O medo que nos assalta em meio à pandemia

Vencê-lo é a tarefa primeira, tanto para que o desgoverno se vá, quanto para derrotar a pandemia

Solenidade de Posse do senhor Fábio Faria, Ministro de Estado das Comunicações, e do senhor Marcos Pontes, Ministro de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovações. Foto: Marcos Corrêa/PR

Solenidade de Posse do senhor Fábio Faria, Ministro de Estado das Comunicações, e do senhor Marcos Pontes, Ministro de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovações. Foto: Marcos Corrêa/PR

Opinião

“E se esta parte do hemisfério não sofrer uma profunda transformação revolucionária, a enorme diferença e desequilíbrio que se produziu no princípio deste século entre a pujante nação que se industrializava rapidamente, ao mesmo tempo que marchava pela própria lei da sua dinâmica social e política para culminâncias imperiais, e o feixe de países débeis e estagnados, submetidos ao jugo de oligarquias feudais e seus exércitos reacionários, no balcanizado resto do continente americano, será apenas um pálido reflexo não já do enorme desnível atual na sua economia, na ciência e na técnica, mas do espantoso desequilíbrio que, a passos cada vez mais acelerados, em vinte anos mais, a superestrutura imporá aos povos da América Latina.

Por esse caminho, estamos condenados a ser cada vez mais pobres, mais débeis, mais dependentes e mais escravos desse imperialismo. Esta sombria perspectiva afeta em grau igual os povos subdesenvolvidos da África e Ásia.

Se as nações industrializadas e instruídas da Europa, com seu Mercado Comum e suas instituições científicas supranacionais, se inquietam ante as possibilidades de ficarem arrasadas e contemplam com temor a perspectiva de se converterem em colônias econômicas de imperialismo ianque – o que oferece o futuro aos povos da América Latina?” Fidel Castro, na Introdução à edição cubana do “Diário” do Che Guevara, editado no Brasil pela Global Editora, na década de 80 do século passado.

As palavras proféticas do Comandante da Revolução Cubana, escritas há quase meio século, continuam atualíssimas.

São ainda mais verossímeis neste momento, em que Trump revela que gostaria de se encontrar com Maduro, o presidente de fato e de direito da Venezuela.

Resistir ao imperialismo, mais uma vez, demonstra ser o único caminho da liberdade.

Sucumbir, representa eterna dependência, pobreza e morte.

O ilegítimo desgoverno brasileiro, que rompeu relações diplomáticas com a Venezuela, como ficará?

Talvez a melhor imagem seja aquela do jogo de crianças em que aquele que dá o passe errado vai para o centro da roda e fica como um bobo tentando interceptar a bola, mas só é alvo de risadas: está virtualmente fora do jogo.

O país, de fato, não é mais uma nação soberana, tornou-se reles colônia dos Estados Unidos da América, resultando ser um cemitério de ideias; de homens e mulheres; de bichos e plantas; um depósito de terra e águas, cada vez mais contaminadas.

A propósito, Hannah Arendt recorda, em “Liberdade para ser Livre”: “Os homens das primeiras revoluções, embora soubessem muito bem que a libertação tinha de preceder a liberdade, ainda ignoravam o fato de que tal libertação significava mais que libertação política do poder absoluto e despótico; que estar livre para a liberdade significava, antes de tudo, estar livre não apenas do medo, mas também da necessidade.”

O medo, de fato, assalta-nos em meio à pandemia e às declarações de generais reacionários e destemperados do atual desgoverno.

Por isso, vencer o medo é, para os brasileiros e brasileiras, a tarefa primeira, tanto para que o desgoverno se vá, quanto para vencer a pandemia, pois, com ele, seremos vencidos por ela, como já estamos sendo, ao contabilizar mais de 50 mil mortos e um milhão de infectados, números muito inferiores aos reais, tendo em vista que o país é um dos que menos testa para o covid 19. Aliás, no país mais desigual do mundo, a feudal oligarquia brasileira criou as festas “covid free”. Os convidados são todos graciosamente testados na entrada do convescote…

Sobre o tema do medo, vale citar Hannah Arendt: “O que aconteceu em Paris em 1789? Primeiro, a liberdade em relação ao medo é um privilégio do qual poucas pessoas gozaram, apenas em períodos relativamente curtos da história, mas a liberdade em relação à necessidade foi o grande privilégio que distinguiu uma porcentagem muito pequena da humanidade através dos séculos…Apenas aqueles que conhecem a liberdade em relação à necessidade podem apreciar por completo o significado da liberdade em relação ao medo, e só aqueles que estão livres de ambos – necessidade e medo – têm condições de conceber uma paixão pela liberdade pública, de desenvolver em si próprios aquele goût pela liberté e o gosto particular pela égalité que a liberté traz consigo.”

No Brasil, em plena pandemia, o desgoverno mal paga o auxílio emergencial de 600 reais (valor obtido graças à oposição, pois o desgoverno insistia em apenas 200), que o desgoverno reluta em estender até o final da pandemia.

Entretanto, o mesmo desgoverno transferiu para os bancos, sem qualquer contrapartida, 1 trilhão e duzentos bilhões para os bancos, já no início da pandemia. Mais recentemente, pela PEC 10, parágrafo 8, determinou que o Banco Central adquira, com o nosso dinheiro, os títulos podres dos bancos, no valor astronômico de trilhões de reais, comprometendo o desenvolvimento do país, literalmente, para sempre.

Resta concluir novamente com Hannah Arendt: “Quer termine em sucesso, com a constituição de um espaço público para a liberdade, ou em desastre, o significado da revolução, para aqueles que se arriscaram por ela ou nela participaram contra sua inclinação e expectativa, é a atualização de uma das maiores e mais elementares potencialidades humanas, a inigualável experiência de ser livre para fazer um novo início, a partir do qual surge o orgulho de ter aberto o mundo a uma novus ordo seclorum.”

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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