Justiça

O projeto patriarcal do governo bolsonarista

Enquanto houver governos fascistas e fascínoras, é preciso que todos os dias sejam dias das mulheres

Desde as eleições de 2018, vivemos um tempo de crescente poder macabro, fascista e facínora. Embora essa ascensão tenha ganhado maior corporeidade com o pleito eleitoral, as suas raízes são mais profundas e se relacionam àquilo que Espinosa definiu como afetos tristes, que vão crescendo, cancerosos, por entre traumas e dissecções profundas. E em tempos tumorais desse tipo de afeto, é preciso recobrar, em contraponto, as potências do feminismo.

As dobras a serem reabertas guardam modos de vida que sustentam e configuram o regime contemporâneo capitalista, classista, racista e machista, de fetiche mortífero, que devora a Terra como devora os sonhos. Diante dele, é preciso resistir, celebrar as potências da vida que, tal qual o ventre, guarda o poder de perseverar. E o dia das mulheres é o dia de lembrar desse poder — essa coisa que se torna ao mesmo tempo substantivo e verbo!

Ser mulher é perigo. Porque dual, é constantemente detida pelo poder. Assim como o phármakon, veneno ao mesmo tempo que remédio, ser mulher guarda em si a beleza e o risco da ambivalência, a possibilidade de marcar as diferenças. É a partir dela que se faz a unidade de diferença estável entre os humanos e os outros, esse último definido em termos de falta.

A mulher foi definida em termos de falta do falo e da sua retirada do espaço político da fala na construção de um mundo comum. Seu corpo, assim como o corpo do mundo comum, a feminina Terra, são os grandes objetos de desejo sexual e mortífero do patriarcado. Por serem ambivalências, assim como o phármakon, é que elas são detidas pela semântica do poder.

Mas é justamente pelo poder que se pode recolocar a questão do ódio já antigo pelo indecidível. Ser mulher é instrumento desconstrutivo e reconstrutivo incrivelmente poderoso pois, tal como no phármakon, torna-se arte de fabricação de novos mundos possíveis. Uma questão de dosagens e modos de preparação, reinventando, em tempos de crise ecológica planetária, novos vínculos com a Terra, entendida agora como um organismo vivo, tornado profundamente moribundo pelas forças ditas masculinas dos últimos séculos.

O machismo como método bolsonarista

Alexandre Garcia e Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Corrêa/PR)

O poder se manifesta de modo nefasto a cada vez que irrompe o phármakon. Ele não está concentrado no Estado, mas ultrapassa esses limiares pela pulverização de micropoderes, transmitindo seletivamente resultados quando se deseja evitar uma alternativa. E é nesse viés que se trabalha a diferenciação entre homem e mulher, visando a excluir terceiras possibilidades, pela produção de tabus, aniquilamentos, anormalização e modelagem política dos corpos.

A abstração lamentável da natureza teve dois efeitos, igualmente perniciosos: um deles foi dividir os corpos em dois, masculinos e femininos, gerando modelos de individuação; o segundo foi pensar no planeta como uma Terra semimorta e feminina, pronta para ser explorada, penetrada e destruída, permitindo que o emocionar da apropriação derrubasse a semântica do emocionar da colaboração.

A mulher — além de guardar em seus mistérios a possibilidade de gerar o diferente, marca-se como o traço diferencial. Em tempos cinzentos de bolsonarismo, ser mulher deve reativar os poderes de bruxaria, das misturas no caldeirão, de ser constante transformação, toda vez que é ameaçada. Assim como a mulher é criada e criatura, a natureza também faz parte dessa subjetividade antropocêntrica, zumbificada por políticas de morte e cicuta.

O incômodo bolsonarista veio, primeiro, pela ascensão das mulheres, das negras, das trans e, para falar como Judith Butler, de todos os corpos abjetos que fogem da lógica do poder heteronormativo, exigindo mudanças estruturais.

Segundo, porque houve a mudança da posição relativa da classe média, com a diminuição das distâncias. Por um lado, esta via os pobres se aproximando e os ricos se distanciando, mesma ideia norte do nazismo, que outrificou e dizimou milhares de judeus, pela noção de semelhança social e desigualdade subjetiva.

Por fim, frente ao processo de retomada da Terra, de nacionalismos e extrativismos, em tempos de catástrofe climática, surgem os que pensam: “a Terra é nossa, os outros que se danem, inclusive, que se danem as próximas gerações”.

Se Adorno chegou a falar “como escrever poesia depois de Auschwitz?”, talvez a grande questão de nosso tempo seja: “como dançar depois de Bolsonaro?”

Emma Goldman, no final do século XIX, ao ser interpelada por um colega anarquista que seus movimentos eram inapropriados para o movimento, disse: “Se não posso dançar, não quero tomar parte de vossa revolução”.

Como Goldman, que possamos reaprender a dançar, enganar o poder com os passos da dança, para não nos deixarmos ser fixados. Quando assim for, todos os dias serão das mulheres, em que será celebrado não a obsessão pálida pelas garantias de identidades estáveis, mas sim o riso, o gozo, a dança desengonçada, o balbuciar… Bonitos porque ambivalentes, encantadores porque não dedutíveis ou fixados!

Falar em dia das mulher é justamente reativar esse círculo de poder, tal qual o poder das bruxas, reacendendo as potências de reverberação. Elas levantam uma dinâmica de pertencimento, de acolhimento aos corpos diferentes, lembrando as práticas da comunidade, de cuidado e de afeto.

Como fazer uma fórmula de feitiçaria e despertar um “projeto de bruxas” para ressuscitar comunitarismos? Através de novas práticas políticas que retomem as práticas matrísticas do amor e do cuidado.

E que no dia internacional da mulher, data de rememoração política dos seus perigos, que façamos da razão o nosso afeto potente para continuarmos dançando!

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