Retrospectiva: A China de 2020 já está no futuro

Passados onze meses, a taxa de transmissão do coronavírus está praticamente zerada no país. Qual o segredo?

Médico abraça colega na cerimônia de homenagem aos reforços de saúde enviados a Wuhan, China. (Foto: STR / AFP)

Médico abraça colega na cerimônia de homenagem aos reforços de saúde enviados a Wuhan, China. (Foto: STR / AFP)

Mundo,Opinião

2020 foi o ano que mudou as nossas vidas, e a China foi central neste processo: a cidade de Wuhan foi o primeiro epicentro da Covid-19, que então nem tinha este nome, nem seu potencial pandêmico estava comprovado.

Dada a crise, que teve como episódio central o dia 20 de janeiro com a divulgação de que o novo coronavírus permitia transmissão entre humanos, a China começou uma batalha para conter a doença.

No dia 23 de janeiro, quando Wuhan decretou uma quarentena estrita, a China ficou ainda mais presente no noticiário. A cidade, uma desconhecida para muitos, passou a figurar nos diálogos cotidianos e, claro, a ser alvo de um sem fim de informações falsas – das sopas de morcegos comidas por seus habitantes à população confinada sob estrita vigilância governamental. O modelo de gestão chinês, bem como os hábitos de sua população, passaram a ser alvos de críticas, na maior parte das vezes infundadas.

Passados onze meses, Wuhan segue uma rotina quase normal. As casas de show e bares estão lotados, mas não de quem se arrisca. É que a taxa de transmissão do coronavírus está praticamente zerada na China. Quando ocorrem surtos eventuais em alguma cidade, como o caso de Beijing, que na última sexta registrou dois infectados, há uma intensa campanha de testagem em massa e rastreamento de contatos. Os doentes são tratados em hospitais com alas designadas à Covid-19, estando eles em estado crítico ou não, e só saem quando já não há mais taxa viral.

Um trabalho que faz do país um lugar seguro para se viver, ainda que as máscaras e o álcool em gel tenham se tornado hábitos cotidianos. Uma vida quase normal ante o novo normal, ou o mundo no futuro. Só que com uma diferença: talvez muitos países atinjam este patamar graças a vacinas e só daqui a alguns meses. Vacina nem sequer é tema amplamente debatido ou motivo de ansiedade entre os chineses. E isso que o país têm quatro promissoras na fase III de testes.

Uma delas é bem conhecida dos brasileiros, a Coronavac, desenvolvida pela companhia chinesa Sinovac, e que tem o Instituto Butantã como parceiro. Ou seja, poderia resolver dentro de casa mesmo a produção e o abastecimento das doses. Fato é que vacinar nem é prioridade por lá, ainda que emergencialmente mais de 1 milhão de chineses já tenham recebido vacinas, especialmente representantes do corpo diplomático e executivos de multinacionais.

Festa em Wuhan, epicentro do coronavírus (Foto: Hector Retamal/AFP)

 

Tecnologia

A tecnologia que permitiu o desenvolvimento de vacinas tão rapidamente é fruto de pesquisa e desenvolvimento e, claro, de muito investimento em inovação e educação. É política de Estado e reflete ações para o desenvolvimento chinês em diversas outras áreas. Não é à toa que a China é um dos únicos países do mundo, ao lado de Finlândia e da Suécia, que têm uma empresa capaz de garantir equipamentos para a instalação da rede 5G no mundo. Estamos falando aqui da Huawei, que acabou virando símbolo na guerra tecnológica liderada pelos Estados Unidos contra a China – e na qual embarcaram outros países, alguns dos quais barrando ou limitando a presença da empresa chinesa em seus sistemas de telecomunicação.

Ocorre que vacina e 5G são só os exemplos mais debatidos entre os feitos tecnológicos chineses em 2020. No ano da pandemia, a China apresentou ao mundo seu sol artificial, que é uma máquina de fusão nuclear capaz de gerar energia mais limpa e praticamente inesgotável, atingiu a supremacia quântica com o supercomputador que, com a utilização de fótons realizou em minutos um cálculo que um computador levaria 2 bilhões de anos, e coletou detritos e rochas lunares (algo que não acontecia há 44 anos e que foi feito até então apenas por missões norte-americanas e russas). Este último feito foi realizado pela nave exploradora Chang-e 5, que integra o programa lunar chinês e não por acaso é batizado com o nome da entidade mitológica que, segundo a tradição chinesa, mora na lua pela eternidade.

O foco em tecnologia é constante no modelo chinês, e isso se expressa em planos e programas, nem sempre acertados, desde a chegada do Partido Comunista ao poder, em 1949. Em março do ano que vem, quando a China deverá conhecer o 14º Plano Quinquenal, o instrumento político institucional de planejamento para os próximos cinco anos, a tecnologia terá destaque já nas primeiras páginas, conforme rascunho do documento apresentado em novembro. O objetivo chinês é fortalecer sua economia de olho no futuro e no que moldará a indústria 4.0, além de permitir um desenvolvimento ambientalmente amigável.

Tudo isso em meio a outro feito que pode ter passado batido: neste ano, a China garantiu a meta de eliminar a pobreza extrema, retirando, desde 1978, 600 milhões de pessoas desta condição. Tal feito em meio à pandemia não é desprezível e consistiu também num esforço de melhorar as condições de vida em regiões rurais, onde vivem pouco mais de 40% dos chineses. Mesmo a economia como um todo dá sinais de que fechará o ano no positivo, afastando a queda brusca de -6,8% do Produto Interno Bruto (PIB) registrada no primeiro trimestre ante igual período do ano passado.

Feitos para quem sabe espelharmos ações que possam servir de base para o nosso futuro próximo. Na China ele já é o presente.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista mestre em Economia. Morou na China de 2007 a 2013 e vai ao país com regularidade à trabalho. Pilota desde 2011 o Radar China, canal dedicado a interpretar a China e a relação sino-brasileira no YouTube.

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