Relação com o Brasil estremeceu, mas a China não deve negar insumos

'A Coronavac e outras vacinas são um instrumento importante da diplomacia chinesa', analisa Janaína Silveira

Laboratório de teste da vacina da Sinovac, na China. Foto: NICOLAS ASFOURI/AFP

Laboratório de teste da vacina da Sinovac, na China. Foto: NICOLAS ASFOURI/AFP

Mundo,Opinião

A quarta-feira 20 marca um ano do dia em que a China escalou seu principal pneumologista, Zhong Nanshan, para anunciar em rede nacional que a Covid-19 – que nem tinha recebido este nome ainda – era transmissível entre pessoas.

Era o alerta de que algo ia mal em Wuhan, o primeiro epicentro da doença. A cidade fecharia três dias depois em uma severa quarentena que durou até 8 de abril. A China virava o assunto da vez.

Um ano depois, o país asiático volta ao centro do debate brasileiro ainda devido à doença, mas desta vez por causa da vacina. Mais precisamente, da CoronaVac, produzida pelo laboratório chinês Sinovac. Parceira do Instituto Butantan, a SinoVac precisa enviar ao Brasil o IFA, ou Insumo Farmacêutico Ativo, essencial para produzir as doses.

O sucesso do combate à pandemia no Brasil com Coronavac é, sim, uma vitrine para a China.

Há uma carga contratada parada no aeroporto de Beijing. São Paulo garante que ela chegará sábado, mas no governo federal, os bastidores dão conta de que as recentes bravatas contra a China estejam dificultando a viagem.

Procurada pela coluna, a Embaixada da China no Brasil não fez pronunciamentos oficiais até o início da noite desta terça-feira. Reservadamente, interlocutores do embaixador sustentam que o contrato firmado entre a Sinovac e o Butantan não têm qualquer vinculação com a política e que, se o embarque está previsto, ocorrerá.

Mas, até que as doses decolem, haja especulação.

Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

Tensão além-mar

As relações entre Brasil e China estremeceram no ano passado. O estopim foram ataques de ministros e ex-ministros do governo Bolsonaro, bem como do filho Eduardo, deputado federal que preside a Comissão de Relações Exteriores da Câmara. Provocada, a Embaixada da China no Brasil reagiu, numa troca de em tuítes pouco comum na diplomacia.

Agora, jornalistas, analistas e parlamentares atribuem a tais ataques a demora no envio dos insumos das vacinas ao Brasil. Especialistas na relação Sino-Brasileira não atestam que seja este o caso, mas tampouco o descartam.

É curioso notar no governo brasileiro uma movimentação para buscar interlocutores com a China, apelando a nomes que compõem a atual estrutura e até a aliados de fora da máquina estatal. Esta tese ganhou destaque até mesmo entre parlamentares.

Outra análise digna de nota é a de que o Brasil, um país em desenvolvimento, não seria prioridade para a China. Num mundo em pandemia, e vacinas escassas, os chineses priorizariam parceiros mais relevantes e, claro, mais amistosos.

Além disso, a China tem uma população inteira para vacinar em um momento em vê o número de casos crescer – na contagem oficial, não chegam a duas centenas por dia. Mas estes surtos, que vem sendo relatados já há cerca de duas semanas, não eram reportados há meses.

Vale destacar que a CoronaVac e outras vacinas são um instrumento importante da diplomacia chinesa. Promovem o país não apenas como um produtor de medicamentos, mas como uma nação que foi capaz de desenvolver um imunizante em um curto espaço de tempo.

Este ponto é fundamental também para entender que politicamente, ainda que tenham rusgas em relação ao Brasil, o confronto talvez não seja a estratégia ideal para os chineses. O sucesso do combate à pandemia no Brasil via vacina chinesa – território em que ela é até agora a única – é, sim, uma vitrine.

Aliás, o próprio fato de o Brasil ser um país em desenvolvimento é parte da estratégia diplomática chinesa com as vacinas. Em recente editorial, o jornal Global Times, que expressa muitos política externa do governo chinês, destaca que as vacinas chinesas são mais fáceis de serem acondicionadas (a CoronaVac, por exemplo, requer temperaturas de 2ºC a 8ºC, bem diferente dos -70ºC das doses da Pfizer ou dos -20ºC da Moderna, por exemplo), garantindo apoio aos países em desenvolvimento e quebrando hegemonia das nações mais ricas.

O presidente Jair Bolsonaro, ao lado do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, durante recepção ao chefe de Estado brasileiro no país. Foto: Alan Santos/PR

O Brasil à espera da Índia

A escassez de vacinas no Brasil também trouxe a relação do País com a Índia. As 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca, que assim como a CoronaVac, recebeu autorização para ser ministrada por aqui, devem chegar em março.

Está situação não tem a ver só com o fato de a Índia priorizar os vizinhos e parceiros estratégicos (enviará primeiro ao Butão, Maldivas, Mianmar, Bangladesh, Nepal e Ilhas Seychelles). Temendo que poucos laboratórios no mundo conseguiriam acordos com as farmacêuticas, a Índia queria a quebra de patentes das vacinas e medicamentos contra a Covid-19. O Brasil foi, entre os países em desenvolvimento, o único a votar contra a proposta, seguindo Estados Unidos, Japão e União Europeia.

Se a decisão fosse outra, possivelmente haveria mais laboratórios aptos a produzirem a vacina

De volta à China

A China divulgou nesta semana o resultado de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para 2020, de 2,3%. O resultado é o menor em 44 anos, mas ninguém contava com uma pandemia. O PIB chinês do primeiro semestre do ano passado havia despencado 6,8%, num reflexo direto do fechamento da indústria e da redução drástica de atividade nos portos e aeroportos. Mas a recuperação que veio nos trimestres seguintes e se manteve no ano revela que conter a pandemia injeta vigor econômico.

No ano passado, a China viveu a primeira quarentena desta pandemia às vésperas do ano novo chinês. Regido pelo calendário lunar chinês, o ano novo chinês, também conhecido como Festa da Primavera, é móvel, e cai entre janeiro e fevereiro. Neste ano, será em 12 de fevereiro.

 

É uma data de celebração familiar, em que os chineses promovem o que adoram chamar de a maior migração anual: milhões de pessoas deslocam-se pelo país de trem ou avião para encontros com a família. Em 2020, a quarentena em Wuhan e cidades vizinhas forçou muitos a abandonarem os planos, outros tantos ainda sem restrição de mobilidade, a desistirem das viagens.

Fato é que a movimentação começa alguns dias antes do feriado, e estas é uma das principais críticas às autoridades de Wuhan, pois já cientes da doença na cidade, permitiram que 5 milhões de pessoas viajassem antes da quarentena. Neste ano, já preventivamente e convivendo com dezenas de novos casos todos os dias, o governo trabalha para desencorajar as viagens. Segundo o próprio governo, o número deve ser 60% menor do que no ano passado.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista mestre em Economia. Morou na China de 2007 a 2013 e vai ao país com regularidade à trabalho. Pilota desde 2011 o Radar China, canal dedicado a interpretar a China e a relação sino-brasileira no YouTube.

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