Letícia Cesarino

O Facebook é o novo ‘chão’ da fábrica de realidades políticas

O trabalho online é um tipo de “trabalho de base” muito diferente daquele à qual a esquerda está historicamente acostumada a fazer. Mas um esforço deve não excluir o outro

Lula e André Janones falam, em live, sobre a continuidade do Auxílio Emergencial. Foto: Ricardo Stuckert
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Na semana passada, o deputado federal e ex-candidato a presidente André Janones agitou parte do Twitter ao criticar a esquerda por equívocos no trabalho de base, anunciando que o Facebook é o “chão de fábrica” da contemporaneidade. O deputado deve saber do que está falando.

No primeiro ano da pandemia, sua página naquela plataforma alcançou métricas recorde de visualização, e conta hoje com 8 milhões de seguidores – mais que o ex-presidente Lula e que os grandes perfis bolsonaristas, à exceção do próprio presidente. 

Os posts e lives de Janones seguiam alguns princípios básicos de engajamento em redes sociais. Sobretudo, cumpria uma função similar à de busca ou “pesquisa”, trazendo informações confiáveis, atualizadas e práticas orientando sobre o auxílio emergencial: quem teria o direito ao benefício, quais os procedimentos para consegui-lo, quando seria pago.

Esses vídeos traziam um estilo de performance também observado na sua live recente com Lula: filmagens dentro do local de trabalho, com exibição de documentos físicos oficiais, explicações em linguagem simplificada sobre pormenores legais e procedimentais.

Janones atua nas redes sociais por meio de uma versão moderada da lógica da guerra, que forma o cerne da política bolsonarista virtual

Os vídeos e lives de Janones também costumam seguir um outro padrão de engajamento da internet, relativo à temporalidade dos eventos em tempo real. Vídeos curtos com chamadas como “URGENTE AO VIVO: VOCÊ VAI PERDER SEU AUXÍLIO! SÓ VOCÊS E DEUS PODEM ME AJUDAR A IMPEDIR!” costumam alcançar as maiores métricas. Na época do pagamento do auxílio emergencial durante a pandemia, algumas dessas lives chegaram a ter índices de visualizações simultâneas da ordem de milhões, algo muito raro no contexto brasileiro.

Janones utiliza bem, ainda, um outro fator de eficácia na internet, que consiste em visibilizar algo que estava oculto. No geral, isso varia desde teorias da conspiração no sentido estrito, até denúncias, vídeos de bastidores, ou desmascaramento de pessoas públicas. Durante a pandemia, muitas das suas lives envolviam revelações de bastidores legislativos, desde explicações sobre o passo-a-passo da tramitação do auxílio, até filmagens dentro dos corredores e gabinetes do Congresso Nacional num dia de trabalho.

Além disso, o deputado e ex-advogado de caminhoneiros na greve de 2018 logra transmitir em seus vídeos uma imagem de espontaneidade e autenticidade. Isso se dá, por um lado, pela sua performance carismática de pessoa simples, com sotaque do interior mineiro. Evangélico, filho de empregada doméstica e pai cadeirante, estudou a vida inteira em escola pública e trabalhou como trocador de ônibus, até conseguir uma bolsa para estudar direito. 

Por outro lado, a espontaneidade também é transmitida pelo ambiente mostrado nos vídeos. O pano de fundo costuma trazer gabinetes ativos, até meio desarrumados, onde podem aparecer objetos aleatórios como fotos ou garrafas d’água, e funcionários trabalhando em sua rotina quotidiana. Por essas vias, Janones logra ocupar uma função típica dos “novos mediadores” contemporâneos: uma figura com a qual o usuário comum se identifica pessoalmente, mas que acrescenta algum tipo de expertise na qual ele se interessa.

Finalmente, Janones atua nas redes sociais por meio de uma versão moderada da lógica da guerra, que, como argumentei na última coluna, forma o cerne da política bolsonarista nas redes. Ao alegar que o Auxílio Brasil e demais benefícios, por durarem apenas até dezembro, constituem uma fraude eleitoral, o deputado está, como gostam de dizer os bolsonaristas, “jogando o feitiço contra o feiticeiro”.

O procedimento semiótico de reproduzir a mesma forma do inimigo mas com conteúdo invertido, que chamo de mímese inversa, reaparece em termos utilizados por ele, como futuro presidiário (uma mímese inversa de ex-presidiário, expressão utilizada pelos bolsonaristas para se referirem a Lula) ou gabinete do amor, em contraposição ao chamado gabinete do ódio.

Dizer que as redes sociais e aplicativos de mensagens não esgotam a realidade das pessoas é apenas dizer o óbvio. Mas tampouco temos acesso direto e não-mediado à realidade, especialmente naqueles níveis explicativos muito afastados do nosso dia-a-dia. Neste sentido, as mídias digitais vêm preencher boa parte da lacuna entre percepção – por exemplo, da piora nas condições de vida – e explicação – quais as causas por trás dessa piora.

De fato, é um tipo de “trabalho de base” muito diferente daquele à qual a esquerda está historicamente acostumada a fazer, nas escolas, sindicatos, movimentos sociais ou igrejas.  Mas o esforço na frente offline não exclui o outro, na frente online: pelo contrário, se fortalecem e se reforçam mutuamente.

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