Opinião

Uma tragédia ambiental assola o Brasil e os responsáveis se escondem

Bolsonaro é, certamente, um dos capítulos mais tristes e ridículos da história do nosso País

Quem andava por São Paulo na segunda-feira 19 pode ter se imaginado numa cena de um filme de ficção científica apocalíptico. Ainda eram 3 da tarde quando um céu cor de chumbo cobriu a cidade e causou a estranha impressão de os ponteiros do relógio terem sido adiantados.

A causa percorreu ao menos 3 mil quilômetros. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia e o Climatempo, a fumaça das queimadas na Amazônia, especialmente no Acre, Rondônia e na Bolívia, havia sido carregada por uma frente fria que atravessou o Norte e o Centro-Oeste e chegou ao Sudeste. O excesso de umidade associado à quantidade imensa de cinzas produzidas pela queima de quilômetros de floresta escureceu o céu e deu visibilidade pública ao drama ambiental vivido pelo País. As queimadas chegaram na Avenida Paulista, na Faria Lima e na Berrini. Não deu mais para fingir que nada acontece.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Brasil registrou até agosto deste ano 72 mil focos de incêndio, mais da metade na Amazônia. É quase o dobro do total do ano passado inteiro. Só nos primeiros 19 dias de agosto contavam-se cerca de 34 mil incêndios. Parece mesmo que um Nero Tropical passou por aqui, ou melhor, instalou-se no Palácio do Planalto e nos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. 

No mesmo mês em que Ricardo Galvão foi exonerado do cargo de diretor do Inpe, justamente por apontar o alarmante aumento do desmatamento da Floresta Amazônica, o Brasil vê os dados publicados – e acusados de serem falsos – tornarem-se realidade. Galvão disse na televisão para Ricardo Salles, o ministro que tem ódio do meio ambiente, que era melhor acreditar nos dados científicos de seu instituto do que nas “balelas” que circulavam nas redes sociais. Bolsonaro, em franca regressão à fase anal, orientou os cidadãos a defecarem dia sim, dia não para assegurar a preservação dos biomas. Uma tragédia ambiental assola o Brasil e os responsáveis escondem-se covardemente atrás de mentiras e infantilidades. 

O estrago é tamanho que levou campos políticos outrora adversários a se juntarem para enfrentar a cruzada contra o nosso patrimônio ambiental. Há poucos meses, uma frente inédita com ex-ministros do Meio Ambiente desde a criação da pasta, em 1992, foi criada para defender os órgãos de fiscalização e as políticas ambientais sob risco fatal.

Até políticos ruralistas insuspeitos de “ambientalismo” chamam atenção para as consequências, inclusive no agronegócio. “Os importadores, principalmente os europeus, vêm visitar as lavouras. Se plantamos em área desmatada, eles não compram”, disse Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura de Temer e notório representante dos ruralistas.

O resto do mundo também está chocado. De forma expressiva e inédita, lideranças internacionais de todos os espectros políticos fazem duras críticas a Bolsonaro e ao Brasil. Países como Alemanha e Noruega bloquearam repasses para um fundo milionário de defesa da Amazônia. O presidente reagiu com chacotas e com o compartilhamento vexatório de um vídeo de caça a baleias na Dinamarca, atribuindo-o à Noruega. O argumento de que, ao ignorar os apelos internacionais, o governo preservaria a nossa soberania revela-se em toda sua hipocrisia quando lembramos da declaração do próprio Bolsonaro, em abril, de que propôs a Trump “explorar a Amazônia em conjunto com os EUA”. 

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Ao que parece, a postura criminosa do governo seguirá enquanto não enfrentar um clamor social. Salles afirmou que relacionar o céu de chumbo com as queimadas não passa de “sensacionalismo”. Bolsonaro, para variar, foi além. Chegou ao delírio de acusar ONGs de organizar as queimadas para “chamar atenção”. Quem poderia imaginar que, em nome da luta contra o desmatamento e o aquecimento global, diretores de ONGs grilam terras, derrubam florestas para plantar soja e agora planejam queimadas? Completo despautério.

Bolsonaro é, certamente, um dos capítulos mais tristes e ridículos da história do nosso País. Com muito esforço, a sociedade será capaz de reverter uma série de ataques contra a democracia e os direitos sociais do atual governo. Infelizmente, não será possível apagar a destruição de quilômetros da maior floresta do mundo, queimados diariamente e em quantidade cada vez maior, nem das vidas indígenas eliminadas pelo avanço do garimpo e da mineração. Não falamos de dados técnicos ou opiniões contraditórias. Quem respirou o ar e viu a cor do céu nos últimos dias entendeu o preço que vamos pagar se não interrompermos imediatamente a destruição do ecossistema do nosso próprio País. Neste exato momento, o nosso futuro está em chamas.

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