Toda solidariedade ao professor de Criciúma, vítima da homofobia e da ignorância

O prefeito Clésio Salvaro será punido por sua conduta, que destoa completamente das atribuições de um gestor público?

Clésio Salvaro, prefeito da cidade de Criciúma, em Santa Catarina (Reprodução/Redes Sociais)

Clésio Salvaro, prefeito da cidade de Criciúma, em Santa Catarina (Reprodução/Redes Sociais)

Educação,Opinião

Todos os dias me pergunto: desde que nos tornamos uma democracia, as pessoas já se sentiram tão à vontade para destilar ódio e preconceito? Em algum momento, a ignorância, a estupidez, a indigência moral e intelectual serviram de plataforma política? Houve outra ocasião em que presidentes e parlamentares passaram por cima de direitos com a velocidade de um trator?

 

 

 

Na noite de ontem, ao tomar conhecimento do episódio em que um professor de artes da rede municipal de Criciúma (SC), tornou-se vítima da homofobia e do obscurantismo do prefeito Clésio Salvaro (PSDB), fiz as perguntas acima novamente.

Homofobia é crime. Expor um servidor público de maneira tão perversa e odiosa também

Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o tucano usou os seguintes dizeres para ameaçar e ofender o educador, que durante uma aula havia exibido o clipe da música Etérea, do cantor e compositor Criolo, para falar de homofobia com os alunos do 9º ano:

“Não permitimos, não toleramos, está demitido o profissional. Nas escolas do município, enquanto eu estiver aqui de plantão, isso não vai acontecer, esse tipo de ‘viadagem’ na sala de aula, nós não concordamos. E se os pais souberem de algo parecido que foi exposto para os seus filhos, por favor, entrem em contato com o município”.

Conforme ficou explícito na gravação, Salvaro agiu como se fosse um ditador, e não um gestor público eleito democraticamente por meio do voto. Sem dar chance de defesa, agiu como se o professor fosse seu serviçal, que lhe deve subserviência, quando, na verdade, tratava-se de um servidor público, amparado por uma série de direitos, dentre eles, a liberdade de cátedra.

 A prática pedagógica adotada pelo professor tinha como premissa reconhecer e celebrar a diversidade, e também provocar reflexões a respeito das discriminações sofridas por homossexuais, que fazem do Brasil o país que mais mata gays no mundo. A letra de Etérea é composta pelos seguintes versos: “É necessário quebrar os padrões / É necessário abrir discussões / Alento pra alma, amar sem portões / Amores aceitos sem imposições / Singulares, plural / Se te dói em ouvir, em mim dói no carnal”.


Além da liberdade de cátedra do professor, a atividade vai ao encontro das prerrogativas das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental, cujo artigo 16º prevê que “os componentes curriculares e as áreas de conhecimento devem articular em seus conteúdos (…) a abordagem de temas contemporâneos, como gênero e sexualidade”. Nesse sentido, fica evidente que o educador não cometeu nenhum “crime” ou agiu em desconformidade com o que apregoa a legislação educacional vigente.  Muito pelo contrário. Com a atividade, ele buscou fazer da sala de aula um espaço inclusivo, de promoção do respeito e da equidade.

Na condição de educadora e professora da educação básica por mais de uma década, o debate em relação às consequências da homofobia sempre esteve presente em minhas iniciativas pedagógicas, não só pela consciência de que é preciso cumprir as orientações dos documentos legais, mas também pelo meu compromisso de formar cidadãos críticos e participativos, que refutem toda ordem de preconceitos. Nessa caminhada, encontrei estudantes e famílias abertas, que acolheram com muito entusiasmo o trato dessas questões em sala de aula.

Do alto de sua limitação e ignorância, o prefeito de Criciúma desconhece que a juventude não quer, não deseja essa sociedade carcomida, retrógrada, violenta, perversa, que ele defende e apregoa. Tenho certeza de que se tivesse sido dado o direito aos estudantes de falar sobre a aula e sobre as questões trazidas pelo professor, a maioria deles responderia que considera a homofobia um tema importante. Homofobia esta que todos os anos expulsa centenas de alunos e alunas da escola.

Nesse Brasil cada vez mais autoritário e opressor, em que políticos agem como capatazes, na base da ameaça, há quem diga que “as instituições estão funcionando normalmente”. Ao discordar dessa assertiva, lanço mais uma pergunta: o prefeito Clésio Salvaro será punido por sua conduta, que destoa completamente das atribuições de um gestor público? Homofobia é crime. Expor um servidor público de maneira tão perversa e odiosa também.

Entristecida com esse episódio, presto solidariedade ao meu colega — que, segundo informações da Folha de S.Paulo, irá deixar Criciúma em razão das ameaças que vem sofrendo.

Vivemos dias muitos difíceis, sobretudo pra quem luta, sonha e tem esperança.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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