Por que não é a hora da esquerda lançar candidato na eleição da Câmara

'A história mostra que as esquerdas optaram, em contextos de hegemonia da direita, por ocupar posições chaves no parlamento', diz Medeiros

Foto: Lula Marques

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Opinião

Por Josué Medeiros*

As esquerdas vivem um intenso debate sobre compor ou não uma frente ampla com partidos direita na eleição da presidência da Câmara contra o presidente Jair Bolsonaro. O debate se divide entre a necessidade de marcar posição com candidatura própria versus a necessidade de compor um bloco em troca de um pacto pela independência do legislativo.

 

 

Ambos os lados afirmam que conter o perigo autoritário de Bolsonaro é a tarefa número um do campo progressista. Mas divergem sobre como fazer isso. Os “amplistas” entendem que um aliado de Bolsonaro no comando da Câmara resultará no avanço de pautas em defesa do armamento da população e da redução dos direitos das mulheres e LGBTs, além de inviabilizar um possível impeachment. Já os “esquerdistas” alegam que apoiar já no 1º turno a direita comprometida com a pauta neoliberal enfraqueceria a capacidade de combater as privatizações e reformas neoliberais, além de resultar em perda de independência da esquerda.

O debate, embora qualificado, vem apresentando o vício da tábula rasa. É como se as esquerdas nunca tivessem enfrentado o desafio de se posicionar no parlamento sendo oposição a governos de direita dispostos a acabar com os direitos do povo.

Na tentativa de contribuir com o debate, neste texto recupero o modo como o PT se posicionou nas eleições para presidência da Câmara dos Deputados entre 1982 e 2001, quando foi oposição aos governos Figueiredo, Sarney, Collor e FHC. As fontes da pesquisa foram os acervos do O Globo, Folha de São Paulo e o portal da Câmara dos Deputados.

 

A combatividade não vem do ato de “jogar para a galera”

A escolha do PT se justifica por ser o principal partido de massas do País, com crescimento social e eleitoral constante no período em que foi oposicionista. O interessante é que o petismo, nas dez eleições de presidência da Câmara que enfrentou como oposição, só optou por marcar posição com candidatura própria em duas ocasiões: 1995 e 2001. Apresentamos a seguir o quadro completo em dois blocos, um relativo aos anos 1980 e outro que pega a década de 1990 e o ano 2001.

 

 

 

Os anos 1980 marcam a fase de construção do PT como partido que aliava mobilizações sociais e crescimento eleitoral. Sua independência política jamais foi questionada nesse período. O petismo foi fundamental para que o debate sobre as eleições diretas para presidente saísse dos gabinetes e ganhasse as ruas com a Campanha Diretas Já; organizou três greves gerais na década, além de milhares de greves locais ou de categorias; protagonizou as mobilizações pelas emendas populares na Constituinte. Em paralelo, vivenciou um aumento significativo do seu peso eleitoral, conquistando prefeituras de capitais em 1985 (Fortaleza) e 1988 (São Paulo, Porto Alegre, Vitória), aumentando sua bancada parlamentar em todos os níveis e chegando ao 2º turno das eleições presidenciais de 1989.

A ausência de candidaturas próprias para a presidência da Câmara em nada atrapalhou as lutas sociais e o sucesso eleitoral. Ao contrário, é razoável supor que a capacidade do partido em explorar as disputas da direita contribuiu para vitórias parlamentares e para o aumento da consciência popular sobre seus direitos.

Em 1987, por exemplo, o PT se aliou a uma parte do PMDB contra o governo Sarney. A vitória de Ulisses representou uma continuidade da lógica do Colégio Eleitoral, de pactuação sem povo. Mas a fissura aberta no PMDB com o apoio à candidatura de Fernando Lyra foi muito importante para viabilizar muitas das pautas populares na Constituinte.

O próprio apoio ao deputado Paes de Andrade em 1989 expressa o quanto essa dinâmica foi importante. Como constituinte, ele deu voto favorável a várias pautas populares, tais como a reforma agrária.

