O ocidente precisa parar de generalizar o “país chamado África”

Assim como entender a Albânia não é suficiente para explicar a Europa, entender Seychelles não é o suficiente para entender a África

(Foto: Pixabay)

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Opinião

Prestes a entrar na década de 2020, o mundo ocidental – em especial a sua indústria cultural – segue comemorando o êxito de suas produções fictícias ou baseadas em fatos reais ambientadas num “país chamado África”.

Não adianta: por mais que nessa multiforme extensão espacial de 30 milhões de km2 habitem mais de um bilhão de habitantes das mais diversas etnias e nações, distribuídos em mais de 50 países, prevalece ainda, para o Ocidente, a oportuna e fantasiosa construção generalista que trata a África como um bloco homogêneo.

A generalização é uma operação tentadora que se faz presente não apenas na indústria cultural, mas também na ciência e na imprensa ocidentais. Em nenhum outro lugar do mundo as partes parecem ser tão explicativas do todo: as transformações de ordem climática na savana de Botsuana passam a explicar toda a natureza africana, a queda de um ditador no Zimbabwe passa a explicar toda a política africana, os investimentos chineses em infraestrutura no litoral nigeriano passam a explicar toda a lógica das relações exteriores africana. Nessa lógica presente, as particularidades são inconcebíveis e tudo se torna “algo em algum lugar da África”.

Verdadeiro constructo ideológico que se desenvolve desde a colonização europeia, no século 19, o “país chamado África” é entendido e representado dentro de três perspectivas fundamentais.

A primeira delas é notoriamente um resquício das literaturas coloniais. Trata-se de um espaço da natureza selvagem, retratado por inexploradas savanas, florestas, desertos, rios e lagos, nos quais uma rica e diversificada fauna de pesados mamíferos vivem em harmonia com o meio. Leões e outros bichos protagonizam histórias voltadas ao publico infantil, embora consumidas também por adultos saudosos. A figura humana nessas representações é praticamente inexistente ou aparece discretamente integrada à paisagem, junto aos animais e plantas.

É nessa África que nós, ocidentais, vestimos o chapéu, a bota e a calça de sarja para fazermos os safáris.

A outra representação diz respeito às culturas exóticas do continente, que são observadas em práticas religiosas estranhas, hábitos alimentares curiosos e línguas impronunciáveis para o universo latino e anglo-saxão. Da cultura material sagrada de vários desses povos saem obras de arte que servirão de atestado de cosmopolitismo para habitats não africanos.

É nessa África que nós, ocidentais, assistimos como antropólogos do século 19 aos festivais religiosos e musicais.

Por fim, tem-se a representação mais explorada: a da tragédia humana. Ela seria, por sua vez, um produto da suposta política desequilibrada das lideranças do continente que, geralmente, são entendidos como sujeitos corruptos, autoritários e violentos; os verdadeiros responsáveis pela explosão de sangrentos conflitos. Nos filmes documentários ou nas matérias de jornal, boa parte do ocidente questiona-se atônita: “mas como é que podem eles [os negros africanos] estarem matando uns aos outros?”.

Soma-se a essa tragédia a disseminação de doenças como a Aids e o ebola, anunciada em dados estatísticos que raramente fazem inferências regionais. Há ainda a fome, que assola a realidade africana em função das incontroláveis secas, produzidas pela supramencionada natureza selvagem.

É nessa África que nós, ocidentais, pegamos nossas câmeras fotográficas para registrar toda a benevolência de nossas almas em nossos trabalhos voluntários.

A bem da verdade, o que “país chamado África” revela é que existe a necessidade do Ocidente avançar e sofisticar em suas elaborações da indústria cultural, assim como em suas produções científicas e na qualidade das notícias que sua imprensa produz e difunde nos meios de comunicação.

Assim como entender a Albânia não é suficiente para explicar a Europa, entender Seychelles não é o suficiente para entender a África.

Atentar às particularidades de um determinado lugar e, a partir disso, buscar entender sua relação com escalas geográficas mais amplas é o esforço de complexidade contrário à tentadora e redutora generalização.

Esse esforço precisa ser feito para dividir o “país chamado África” em seus territórios reais, com suas especificidades produzidas pela dialética do processo histórico. As unidades políticas verdadeiras devem ser buscadas, com ou sem leões.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É pesquisador de Pós-Doutorado da Universidade de São Paulo

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