Paulo Guedes, um quadro terrivelmente ideológico

Continuar investindo nessa falsa distinção é atentar contra a inteligência e a boa vontade do consumidor de notícias

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Evaristo Sá/AFP)

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Evaristo Sá/AFP)

Opinião

Paulo Guedes, o ministro da economia do governo Bolsonaro, é parte daquilo que amplos setores da grande imprensa ainda insistem em classificar como “quadro técnico”. Ou, em alguns casos, como parte da “ala técnica do governo”.

Essa tentativa de taxonomia serve a dois propósitos, digamos, pouco críveis. E nada verdadeiros.

O primeiro diz respeito a uma tentativa de criar uma falsa imagem de que o governo Bolsonaro é uma espécie de colcha de retalhos. Ou seja, de que a equipe ministerial do atual presidente é composta por uma gama espetacular de heterogeneidades em que muitas de suas partes são formadas por princípios, valores e propósitos diversificados e até divergentes. E neste ponto é importante notar: o esforço é o de vender a ideia que alguns ou muitos de seus ministros se distinguem do presidente em aspecto, propósito e competência.

Foi exatamente assim que criou-se, em 2018, a noção farsesca de que um sujeito com enorme apetite pelo poder absoluto, idólatra declarado de ditadores (e torturadores) e portador de um invejável repertório de paranoias e teorias da conspiração seria uma mero fantoche que ficaria brincando de guerra cultural enquanto seus “superministros” governariam.

 

 

 

Nunca existiram superministros. Sempre existiu um sujeito centralizador com um projeto de poder claro de destruição e perseguições ideológicas. Creio que isso já esteja demonstrado pelos fatos a esta altura. Sigamos adiante.

O segundo propósito é o de tentar convencer a opinião pública que existiriam indivíduos e grupos de profissionais essencialmente técnicos, despidos de ideologias. Como se as próprias técnicas desenvolvidas pela humanidade para lidar com o mundo e resolver seus problemas não partiriam de um conjunto de noções, valores e juízos sobre este mesmo mundo. Ou seja, de ideologias.

O fato de setores da grande imprensa ainda tentarem isolar “técnica” de “ideologia”, ou, como no caso em tela, “Paulo Guedes” da tal “ala ideológica do governo” é só demonstrativo de que a ideologia desses setores é a mesma de Paulo Guedes. Que, inclusive, não se distingue em quase nada da ideologia de Jair Bolsonaro, de seu governo, de seu bolsonarismo.

 

Nunca existiram superministros. Sempre existiu um sujeito centralizador com um projeto de poder claro de destruição e perseguições ideológicas

 

Lembremos fatos. Paulo Guedes já manifestou sua demofobia, seu preconceito contra pobres e trabalhadores com “baixa qualificação” por mais de uma vez. A mais evidente foi quando sacou de sua cachola a ideia de que as empregadas estavam viajando para a Disneylândia. “Uma farra danada”, disse ele na ocasião. Nesta terça-feira 27, não fez muito diferente ao falar sobre essa gente que inventa de querer viver mais de 100 anos. Junto com o mesmo chefe, igualmente um galã de novela, endossou a constatação de que a esposa do presidente da França era, realmente, feia.

Guedes e Bolsonaro seguem unidos contra a produção e socialização do conhecimento, defendem a taxação sobre livros e atacam o funcionalismo público com o argumento da oneração dos cofres públicos sem fazer quaisquer distinções entre profissionais de saúde e serviços gerais, professores do ensino básico, médio, fundamental e superior, das castas do funcionalismo que chegam a ter contracheques batendo na casa dos cem mil reais.

A lista é longuíssima, mas o ponto é claro: não existe técnica sem ideologia. Não há ala técnica e ala ideológica neste governo. Os que nele estão servem aos propósitos ideológicos, ao projeto ideológico de poder de Jair Bolsonaro. Seja no meio-ambiente, na educação, na saúde, na cultura, na agricultura, na defesa, na justiça, na educação, na ciência, na tecnologia e, principalmente, na economia.

Paulo Guedes, mais do que os outros, exala em cada sincericídio público ou privado como representa  Jair Bolsonaro em imagem e semelhança: nos preconceitos, no tratamento com o outro, nos princípios e nos valores. A razão para que setores do jornalismo continuem vendendo essa taxonomia farsesca se assenta tão e somente num princípio de conveniência: Paulo Guedes promete entregar os serviços (reformas, mas nunca, por exemplo, a agrária) que saciam o apetite dos interesses econômicos que grande parte das empresas de jornalismo representa.

Continuar investindo na falsa distinção da existência de alas no governo, principalmente na diferença que não existe entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro é atentar contra a inteligência e a boa vontade do consumidor de notícias. Mais do que isso: é continuar, de uma forma bastante cínica e dissimulada, contemporizando e amenizando um governo de iguais que, de fora a fora, caminham a passos largos num projeto eficiente de destruição de um país.

 

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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