidato ter parca estrutura eleitoral e sequer ter participado diretamente da campanha, devido à internação hospitalar.

Bolsonaro quebra o paradigma da “estrutura de campanha”, baseada em generosa aliança partidária, que consolida, ao mesmo tempo, verbas e estrutura, tempo no horário eleitoral e o famoso “palanque”, propiciado pelas alianças locais. Geraldo Alckmin foi o candidato campeão do paradigma clássico e fracassou.

Sua campanha é conduzida em grande medida nas redes sociais e por grupos mais ou menos autônomos de produtores de Fake News, memes e outras peças de campanha para o Whatsapp.

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O sucesso de sua candidatura até agora não reside somente nessa quebra de paradigma de campanha eleitoral, pois outros candidatos têm estruturas de campanha de perfil similar ou até mais estruturadas e não conseguem o mesmo efeito. É preciso atentar para o conteúdo da plataforma Bolsonaro e para o modo como ele se comunica com o eleitor.

Dois são os pilares da plataforma do candidato do PSL: corrupção e segurança. Convido o leitor que tenha entabulado conversa com um bolsonarista a refletir sobre o caminho tomado pela discussão. Sempre acaba em um ou outro tema. Trata-se de assuntos bem distintos, contudo, ainda que os seguidores mais sofisticados façam associações entre eles.

O tema da corrupção chega aos eleitores quase que exclusivamente por meio da mídia, que desde 2005, a começar com o mensalão, insiste em criminalizar a política.

O PT e Lula foram desde então os alvos privilegiados dessa campanha, acusados várias vezes de maiores responsáveis pela corrupção que “assola” o sistema político brasileiro.

A associação dos grandes meios com setores do Judiciário e do Ministério Público, consolidada sob a Lava Jato, produziu a expansão da criminalização da política para além de seus alvos originais.

Todo o sistema político representativo foi engolfado, inclusive o PSDB, que ironicamente havia apostado nesse caminho para atingir seus adversários históricos.

Em 2013 vimos florescer esse sentimento de rechaço da política em praça pública, contra “tudo isso que está aí”. Desde então as coisas só pioraram, a criminalização da política se intensificou sob o signo da Lava Jato e os grupos de direita dominaram as redes sociais.

Pergunte a qualquer cidadão ou cidadã, médica, porteiro, engenheiro, faxineira, de qualquer ocupação, sobre o que acham da política e dos políticos, e verá que o que sai de suas bocas são narrativas idênticas àquelas da mídia.

É normal que seja assim, pois os brasileiros em geral não têm qualquer contato com a política e os políticos. Elas não acumulam experiência de militância, não participam de movimentos organizados, não conhecem pessoalmente políticos, em suma, não têm qualquer fonte de informação alternativa.

Bolsonaro se encaixa como uma luva no papel de outsider. Além de vir de um partido irrelevante e ser de fato um deputado baixo clero, ele representa o contrário da figura do político profissional: comporta-se de maneira histriônica e desrespeitosa, tem dificuldade de articular ideias complexas e comete erros frequentes de português.

Para aqueles que acham que a política é podre, que são contra tudo isso que está aí, o candidato do PSL representa convincentemente a promessa de mudança. Sua ausência na campanha, em vez de prejudicá-lo, favorece a imagem de outsider, enquanto os outros candidatos ficam disputando para ver quem encarna melhor o papel tradicional do político.

O pilar da segurança, por outro lado, é de natureza bastante diversa. Se a corrupção política é um discurso induzido de fora acerca de uma realidade não vivenciada, a falta de segurança é uma realidade muito presente na vida da maioria. E é exatamente isso que os faz altamente resistentes aos discursos sofisticados que venham de “fora”.

Todo mundo que começa a se informar mais seriamente sobre o problema descobre que ele envolve questões morais, legais, econômicas, urbanísticas, policiais, além dos problemas de gestão do pacto federativo.

Mas o problema é candente para o eleitorado, e Bolsonaro apresenta de pronto a resposta mais simples possível: dar todo poder à polícia e armar a população. Enquanto isso, alguns candidatos também tentam assumir uma posição linha dura, sem nunca conseguir chegar ao nível de radicalismo simplista do ex-militar, enquanto outros tentam chamar atenção para a complexidade do assunto, inutilmente.

O fracasso em “trabalhar” a questão da segurança se deve a dois fatores. Devido a sua natureza complexa, ela dificilmente será tratada com o cuidado que merece no ambiente competitivo adversarial de uma campanha eleitoral. Ademais, é muito custoso para o eleitor comum obter todas as informações necessárias para opinar com propriedade sobre o tema.

Bolsonaro fornece a esse eleitor o atalho, a solução informacionalmente barata. Novamente, ele não precisa participar de debates eleitorais ou tempo de tevê para comunicar essa solução. Tais coisas só atrapalhariam a comunicação de mensagem tão simples.

Eis a pinça bolsonarista. Duas pernas, dois temas de natureza diversa, que chegam aos eleitores por caminhos distintos e interagem diferentemente com suas vivências. É possível escapar dela?

Acho que sim. Vejamos a questão da corrupção. É impossível desconstruir do dia para a noite a percepção aguda de criminalização da política instalada no eleitorado. Assim, a única saída é arrastar Bolsonaro para a vala comum onde todas forças políticas foram lançadas, explorando as denúncias de corrupção e abuso de fundos públicos de sua biografia.

Seria ingênuo esperar que os meios de comunicação desistissem de uma vez por todas de sua cruzada anti-PT, mas como é possível que Bolsonaro não se torne palatável para alguns, pode haver alguma adesão à campanha de desconstrução do candidato do PSL.

No que toca a segurança, é urgente que os opositores de Bolsonaro consigam organizar um discurso simples e direto que apele à vivência cotidiana dos cidadãos. Essa é tarefa ainda mais difícil.

De uma coisa podemos estar certos: não há caminhos alternativos para fora desse buraco no qual o Brasil foi enfiado.

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Professor de Ciência Política do IESP-UERJ, o antigo Iuperj. Coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), que abriga o site Manchetômetro (www.manchetometro.com.br) e o boletim semanal Congresso em Notas (congressoemnotas.tumblr.com).

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