Opinião

Para entender a oportuna estupidez de Jair Bolsonaro

A imagem distorcida de um homem de gostos comuns tem sido utilizada para conferir ares de povo àquele que despreza intelectuais

Quadro de Jair Bolsonaro feito por Romero Britto (Foto: Reprodução/Instagram/Flávio Bolsonaro)
Quadro de Jair Bolsonaro feito por Romero Britto (Foto: Reprodução/Instagram/Flávio Bolsonaro)

Sem algumas estupidezes o ser humano nem sequer viria ao mundo, escreveu Erasmo de Rotterdam em sua obra Elogio da Loucura. Com verdadeira e demasiada frequência, a estupidez tem sido exaltada e praticada pelo governo Bolsonaro, com a sua já contumaz crueldade contra os mais fracos ganhando novas formas justamente em um momento em que a vida cotidiana está a um passo da histeria coletiva. 

Mas o que é a estupidez? Em Sobre a estupidez, Robert Musil nos adverte que é preciso afrouxar o julgamento de que a estupidez é simplesmente ou principalmente uma falta de inteligência. Assim, logo de saída é preciso expressar que não é neste sentido – como ausência de inteligência – que podemos dizer que vivemos sob o comando de estúpidos no Brasil.

Se assim fosse, e tivéssemos em mente o conceito mais genérico de inteligência – o conceito de competência, poderíamos apelidar os incompetentes de estúpidos. Mas não podemos denominar os estúpidos do momento de incompetentes. Ainda que seja certo que o despreparo daqueles que compõem o governo tornou-se uma qualidade tão vulgar ao ponto de parecer exigência indispensável.

Também é preciso advertir que não pretendemos fazer uso da palavra estupidez enquanto xingamento, o que traria imprecisão e baixeza aos nossos propósitos. Na verdade, queremos aqui atentar para outros domínios da estupidez revelados por Robert Musil e que remetem ao sistema lógico do Palácio do Planalto, com desfechos adicionais em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em seu ensaio, nascido de uma conferência em 1937, Musil revela não haver descoberto nenhuma teoria sobre a estupidez pela qual pudesse salvar o mundo. Ademais, não é tarefa fácil conciliar distintos exemplos da família estupidez todos sob um mesmo teto que pertença de fato a um estúpido. No Brasil, Bolsonaro vestiu-se de estúpido como estratégia política. Tão logo percebeu que não bastaria apenas ser estúpido, passou a adotar a prática da estupidez, a rudeza. A indelicadeza como tática de comunicação não é uma falha de um personagem “incontrolável”. Pelo contrário, ela é necessária para fazer-se notar o máximo possível.

Indubitavelmente associada à genialidade, há um domínio da estupidez que nos condena: ao contrário da inteligência, a estupidez faz a desconfiança adormecer, diz Musil.

Não raro é possível ouvir o otimismo melancólico dos que acreditam que a incompetência do governo Bolsonaro poderia limitar os estragos causados a toda população. A esperança daqueles que avistam a sobrevivência do Brasil à pandemia do novo coronavírus é que Bolsonaro siga isolado politicamente. O engodo ainda não desembaraçado é que a sua atuação medíocre, culpabilizando o fracasso da economia à irresponsável ciência e seus livros com “muita coisa escrita”, confunde-se com a reprodução ampliada de seu comportamento.

Outra esfera de ação é fazer despertar a desconfiança em outros meios, especialmente aqueles que inspiram inteligência. Os ataques sistemáticos à imprensa e aos jornalistas compõem o enredo da estupidez de Bolsonaro, que sozinho foi responsável por quase 60% do total desses ataques compilados no Brasil, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Em um país que ocupa o 111º lugar no ranking de países que mais confiam na ciência (de um total de 144 países), segundo a pesquisa Wellcome Global Monitor da Gallup, os desentendimentos entre Bolsonaro e as recomendações dos especialistas, com a demissão de seu Ministro da Saúde em plena crise do coronavírus, trouxeram poucos danos ao seu apoio popular até o momento.

Em uma sociedade fragmentada, na qual o isolamento social é mais um traço distintivo entre privilegiados e explorados, com a visão triunfalista de classe média ainda mais ilusória que outrora, Bolsonaro utiliza da pretensa incompatibilidade entre emprego e saúde para estabelecer seu domínio ideológico. Assim, ao contrário do que muitos parecem pensar, Bolsonaro conhece e faz uso das desigualdades estruturais deste país para realizar seu papel enquanto chefe de Estado.   

Para compreender a oportuna estupidez de Bolsonaro, é fundamental identificar as condições históricas, materiais e subjetivas, que deram origem ao presente espaço fecundo para reprodução e ampliação de seus discursos contraditórios. O Brasil acolheu um parlamentar com quase trinta anos de atuação como deputado que se apresentava como “apolítico”. A partir da retórica “corrupção apenas do Estado” utilizada para justificar a falsa oposição entre mercado e Estado, Bolsonaro tem minado a capacidade do Estado de fazer frente à atual crise muito antes do novo coronavírus vir ao mundo. Particularmente importante aqui é explicar a tolerância por parte da suposta inteligência brasileira em relação às práticas de Bolsonaro.

Tal como enunciado por Jessé Souza, a fragmentação do conhecimento serve aos interesses dos que estão ganhando na sociedade, uma vez que evitam sua mudança possível. Em sua obra A tolice da inteligência brasileira, o autor apresenta o que seriam dois pilares da “inteligência brasileira” – o “culturalismo conservador” e o “economicismo” – como fatores explicativos do empobrecimento do debate nacional, com a resultante superficialidade da percepção da realidade social e uma grande confusão a respeito de quais seriam as questões relevantes para a sociedade brasileira. Com o sequestro da “inteligência brasileira” para o serviço do 1% mais rico, não surpreende que as questões fundamentais de enfrentamento à crise, como medidas de reforma tributária que façam frente à grotesca concentração de riqueza, geralmente não encontrem espaço na grande imprensa. Os “donos do poder” permanecem estabelecendo os contornos do aparente brilhantismo da inteligência brasileira.

A estupidez de Bolsonaro está a serviço dos interesses dominantes. Logo, aqui reside a complacência com o operador das engrenagens que reproduz privilégios. A imagem distorcida de um homem de gostos comuns tem sido exaustivamente utilizada para conferir ares de povo àquele que despreza intelectuais e especialistas. Bolsonaro está, portanto, confrontando a inteligência brasileira sem opor-se aos interesses dominantes. Nessa fantasia, as estruturas que permitem a reprodução sistemática de privilégios permanecem intactas – inalteradas e esquecidas do imaginário popular. Em meio ao que pode vir a ser a maior crise econômica já experimentada pela sociedade brasileira, é urgente descobrir alguma teoria sobre a estupidez pela qual pudéssemos reinventar o mundo.

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