Para promover uma educação antirracista, professoras negras se unem em coletivos

Uma caminhada em defesa de uma educação comprometida com o combate às injustiças raciais vem sendo trilhada com primazia e excelência

Créditos: Reprodução/ Coletivo Agbalá

Créditos: Reprodução/ Coletivo Agbalá

Opinião

“Não mexe comigo que eu não ando só…”

Há alguns dias, li uma entrevista do neurocientista Sidarta Ribeiro em que ele falava sobre os impactos da pandemia do coronavírus no sono. Segundo o diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a incerteza em relação ao futuro e a saudade do passado têm alterado as noites de muitos brasileiros. Enquanto os que estão mais ansiosos e preocupados não conseguem dormir, os que mantêm o sono regular têm sonhado mais. Esse é o meu caso.

Sonho praticamente todas as noites. Vez por outra, sonho com fatos relacionados ao trabalho, aos episódios de assédio moral que sofri ao longo da minha caminhada como professora da Educação Básica. Há alguns dias, revivi o dia em que fui chamada na sala da direção para responder a uma denúncia.

Para ampliar os conhecimentos sobre o período da nossa história conhecido como Brasil República, pedi às minhas turmas do terceiro ano do Ensino Médio que lessem Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Ao final, no lugar de uma prova, organizados em grupos, os alunos deveriam apresentar uma peça de teatro sobre o livro.

O entusiasmo, a adesão foram tamanhos que, com a autorização da coordenação pedagógica, convidei o pesquisador Marcos Fabrício Lopes, jornalista e doutor em Literatura Brasileira, para dar uma aula sobre o livro. Ele é um grande estudioso da obra do escritor afro-carioca. Penso a escola como a universidade. Se no Ensino Superior temos acesso a professores e pesquisadores de outras instituições, por que os alunos dos níveis Fundamental e Médio não podem ter?

A leitura de Triste fim, a visita do Marcos Fabrício, as apresentações teatrais foram o motivo da denúncia. Um professor me acusou de “entrar na matéria” dele. Fui chamada na sala da direção. Quando a diretora e uma professora que fazia parte do colegiado relataram o motivo do interrogatório, não acreditei. Tomando de empréstimo as palavras da minha querida amiga Maria Salete, fiquei “virada no cão”. Exigi respeito à minha pessoa, ao meu trabalho. Fui taxativa. Disse que meu trabalho era baseado em muito estudo. Não estava na escola para brincar de trabalhar. Quando isso acontecesse, ficaria em casa, mudaria de profissão.

A “denúncia” foi arquivada. Preenchi um questionário de avaliação de desempenho e deixei a sala. À época, era professora contratada, o que me colocava em uma situação de fragilidade, mas silenciar seria abrir mão da minha dignidade, de anos de estudo, pesquisa e dedicação à docência. Mesmo com o assunto encerrado, passei o dia nervosa, irritada. Foi com essas sensações que despertei do sonho.

Trago essa passagem para ilustrar as dificuldades enfrentadas por nós, professoras negras, nos espaços de ensino. Muitas vezes, a perseguição, o assédio são uma constante em nossa caminhada, sobretudo, entre as educadoras que se dedicam a práticas pedagógicas comprometidas com a educação antirracista. No início do ano, veio a público o caso da diretora de uma escola privada de Maceió que pediu aos alunos que comprassem um “chicote do bom” para que ela pudesse desferir golpes contra uma educadora negra da instituição, por considerá-la muito “ousada”.

Nilma Lino Gomes, primeira mulher negra do Brasil a ocupar o cargo de reitora de uma universidade Federal, explica que episódios como esse se dão por vários motivos. Ao assumir a condição de professoras, rompemos com a expectativa social de que estamos nesse mundo apenas para servir e limpar a sujeira dos outros. O imaginário racista pressupõe que somos intelectualmente inferiores e faz com que nossos pontos de vista, os conhecimentos que acumulamos sejam colocados constantemente à prova. Além disso, ao promover uma educação empenhada no combate ao racismo, desestabilizamos uma estrutura secular, cujas bases são orientadas pelo eurocentrismo e por contínuos processos de silenciamento e invisibilidade do grupo social negro. Falar de racismo, imprimir nos currículos escolares o protagonismo cultural, científico, histórico e econômico dos africanos e dos afro-brasileiros na construção e na formação do Brasil, é mexer em uma ferida que parte da sociedade e a escola insistem em escamotear, fingir que não existe.

De modo a enfrentar as dificuldades cotidianas para afirmação da educação antirracista, como também criar espaços de protagonismo, afeto e produção de conhecimento, professoras negras da rede pública do Rio de Janeiro têm se unido em redes e coletivos. É o caso da Rede de Etnoeducadoras Negras do Rio de Janeiro. Formado em 2015, atualmente o grupo reúne cerca de 120 educadoras, muitas delas com trajetórias de lutas nos movimentos sociais. A página mantida no Facebook é acompanhada por mais de 500 pessoas. Além de pensar práticas pedagógicas e o fazer docente, segundo Célia Cristo, professora do segmento infantil em Duque de Caxias e doutoranda do programa de pós-graduação em Educação da UNIRIO, a Rede já organizou rodas de conversa, oficinas e debates que privilegiam a escola pública e pedagogias decoloniais.

Em paralelo com a atuação nas salas de aula da Educação Básica, a Rede mantém uma relação estreita com a universidade. Anualmente, um encontro é realizado nas dependências da UNIRIO. Célia Cristo explica que esse ato é uma forma de “resistência e ocupação territorial. Entende-se que mulheres negras interrogam a universidade como esfera pública e, pelo papel social transformador que admite, a meu ver, uma via de mão dupla, na perspectiva da construção de uma agenda curricular contra-hegemônica.”

Mantendo a proposta de unir ensino e pesquisa, o Coletivo Agbalá, cujas atividades tiveram início em 2018, reúne atualmente 14 professoras e três professores. Antes da quarentena, o grupo reunia-se mensalmente para discutir as temáticas negras e indígenas, como também formas de inseri-las no cotidiano escolar. De acordo com Luciana Guimarães, pedagoga e integrante do Agabalá, o coletivo objetiva “difundir práticas pedagógicas antirracistas e auxiliar na formação continuada dos colegas professores, visando, sobretudo, aqueles e aquelas que estão iniciando conhecimentos no que tange à educação antirracista.” O Agbalá mantém um perfil no instagram.

Conhecer esses coletivos, ainda que virtualmente, encheu o meu coração de esperança de que, apesar das dificuldades que sempre existiram e das que o momento atual nos impõe, uma caminhada em defesa de uma educação comprometida com o combate às injustiças raciais vem sendo trilhada com primazia e excelência, servindo de inspiração e aprendizado para todas nós. No início do ano, a escritora Conceição Evaristo publicou um poema nos lembrando que é tempo de aquilombar. Honrando as tradições dos nossos ancestrais, é justamente isso que a Rede de Etnoeducadoras Negras do Rio de Janeiro e o Coletivo Agbalá estão fazendo.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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