Por quanto tempo o Brasil acha que poderá continuar ­isolado?

Este é um aviso do preço que a política interna está a causar no prestígio internacional do País, escreve José Sócrates

Foto: EVARISTO SA / AFP

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Opinião

Que eu saiba, depois da última decisão do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, o Brasil é a única democracia do mundo em que a proibição da realização de missas durante a pandemia é julgada como contrária à Constituição.

Depois das últimas eleições dos EUA, o Brasil é também a única democracia no mundo em que suas autoridades máximas fazem campanha pública contra o distanciamento social e contra o confinamento – únicas medidas que, comprovadamente, evitam a subida do número de infectados, de mortos e, principalmente, de cidadãos que morrerão sem assistência em razão do colapso dos sistemas de saúde.

O Brasil é igualmente a única democracia no mundo cujo presidente, em vez de apelar à vacinação, exprime em público a sua preocupação com o fato de as companhias farmacêuticas não assumirem responsabilidades no caso de alguém, depois de vacinado, se “transformar em jacaré”.

O Brasil é a única democracia do mundo onde se aceitou sem grande escândalo que o juiz que condenou um líder político à cadeia se tornasse ministro do seu rival.

O Brasil é a única democracia do mundo em que a conservação da natureza e as políticas ambientais são vistas como empecilhos ao desenvolvimento e ao crescimento econômico. O Brasil é a única democracia no mundo (mais uma vez depois das eleições norte-americanas) onde seu governo é abertamente cético em relação ao fenômeno do aquecimento global.

O Brasil é a única democracia no mundo em que as autoridades comemoram a data de um golpe militar e defendem a eficiência da tortura.

O Brasil é a única democracia no mundo que normaliza a presença de militares na ativa em lugares governamentais. São muitas coisas únicas e nenhuma delas boa. A política brasileira parece ter virado um teatro do absurdo.

O mundo contemporâneo esbateu as diferenças entre a política externa e a política interna. A distinção não tem grande utilidade. A diplomacia tem consequên­cias na política doméstica e o contrário é igualmente verdadeiro. Ora bem, todo o primeiro parágrafo deste artigo serve para avisar os meus amigos brasileiros do preço que a política interna está a causar no prestígio internacional do País. Todos os dias há imagens do Brasil nas televisões europeias. Todos os dias. E os temas são recorrentes – ou é a pandemia ou é o sistema judicial, ou é a Amazônia, ou é o papel dos militares no governo (com destaque, é claro, para o último ministro da Saúde). Alguns poderão dizer, e com verdade, que isso é um assunto interno brasileiro, mas a verdade é que essa política está a causar um dano reputacional significativo ao Brasil e ao seu papel no mundo. Mais uma vez, a política interna é também assunto de política externa.

O Brasil é o maior país da América do Sul e a nona economia do mundo (ou era, em 2019). É um país de 220 milhões de habitantes que faz parte do G-20. Ainda alguns anos atrás reclamava um lugar para si no Conselho de Segurança, numa reforma das Nações Unidas. Um país assim não pode se permitir ficar isolado internacionalmente. Um país assim, para proteger seus interesses (entre os quais a projeção da língua portuguesa), tem de participar ativamente nos assuntos da agenda internacional. Se não participar, correrá o risco de essas decisões serem tomadas contra os seus interesses. Na política internacional, quem não está à mesa está, na maior parte das vezes, no menu. Em conclusão, o que quero dizer é isso: o Brasil não pode se retirar do mundo.

E muito menos se pode retirar do mundo quando a ordem mundial procura um novo arranjo. Alguma coisa nova resultará deste novo período de ascensão econômica chinesa e um novo equilíbrio será necessário encontrar à medida que o centro de gravidade econômico do mundo se desloca do Ocidente para o Oriente. O mundo está em mudança e em mudança acelerada. E o mais que podemos esperar é que esta mudança se dê pela via negocial, pela via diplomática e sem recurso à força. Os Estados Unidos se dizem de volta à diplomacia internacional (embora nada tenha de diplomático acusar um adversário político de ser um assassino) e dispostos a fazer a negociação que permita a construção justa deste novo equilíbrio. A China, por seu lado, confiante na sua nova força econômica e – talvez mais importante – bem ciente da sua particular memória histórica, reivindica para si esta nova posição no mundo. Se alguma coisa podemos desejar é que não regressemos à velha ordem bipolar, evitando a desconfiança mútua e o discurso maniqueísta em que nada de bom, de legítimo, de útil se vislumbra no lado rival. É aqui que entra o Brasil. A sua voz é importante na definição da política norte-americana, é importante na promoção do multilateralismo, é importante no diá­logo político internacional. Por quanto tempo o Brasil acha que poderá continuar ­isolado do mundo?

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Ex-primeiro ministro de Portugal (2005 a 2011)

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