Opinião

O desastre no Rio Grande do Sul não pode ser qualificado como ‘ambiental’

Do governador do Rio Grande do Sul, passando pelo prefeito e pelas bancadas do estado na Câmara de Vereadores, na Assembleia Legislativa, na Câmara e no Senado são todos coautores

Foto: Agência Brasil
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“O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer nesse dogma de fé neoliberal.”

Papa Francisco, na Encíclica Fratelli tutti
O desastre no Rio Grande do Sul não pode ser qualificado de “ambiental”.
A definição de “desastre” assimila-se àquela de “acidente”: para que ocorra é necessário um conjunto de fatores concorrentes. Sem isso, tem-se um “incidente”, de menor intensidade, como a própria etimologia da palavra esclarece.
Assim, por definição, um único agente, no caso, o meio ambiente, não é capaz de gerar um desastre.
Dessa maneira, mais apropriado é qualificar os desastres, antes considerados “naturais” ou “ambientais”, de “socioambientais”, pois sem a concorrência da intervenção humana, na forma de ação ou omissão, um desastre não pode ocorrer.
Infelizmente, do governador do Rio Grande do Sul, passando pelo prefeito e pelas bancadas retrógradas do estado na Câmara de Vereadores, na Assembleia Legislativa, na Câmara dos Deputados e no Senado Federal são todos coautores da catástrofe e por isso deveriam ser julgados e condenados.
Cabe também a pergunta: onde estava o Ministério Público? Não acompanhou todos os desmandos do Executivo e do Legislativo estadual? Coibiu-os?
Sem nos colocarmos essas perguntas, dificilmente se poderá entender as origens do ocorrido e, sem compreendê-las, como gerar resiliência e prevenir novos cataclismos, que as mudanças climáticas prenunciam sempre mais devastadores?
Em primeiro lugar, Eduardo Leite reduziu o tamanho do estado a níveis haitianos: abriu mão da responsabilidade pelo fornecimento de água, luz, fiscalização ambiental, entre outras, permitindo o sucateamento do sistema de proteção de Porto Alegre, que embira conte com bombas para a retirada da água e comportas, todas estavam sem a devida manutenção.
Para a Defesa Civil, Leite e sua bancada estadual alocaram 50 mil reais no orçamento, o que, por si só, deveria acarretar-lhe ordem de prisão, em um país que contasse com poderes Legislativo e Judiciário atuantes, segundo as próprias responsabilidades no equilíbrio de “checks and balances”, inerentes a uma democracia efetiva.
Desafortunadamente, não foi só a capital a vítima do neoliberalismo atrasado do governador, do prefeito e de seus comparsas no Legislativo.
Todo o estado do Rio Grande do Sul foi presa da incúria do representante da sucata do PSDB (no resto do país a sigla praticamente desapareceu, para alívio da maioria da população brasileira, que ainda pode identificar a herança maldita legada por aquele partido).
Em Lajeado, a localização da loja da Havan era claramente sobre o que deveria ser área de preservação de enchentes do rio Taquari.
A confirmar essa tese, literalmente perceptível a olho nu por qualquer leigo, o rio inundou-a completamente, a ponto de ser completamente submersa pelas águas.
Fica a pergunta: o Ministério Público está investigando como pôde ter sido autorizada aquela construção?
Talvez, encontrar-se-á mais lama ali do que na própria cheia do Taquari.
Em Papa Francisco Vida – a minha história através da História (editora Harper Collins), de Fábio Marchese Ragona, com a coragem que o caracteriza, o Papa Francisco aduz: “Na perspectiva de uma ética amiga do homem e do ambiente, o desafio será o de civilizar o mercado, pedindo-lhe que se coloque a serviço do desenvolvimento humano integral, e não apenas que seja eficiente na produção da riqueza…Na verdade, devemos aceitar estruturalmente ‘que os pobres têm dignidade suficiente para se sentar em nossas reuniões, participar de nossas discussões e levar o pão para sua casa. E isso é muito mais do que assistencialismo: estamos falando de uma conversão e transformação de nossas prioridades e do lugar do outro em nossa política e na ordem social…”
O que é admirável em Francisco é sua universalidade, um Papa que veio “do fim do mundo”, em suas próprias palavras, mas capaz de falar verdades insofismáveis, quase mostrando Deus a crentes, das várias denominações, e ateus.
Com efeito, a humanidade se divide de tantas formas, mas essa parece ser a fratura mais clara.
Entretanto, pouco nos perguntamos quem é Deus para mim e que é Ele para o outro.
Com base nessa pergunta básica, talvez pudéssemos chegar a algumas conclusões interessantes: primeiro, que não se trata de um senhor de barba branca sentado em um trono, mas uma entidade muito mais próxima de nós, como o médico que nos tranquiliza – e que confidencia atender em um dos hospitais mais caros do país, mas que se sente recompensado mesmo é pelo seu trabalho no SUS; o motorista de Uber com capacidade de análise política superior, porque vive o horror da hipocrisia social, confidenciando ter transportado em um único dia dois policiais que foram buscar droga em uma bica de fumo; ou aquele morador de rua que recebe um trocado e te abençoa generosa e publicamente (atualmente, só eles o fazem, além dos religiosos).
Eu me sinto privilegiado por sentir essas presenças e, nelas, Deus, o meu Deus, que será tão diferente para
cada um e cada uma de nós.
O livro da entrevista com Francisco, que citei acima, comprei-o na livraria Paulus, de Porto Alegre, uma semana antes da enchente, que atingiu em cheio aquela loja, na Praça XV, assim como a das Paulinas, na Rua da Praia, onde também estive na oportunidade, sendo recepcionado pela querida Irmã Maura.
Espero que ambas as lojas possam ser logo reabertas, assim como o Mercado Público Municipal, o mais antigo do Brasil, para nunca mais terem de fechar.
Concluo, lembrando de meu amigo Halim, um guerreiro com duas lojas na rodoviária de Porto Alegre, ambas sob as águas. Depois da pandemia e das dívidas que os lojistas tiveram de enfrentar pelos gastos sem entradas, ou bastante reduzidas, no período posterior, Halim não merecia mais este baque – me dissera que estava feliz com o desempenho da economia e dos seus negócios. Conhecendo-o e os amigos e amigas da Paulus e das Paulinas, tenho certeza de que irá se recuperar, como o Caramelo, símbolos, todos eles e elas, do grande Rio Grande.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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