Opinião

Um Brasil entre o histriônico Bolsonaro e o intimista Mourão

Se ficar, Bolsonaro seguirá sendo o contraponto irracional ou, para usar suas palavras, o ‘idiota útil’

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Nos últimos dias, começou-se a ventilar a hipótese de um impeachment do atual presidente, Jair Bolsonaro. Correlato a isto, o presidente alardeou contra as corporações, convocando um ato da sociedade civil, em combate à “velha forma de fazer política”, o que costumamos chamar aqui de “mercado político”.

Na chamada para o ato, Bolsonaro fez uso de um texto informal de um seguidor, em que afirma a “disfuncionalidade” do Brasil. O atual presidente, mesmo aparentando não entender o papel dos meios institucionais, só tem feito reafirmar os pilares das instituições liberais. Isto porque reproduz, mesmo que sem perceber, um valor fundante do pensamento funcionalista capitalista, que ensina a nós que a sociedade é como um corpo humano, cujos órgãos possuem uma função predeterminada e cujos problemas devem ser tratados como se fossem doenças, desvios. Assim seriam os órgãos públicos.

Ao condenar a relação entre as corporações e o Estado, Bolsonaro, de fato, aponta para uma aproximação inevitavelmente problemática, que envolve interesse privado e interesse público. Ocorre, somente, que, ao criticar os desvios, Bolsonaro atualiza a fantasia de que há uma separação, de fato, entre duas instâncias: o público e o privado. Os problemas derivados da relação entre os dois seriam abusos, a serem tratados como doenças. Assim, no Brasil, tentam simplificar as coisas, sugerindo que as relações viciadas de troca entre capital e Estado são corrupção – a Era PT – e as saudáveis são “presidencialismo de coalizão”, a “velha nova forma de fazer política”.

É fato que a relação entre o Estado e as corporações só podem resultar nisto que chamam de corrupção, dado o antagonismo fundante das noções de interesse público e interesse privado. Um, servir ao povo. O outro, beneficiar-se e proteger-se dos outros. Ocorre só que, ao criticarmos a corrupção não atentamos para o fato de que há uma relação de apoio recíproco, ainda que marcada por disputas, entre a máquina pública e o empresariado. Caso contrário, seria desnecessário forjar a própria ideia de público, dado que nada seria exclusivo de quem possui capital. Tudo seria coletivo, tudo seria meu e dos outros – aquele tal “nosso” -, sem que “os outros”, a vida em comunidade, tivessem que assumir uma forma abstrata, formal e coercitiva.

A razão da coisa coletiva assumir uma forma mediada pelo Estado – a forma de público – é justamente a necessidade de filtrar as forças coletivas do chamado mundo privado. Se Bolsonaro parece ignorar os filtros, o que efetivamente faz é fortalecê-los. Quando o presidente polariza com os empresários, o que faz é reforçá-los, pois o Estado adquire fundamento justamente nesta polarização.

Esta divisão artificial entre a vida pública e a vida privada funda a crença de que o sujeito é cindido em dois polos antagônicos, duas consciências com forças contrárias: de um lado, um cidadão, dotado de consciência comum, compartilhada por uma dada sociedade; do outro, o indivíduo, dotado de personalidade, daquilo que, segundo seus teóricos, corresponde ao que nos é pessoal e distinto. Aí, vem todas as consequências desta forma de entender a realidade: a noção de que, no âmbito público, temos direitos e deveres, e que, só no âmbito privado, temos a tão sonhada liberdade.

Estes seriam os pilares nos quais alguns sustentam que, na vida pública, temos uma força que nos coage e, assim nos organizam, caso contrário nos devoraríamos como lobos. Na vida privada, por sua vez, bastaria uma “solidariedade negativa”, que, longe de unir, só ocorre para melhor separar o que estaria unido pela força das coisas.

Assim, de um lado, é necessário um Estado para impor a ordem, do outro, está a sociedade civil e suas relações contratuais entre coisas e pessoas. Ao defender uma assepsia na política, limpando-a do privado, Bolsonaro atualiza uma dicotomia que é fundamental para as corporações fazerem de conta que o Estado não é seu comitê. Como se fosse possível um Estado Puro, no capitalismo.

Desta maneira, os especialistas correm para aprofundar esta ignorância: situando Bolsonaro na pauta política e os demais, na pauta econômica, de um governo que “ainda não começou”. E, assim, apartada, estaria a lúcida e razoável economia dos chicago boys – mais especificamente as medidas impopulares como a reforma da previdência, o aumento de custo de vida, o corte na educação e na saúde, a independência do Banco Central. Essas e outras medidas ficam reservadas aos “mais razoáveis”, aos “técnicos”.

Neste sentido, diante de diagnósticos que mais se assemelham a sintomas – “cortinas de fumaça” e “desgovernos” – é preciso lutar para que o Brasil não funcione. Longe de toda falsa dicotomia, é preciso vincular política e economia, público e privado, conservador e liberal, irracional e racional, Bolsonaro e Paulo Guedes. Ao ponto de superarmos as próprias categorias a nós apresentadas como aptas a explicar o mundo. Nem economia, nem política, mas economia-política; Nem privado, nem público, mas coletivo; Nem racional, nem irracional, mas contraditório; Nem conservador, nem liberal, neo-conservador. Nem Bolsonaro, nem Guedes, mas Mourão.

Uma fusão para acabarmos com a confusão, associando o que querem dissociar. É neste sentido, que uma estratégia para os setores da esquerda parece ser o impeachment da chapa Bolsonaro-Mourão, não porque sejam iguais, mas porque a distinção entre os dois não é o fator determinante para seu fracasso. Ao contrário. Bolsonaro já bem soube tirar proveito de uma diferença – entre ele mesmo e Guedes – quando, ressaltando sua aura de humilde, afirma nada entender sobre economia. Desta diferença, o presidente assemelha o super ministro a seu melhor representante.

Compreendendo todos que estão no governo como um governo só, mudamos o potencial dos fatos possíveis. Por enquanto, se ficar, Bolsonaro seguirá sendo o contraponto irracional ou, para usar suas palavras, o “idiota útil”, reservado à pauta política, em oposição à racionalidade econômica de Mourão e Cia; Se cair, cairá como este elemento impuro que precisava ser extirpado para que os razoáveis pudessem “começar a governar”, em uma espécie de assepsia do econômico, de “mouralização” do governo. Diante disto, é talvez preferível que o Rei siga nu, dizendo o interdito.

O impeachment de Bolsonaro adquire, sim, potencial dramatúrgico – algo além do performático – desde que acompanhado de um outro narrador. Aquele que seja capaz de colar o histriônico Bolsonaro ao intimista Mourão, colar o político no econômico, vincular os aspectos tidos como irracionais, aos vistos como racionais, do governo. Apontando para o fato indubitável de que o governo é um só. Mesmo que caia, aos pedaços.

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