 

 

Os anos 1990 são a fase em que o PT já ocupa o lugar de principal partido de esquerda do País, com muitas experiências de governos municipais e alguns governos Estaduais e relação orgânica com os principais movimentos sociais (CUT, MST). O crescimento eleitoral do partido segue constante, as greves diminuem devido a um processo de crise geral do sindicalismo. O período é marcado por intensas mobilizações sociais tais como o Fora Collor em 1992 e a Marcha dos 100 mil organizada pelo MST em 1999, além do Fórum Social Mundial em 2001. Surgem questionamentos a partir de setores minoritários da esquerda sobre a independência e combatividade do partido, muito mais pela ampliação de alianças para o executivo e por um suposto abandono de pautas históricas. A apresentação de candidaturas próprias à presidência da Câmara não ocupava lugar central no debate sobre a independência ou combatividade da esquerda.

O PT, assim como na década anterior, procurou se aproveitar das divisões da direita para ocupar posições estratégicas. Em 1991, por exemplo, o ambiente político já mostrava um Collor acuado pelas denúncias de corrupção e Ibsen Pinheiro na presidência da Câmara atuou pela instalação de CPIs e abertura do Impeachment. Um aliado direto de Collor teria usado o comando da casa para inviabilizar esse processo.

Os jornais da época dão conta de um intenso debate interno em 1995, quando o partido lança candidato pela primeira vez. A perspectiva de perder lugar na mesa diretora – que se confirmou – alimentou questionamentos à opção de marcar posição com Genoíno. Nas duas eleições seguintes, em 1995 e 1997, o PT não repetiu a estratégia de “jogar para a galera”, o que indica um balanço negativo daquela estratégia. Já na disputa de 2001, chamada pelos jornais de “eleições para a presidência da Câmara mais tumultuadas desde a redemocratização”, ficou mais fácil para partido marcar posição: o quadro era de um governo FHC desmoralizado, sem base parlamentar e popularidade para aprovar nada e de possibilidade concreta de vitória para Lula em 2002.

Hoje, o cenário é bem diferente. Há uma evidente hegemonia das direitas, que dominam o Executivo e o Legislativo, com dois blocos: o bolsonarismo e a direita tradicional. Os blocos concordam na agenda econômica, mas estão em conflito em vários temas tais como relação com as instituições e com a sociedade civil. E, principalmente, disputam eleitoralmente o comando do País. Há, ainda, um enfraquecimento das esquerdas nas eleições de 2018 e 2020.

A história das eleições para a presidência da Câmara mostra que as esquerdas optaram, em contextos de hegemonia da direita, por ocupar posições chaves no parlamento e incidir nas divisões das direitas em detrimento de marcar posição. A lógica parlamentar é cheia de deputados de direita que, magoados por serem preteridos em disputas por cargos no Executivo ou posições de destaque no Legislativo, votam contra o governo. Marcar posição pode servir para unificar as direitas e fechar as possíveis brechas. E mais: em várias ocasiõe,s a ideia de defender a democracia surgiu como justificativa para apoiar alguém da direita. Se isso foi válido em momentos de certa estabilidade institucional, por que não seria agora com o perigo autoritário de Bolsonaro?

Por fim, a ideia de marcar posição, de aparecer como o “setor coerente” da esquerda contra um suposto “pragmatismo sem limites” ganha força agora justamente quando a mobilização social está fragilizada. Quanto tínhamos povo na rua, as esquerdas deram a devida importância que eleições internas no parlamento devem ter, qual seja, a de disputa por posições institucionais, nada mais que isso. Lançar ou não candidatos à presidência da Câmara não era atestado de combatividade ou independência. Agora, sem as ruas ocupadas pelos progressistas, a opção de marcar posição adquire um peso excessivo, o que diz muito sobre a crise das esquerdas no Brasil.

Em suma, quando as esquerdas estavam fortes nas ruas e nas instituições, sabíamos que o necessário para conquistar as pessoas para um projeto de direitos e solidariedade não era marcar posição, mas sim apresentar soluções viáveis para os problemas concretos do dia a dia. É justamente nisso que esquerdas vêm falhando desde pelo menos 2015. Em parte, pela nossa incapacidade de compreender o Brasil que emerge do lulismo. Em parte, pela nossa dificuldade em incorporar novas pautas, tais como a Renda Universal, ou de enfrentar problemas que se agudizaram, entre eles a questão ambiental ou o problema da segurança urbana. E também, em parte, pela disposição em marcar posição que, como vimos, sequer combina com a história da ação parlamentar das esquerdas quando ela foi mais virtuosa.

 

* Josué Medeiros é professor de ciência política da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a Democracia (NUDEB).

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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