Pessoas brancas, aprendam o que não fazer no Mês da Consciência Negra

Mês de novembro é marcado por convites 'por visibilidade' e eventos estereotipados que terminam com louvação branca

Regina Duarte, ex Secretária de Cultura no governo Bolsonaro. Foto: Reprodução/GloboNews

Regina Duarte, ex Secretária de Cultura no governo Bolsonaro. Foto: Reprodução/GloboNews

Diversidade,Opinião

Após muita luta do Movimento Negro, no ano de 2011 foi sancionada pela presidenta Dilma Rousseff a Lei 12.219, que institui o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra. O texto legal, com apenas dois artigos, não dá conta da grandeza do ato político de afirmação da história, nem das denúncias de exploração da população negra que deveriam mobilizar a sociedade na luta pela erradicação das desigualdades raciais.

Contudo, dez anos se passaram e a importância da Lei continua questionada por grupos extremistas, mesmo considerada facultativa, pois cabe aos estados e municípios a decisão de instituir o feriado, o que dificulta a mobilização popular em muitas cidades.

Em estados como o Acre, Ceará e Rio Grande do Sul dentre outros, não é feriado em nenhum município. Em Salvador, capital onde existe um grande número de pessoas negras, o feriado ainda não está decretado. Há também lugares onde os feriados anteriormente aprovados foram suspensos, pois surgiram ações que derrubaram os Decretos, a exemplo de Santa Catarina.

O Brasil, que não por coincidência foi o último país a abolir a escravidão, continua sem pressa quando o assunto envolve políticas afirmativas para a população negra. No ano de 2017 por exemplo, o senador Randolfe Rodrigues apresentou um Projeto de Lei para que o dia seja feriado nacional, entretanto ainda aguardamos a decisão.

Talvez um dos motivos da lentidão seja o fato de vivermos no pais que elegeu um presidente que mesmo afirmando publicamente que homens quilombolas são pesados em arroba, foi inocentado da acusação de crime por juízes não negros, evidentemente. A justiça neste país tem cor e gênero.

Mas a Lei ser facultativa não é o único ato que exige paciência histórica, quando o assunto é combate ao racismo. Anualmente, justificativas que carregam a negação da existência do racismo sistêmico vão se sofisticando e as estratégias pouco eficazes na luta antirracista, se apresentam com uma capa de pseudo ativismo, que confunde até as pessoas mais vigilantes.

Trago como exemplo a programação de algumas emissoras de TV, pois só durante o período que escrevo este artigo, me deparei com a exibição de dois filmes anunciados pelas emissoras como em homenagem ao mês da Consciência Negra: The help, traduzido como Histórias cruzadas, e The Blind Side, traduzido como Um sonho possível, ambos com enredos que podemos chamar de “o branco salvador”, pois as conquistas das personagens negras só ocorreram porque alguém branco ajudou.

Por favor, nos poupem de histórias de pessoas brancas salvadoras.

Outro exemplo de estratégias questionáveis que nos confundem, são algumas programações que apresentam a participação de pessoas negras narrando trajetórias de luta e sofrimento, que conseguiram uma mobilidade social mínima, através de méritos individuais, fortalecendo a ideia da meritrocraticia.

No mês de novembro surgem as capas de revistas com pessoas negras, podendo ser as famosas de sempre ou as não conhecidas que raramente veremos seus rostos em destaque novamente.

Geralmente artistas de pele negra que fazem parte da minoria que vemos em destaque vez ou outra, aparecerão muito mais nas mídias no mês destinado a Consciência Negra, causando a impressão de que a população negra está representada, pois existe a ardilosa tentativa de convencer a sociedade de que representatividade e presença equânime são a mesma coisa, mas certamente não são.

Os rostos dessas pessoas negras serão vistos com frequência apenas nas programações do mês de novembro; depois disso, continuaremos convivendo com a ausência de corpos negros. A presença de um negro aqui, outro ali, compartilhando o protagonismo com uma maioria esmagadora de pessoas não negras voltará a ser a norma. Reparem que nunca são mais que duas, as pessoas negras no protagonismo.

Há anos ouço relatos de pessoas negras estudiosas das relações raciais, que são convidados para participarem destas programações em novembro. Muitas delas denunciam que o pagamento ofertado pelo trabalho foi a visibilidade. Sim, nada de valores em espécie.  É zero reais mesmo.

Já nas escolas, universidades, empresas e outras instituições, durante o ano raramente pessoas negras recebem propostas para palestras assessorias, ou cursos em geral, mas no mês de novembro as oportunidades surgem para um único dia ou um curtíssimo período, depois somem os convites.

Fico pensando no que será que pensa ser consciência negra, uma pessoa que convida uma intelectualidade de pele preta para participar de um evento no mês da Consciência Negra e oferece visibilidade como pagamento?

As escolas por sua vez, ainda organizam eventos folclorizados com apresentações de capoeira, samba, rap, danças ou gênero musical supostamente de origem africana, reduzindo as contribuições do povo negro para construção deste país. Estudantes tocarão instrumentos de percussão, vestirão trajes africanizados, educadores turbantes, uma autoridade não negra abrirá ou encerrará o evento citando Nelson Mandela, ou Martin Luther King, demonstrando desconhecer obras e a história de ativistas negros brasileiros.

A pessoa convidada para falar nesses eventos, será alguém de pele negra que tenha dedicado muitos anos estudando as relações raciais, desenvolverá uma palestra, reitero que muitas vezes sem receber absolutamente nada pelo trabalho ou um valor insignificante se considerarmos o tempo dedicado para estudo e inevitavelmente responderá perguntas indecentes do tipo:

  1. E os gordos? Eles também sofrem racismo?
  2. Se somos todos humanos e iguais, por que esse dia tem que existir?
  3. Não basta o dia da Consciência Humana?
  4. Mas não foram os negros que iniciaram a escravização de outros negros lá na África?
  5. Qual é a forma correta de tratar vocês, preto ou negro?
  6. O que você sugere que façamos para acabar com o racismo?

Eventos assim acontecerão Brasil afora e no final do mês de novembro afirmarão cinicamente que o mês da Consciência Negra foi celebrado como determinado pela Lei, sem que vejamos políticas efetivas de combate ao racismo serem apresentadas pelas instituições.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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