Os 300, ou melhor, os 299 de Bolsonaro

Líder paramilitar vai parar na UTI vítima de covid-19. O Brasil é ou não uma piada pronta?

O presidente da República, Jair Bolsonaro, junto à sua filha no Palácio do Planalto. Foto: Evaristo Sá/AFP

O presidente da República, Jair Bolsonaro, junto à sua filha no Palácio do Planalto. Foto: Evaristo Sá/AFP

Opinião

Os 300 de Bolsonaro, os supostos paramilitares acampados em Brasília para acuar o Supremo Tribunal Federal e o Congresso, eram uma versão canhestra dos 300 de Esparta, bravos camponeses que, reza a lenda, detiveram sozinhos, no ano de 484 antes de Cristo, o colossal exército de Xerxes, contado aos milhões, no estreito das Termópilas. Eu disse eram. Acaba de vir a público que o organizador da patuscada bolsonarista está na UTI, vítima de Covid-19. Situação constrangedora. Qual seria o destino da Grécia – e, no fim das contas, do Ocidente – se às vésperas da batalha decisiva contra os persas, os espartanos soubessem que seu líder não poderia comparecer ao evento? “Não vai rolar, o Leônidas cancelou, tá com febre tifoide”. “Frescura”, diria um de seus capitães. “É uma gripezinha”. “Histeria”, emendaria outro. De qualquer maneira, a versão em quadrinhos daquele momento decisivo da história antiga nunca sairia da prancheta: 299 de Esparta? Parece promoção das Casas Bahia. Nem Heródoto, por mais criativo, se sentiria estimulado a falsear a história em nome da mitologia.

Faltou fé ou informação ao Leônidas bolsonarista. Ele não tinha um estoque de cloroquina? Não comprou o vermífugo do ministro astronauta? Por acaso não deu tempo de adquirir a preço módico o feijão mágico do pastor Valdemiro Santiago? O Trump havia sugerido uma injeção de desinfetante. Por que não?

A esperança do bolsonarismo reside agora naquele cabo e naquele soldado. Só falta eles serem tombarem pelas vias do maléfico “vírus chinês”, para falar a mesma linguagem do ministro Abraham Weintraub e do chanceler Ernesto Araújo.

PS: Os 300 de Esparta contaram com o apoio de cerca de mil soldados das vizinhas Téspias e Tebas. O exército persa somava entre 250 mil e 300 mil homens, e não 5 milhões, a maioria escravos despreparados e desmotivados. A desproporção continua colossal e não desvaloriza a heroica resistência dos gregos, mas os números reais, percebeu Heródoto, tornavam a história menos sedutora. Entre o fato e a lenda, o historiador preferiu publicar a lenda. Mas não se animem, bolsonaristas. Heródoto não é o precursor do astrólogo Olavo de Carvalho, muito menos se habilitaria a virar redator do “Gabinete do Ódio”.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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