Transformar Sérgio Moro em salvador é uma lorota velha e mofada

Ele sempre soube que estar ali o deixaria forte. O convite ao ministério foi um petisco irresistível para o seu ego

Transformar Sérgio Moro em salvador é uma lorota velha e mofada

Opinião

Vivemos uma crise política que é institucional, de representatividade, de referências. Mas, quanto mais pensamos nela, quanto mais tentamos sair dela, mais evidente fica a nossa falta de alternativas, a nossa falta de imaginação. No fim, acabamos recorrendo ao que já existe.

E o que já existe por aqui é aquela fuga bem conhecida e para lá de cômoda ao nosso nada imaginativo imaginário político latino-americano. Buscamos o tal salvador da pátria, um ser, ou melhor, um homem iluminado que, num passe de mágica, ou de realismo mágico, possa mudar tudo, nos purificar, nos salvar de um terrível destino.

Essa política desimaginativa, praticada na e para a América Latina, se espalha por todos os campos ideológicos. E baixou no agora ex-ministro Sérgio Moro. Se só Bolsonaro poderia nos livrar do PT, agora só Moro poderá nos livrar de Bolsonaro.
Lorota. E das velhas, mofadas.

Moro esperou fria e estrategicamente para, no momento exato, pular fora de um barco à deriva. É um exímio jogador de xadrez. Ou, talvez, de pôquer. Passou um tempo blefando para, enfim, colocar o rei em xeque, mostrar as cartas. E Bolsonaro pagou para ver.

Ao longo de quase um ano e meio, Moro compactuou com o atual governo. Se fosse para não manchar sua biografia, poderia – deveria – ter saído antes. Mas escolheu este momento. Por quê? Porque, para Moro, não basta uma biografia. Sustentar e preservar uma linha narrativa também é essencial.

Embora soubesse desde o início que se meteria com más companhias, aceitar o cargo de ministro foi, para ele, o melhor o caminho. Para acumular influência, não tinha outra opção em 2019 a não ser participar do governo que mais representava sua linha anti-PT, antiesquerda, beija-mão dos conservadores. Era só seguir apontando para os alvos certos e dar continuidade ao seu trabalho como El Justicero. Com, no entanto, uma diferença nada trivial: ter mais poderes do que aqueles que exibia em Curitiba.

Moro sempre soube que estar ali o deixaria forte. O convite ao ministério foi um petisco irresistível para o seu ego, combustível extra em seu sonho de caubói, sua fantasia de ser o mocinho, o paladino que libertou o país de mais de 500 anos de corrupção. O maior herói dos brasileiros, o salvador dos salvadores!

Se o governo, à sua maneira, desse certo ou se mostrasse minimamente competente, o ex-juiz poderia sair como o grande ministro da Justiça, aquele que diminuiu a criminalidade, construiu prisões, prendeu corruptos – mesmo sem nada disso acontecer de fato. Viraria o sucessor natural de Bolsonaro.

Se desse errado… bem, já vimos qual era o plano.

Bolsonaro pode ter cometido um crime de responsabilidade atrás do outro, mas nenhum deles foi forte o suficiente para justificar a Moro sua saída. O ex-ministro jamais contrariou o chefe: quando não endossou delírios autoritários, se omitiu. Mais que obediente, foi calculista.

Aguardou o episódio que mais reforçasse a verossimilhança da trama do defensor democrático contra a gangue de vampiros da República e saiu delatando a corrupção – mas não qualquer corrupção. Era justamente o tipo de corrupção que neutralizaria o seu poder de fazer justiça e caçar bandidos. Bolsonaro, afinal, tentou mexer no vespeiro da Polícia Federal.

Se Moro for mais esperto como investigador do que foi como juiz, passou os últimos meses colecionando provas. E, assim, poderá se tornar o responsável por engatilhar o impeachment. Mais uma vez.

Porém preferiu não declarar xeque-mate de uma hora para a outra: a partida segue em curso. Jogador cauteloso, Moro, tanto em seu discurso de renúncia quanto no depoimento à Polícia Federal, evitou acusar Bolsonaro de qualquer crime. Apenas distribuiu as pistas que, acredita, levarão a PF e o Ministério Público às vias de fato contra o presidente. Afinal, seu objetivo não é apenas limpar a mesa – é quebrar a banca.

Assim, cada vez mais popular, Moro vai reforçando o arquétipo do herói, a conversa para boi dormir do santo guerreiro pró-democracia contra o dragão da corrupção – agora rumo a 2022. Até aqui, seus planos ambiciosos estão dando certo. E isso não tem nada de teoria da conspiração. Moro não passa os dias numa sala cheia de post-its, ensaiando planos de dominação mundial entre risadas malignas. Acreditar em qualquer tipo de luta entre o bem e o mal seria endossar, ainda que pelo outro lado, a narrativa maniqueísta engendrada pelo próprio Moro. Não podemos nos deixar levar por um fla-flu dos puros contra os impuros, acima de tudo na política. Pessoas agem por instinto, intuição, oportunidade. Mesmo que, como no caso de Moro, com habilidade e pragmatismo.

Ele será eleito? Isso é outra história. Será autoritário (como foi quando juiz)? Isso é outra história – parte dois. Até lá, podemos ser surpreendidos com vários plot twists. Mas, observando seu jogo até aqui, em especial a partir de sua saída, já entendemos suficientemente bem como ele maneja as peças no tabuleiro.

Sua estratégia maior é fazer de tudo para que os brasileiros continuem a (des)imaginar a política na personificação de um homem – branco – pronto para nos salvar.

Afinal, a imaginação política é inovação política – o direito a imaginar outras formas de organizar o sistema político e de estar em sociedade de maneira mais junta, diversa, igualitária e sustentável. Isso não é, nem de longe, o que Sérgio Moro tem em mente.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É cientista social, cofundadora e diretora do Instituto Update, organização da sociedade civil sem fins lucrativos que fomenta a inovação política na América Latina com o objetivo de fortalecer a democracia.

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