Opinião

Quando a vida é um pouco de arroz com feijão

No que se transformou comprar um punhado de grãos?

Foto: iStock
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Era assim. Ele acordava todos os dias às cinco horas da madrugada em ponto, quando o despertador à beira da cama o chamava. Ainda era noite, mas os primeiros raios do dia ensaiavam despontar, em poucos segundos, no morro que ainda era possível avistar no bairro onde morava. Todo dia ele fazia tudo sempre igual, fazendo jus a uma velha canção de Chico Buarque de Hollanda.

Era rotina mesmo. Rezava ainda na cama, tomava cuidado para pisar no chão com o pé direito, procurando as sandálias Havaianas que passavam a noite ali a seu lado esperando seus pés no dia seguinte. Saía no escuro apalpando os móveis para não acordar a companheira de tantos anos. Ia direto na porta da rua pegar o jornal no capacho que, nos dias de chuva, vinha embalado num plástico cinza.

Passava os olhos, na primeira página e sempre se lembrava de Gilberto Gil, todas as manhãs. Jornal é tão bonito, tudo escrito, tudo dito, tudo num fotolito, é tão bonito um jornal. Água no fogo, pó no coador, garrafa térmica lavada. O pão na chapa, o queijo Minas derretendo, o orégano por cima.

Gostava de estender as roupas no varal quando o sol surgia mais forte. Sentia que, além de secar, espantava qualquer tipo de fungo que ficava nas toalhas de banho durante o inverno. Aguava as plantas antes do sol arder, leu na Enciclopédia das Plantas que água em terra quente acaba cozinhando a raiz e levando a morte o pé de chuchu, a ameixeira, as couves, a hortelã, o tomilho limão, o manjericão, aquelas ervas que cultivava junto ao muro.

Hoje, pegou a lata onde guarda o feijão, mediu duas xícaras bem cheias e colocou os grãos sobre um pano de prato bem limpo. Pacientemente, foi separando as pedras, até a última. Limpinho, jogou os feijões pretos com um pouco de água na panela de pressão. Ligou o fogo e percebeu que o arroz havia acabado.

Desceu a pé a Rua Grão Mogol, virou à esquerda e chegou ao Bairro dos Funcionários. Era ali que estava instalado há décadas, o Armazém Colombo, de uma família de portugueses da Ilha da Madeira. Chegou, cumprimentou o dono, foi até o balcão e pediu um quilo de arroz. Ok, um quilo de arroz.

Seu Ferreira, lápis na orelha, foi até o saco de linhagem na porta do armazém e mergulhou nos grãos uma concha de alumínio, abriu o saquinho de papel kraft e, com maestria, sem derrubar um grão, encheu o saco.

Na balança Filizola vermelha instalada ao lado da caixa registradora National, a NCR, conferiu o quilo certinho, dobrou as pontas do saquinho e disse o preço.

Com algumas notas de cruzeiro pagou o quilo de arroz, agradeceu e tomou rumo da Grão Mogol, subindo até a altura da Rio Verde.

Era assim, hoje não é mais. Hoje, chegamos no supermercado para comprar arroz e encontramos arroz agulhinha, arroz parboilizado, arroz integral, arroz tailandês, com jasmim, arroz negro, arbóreo, basmati, arroz cateto, arroz vermelho, arroz glutinoso e arroz em saquinho do Uncle Bens. Coça a cabeça, escolhe um tipo e vai até o caixa.

O senhor é cliente mais?

Lembra a senha?

Vai querer CPF na nota?

Este arroz está com desconto, já baixou o aplicativo?

Quer sacolinha?

Débito ou crédito?

Socorro! Quero pagar com cruzeiros! Dinheiro vivo!

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