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O melhor professor do mundo e o combate à extrema pobreza no Quênia

3ª Turma,Economia,Opinião,Sociedade

A escolha de Peter Tabichi como o melhor professor do mundo pelo prêmio Global Teacher Prize de 2019 chama a atenção para uma pequena revolução que está acontecendo no Quênia, um dos países mais pobres da África e do mundo, com 22% de analfabetismo. A experiência pioneira de distribuição de uma Renda Básica Universal, no valor de U$ 22 mensais, a todos os adultos em 124 vilas rurais do país, abriu a possibilidade de milhares de crianças vivendo na extrema pobreza passassem a frequentar as escolas. A experiência, que irá durar 12 anos, já dá sinais de sucesso.  

Apesar de o ensino público básico de nove anos ser considerado “gratuito” no Quênia, os pais são obrigados a pagar fees, taxas extras para a compra do uniforme obrigatório, livros, cadernos, e o pagamento de provas, transporte e comida. Sem isso, não estudam. O número reduzido de professores e as salas lotadas, muitas vezes com 70 ou até 100 alunos em estruturas precárias, dificultam o aprendizado de crianças, que rotineiramente chegam com fome à escola.

No ensino secundário, o acesso é ainda mais difícil. O governo subvenciona apenas US$ 22 por aluno anualmente. Hoje, 14,7 milhões de quenianos vivem na extrema pobreza, com menos de US$ 1,9 por dia, ou cerca de R$ 7. Com renda média diária de US$ 0,5 a US$ 2, o quadro tão desfavorável não impede que os pais tentem arcar com os custos, que podem variar de RS$ 330 a US$ 1.300 anuais. Porém, os valores altos impedem a maioria de concluir os estudos e assim escapar do ciclo da pobreza.  

A determinação de Peter Tabichi em mostrar aos alunos que, através da educação, utilizando-se do conhecimento com criatividade, eles teriam a chance de mudar suas vidas, venceu. Não é a toa que o professor foi escolhido o melhor entre 10 mil indicados, de 179 países, para receber o prêmio de US$ 1 milhão (R$ 3,9 milhões) da Fundação Varkey, organização dedicada à educação. As adversidades são muitas.

O professor Tabichi é frade franciscano e leciona Ciências e Matemática na Escola Secundária Keriko Mixed Day, no vilarejo de Pwani, região semi-árida extremamente pobre no Vale do Rift. Mensalmente, doa 80% de seu salário para ajudar os alunos mais carentes. O professor investe em jovens muitas vezes com dificuldade de concentração por falta de comida. Ensina técnicas de cultivo mais resistentes aos moradores das comunidades locais e estimula a ambição dos alunos ao convencê-los de que a ciência pode ser o caminho para um futuro melhor.  

Os quenianos bem sabem da importância da educação. A experiência de 27 meses de distribuição de uma Renda Básica Universal e incondicional está demonstrando que garantir a frequência dos filhos à escola é prioridade para absolutamente todas as famílias beneficiadas. Em algumas vilas do programa, com classes de até 80 alunos, os pais se cotizaram para contratar uma segunda professora, remunerada pela comunidade.

Nos próximos artigos, vou contar um pouco mais sobre essa experiência revolucionária no combate à extrema pobreza que acontece há 27 meses no Quênia, com duração prevista de 12 anos. O país é um dos 48 membros da África Subsaariana, ao Sul do deserto do Saara, apontado pelo Banco Mundial como a região mais pobre do planeta.

Com um sistema simples de transferência de renda, usando o SMS do celular, sem precisar de conta bancária, o benefício de U$S 22 mensais a todos os adultos de 124 vilas rurais chega diretamente nas mãos das pessoas favorecidas, que podem usar o dinheiro como quiserem. A experiência pioneira da Renda Básica Universal, conduzida pela Give Directly, ONG financiada por empresários do Vale do Silício, está inovando no combate à extrema pobreza no Quênia. Vale a pena conhecer essa história!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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