O 8 de março da mulher negra

Saúdo as mulheres negras com a esperança de que recebam o merecido reconhecimento e de que no futuro encontrem-se em condições de igualdade

Mulheres Negras no Fórum Estadual das Mulheres Negras no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Mulheres Negras no Fórum Estadual das Mulheres Negras no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

CartaCapital,Justiça,Opinião

O mês de março é marcado pelo Dia Internacional que celebra as lutas e conquistas das mulheres pela igualdade de direitos sociais, econômicos, trabalhistas ao redor do mundo.

Contudo, é possível perceber que quando se discutem comemoram, celebram conquistas femininas pouco se coloca em evidência a situação das mulheres negras em um contexto mundial, bem como o fato de seus processos de luta passarem por diferentes experiências que não se conectam com aquelas de mulheres brancas, principalmente por não terem logrado ao longo dos séculos essas condições de igualdade tão comemoradas.

Tanto é assim, que quando se fala em luta de mulheres as imagens às quais nos remetemos são as de mulheres brancas, ou seja, o próprio termo mulher designa a mulher branca, e não a negra.

Mulheres Negras no Fórum Estadual das Mulheres Negras no Rio de Janeiro. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Isso demonstra que para falar sobre as necessidades e direitos de mulheres não brancas é preciso nominá-las como mulheres negras, tornando evidente a lamentável realidade de que se trata de um grupo distinto racialmente, que padece com as diferentes privações que são impostas sob o domínio do patriarcado branco, do qual todos fazemos parte e alimentamos por meio de ações irrefletidas que impactam vidas e determinam mortes a partir de escolhas e concessões de privilégios.

Como homem negro que também sofre com os efeitos do racismo sinto-me legitimado a apontar aquilo que o cotidiano me apresenta e torna evidente, bem como quão mais difíceis são as vidas dessas mulheres, que sofrem e morrem a todo o momento em razão da cor da sua pele, vítimas de discriminações múltiplas.

No meu cotidiano presencio, e as pesquisas confirmam, que são elas as maiores vítimas de violência doméstica, em todas as suas formas de expressão, especialmente física e psicológica. Vivem em relacionamentos abusivos, que desconsideram seus desejos, aspirações, sentimentos, que as desumanizam, não contemplando suas necessidades, nem compreendendo suas fragilidades. São seres solitários, aos quais até o afeto é suprimido, o amor é minguado e a felicidade aparece como um golpe de sorte, pois ela não faz parte do caminho natural das coisas.

Mulheres negras são objetificadas, tendo sua essência “positiva” expressa na figura da carnavalesca seminua e hipersexualizada. Por outro lado, ainda crescem com suas subjetividades forjadas a partir de estereótipos negativos e com padrões estéticos femininos impostos pela supremacia branca, que dita o que é o belo: o nariz afinado, o cabelo liso, a pele clara, o olho azul da cor do céu ou verde igual o mar. Enquanto isso, elas são a “nega do cabelo duro que não gosta de pentear”, assim como estereotipadas em tantas outras músicas.

Ao receberem os menores salários permanecem sempre na base da pirâmide social das opressões. Trabalham, mas suas profissões são limitadas ao exercício de atividades subalternas, estando restritas muitas vezes aos serviços domésticos dos diferentes lugares nos quais permanecem invisibilizadas, porque ninguém se importa com sua existência.

Com isso sofrem todos aqueles que estão ao seu entorno, privados de suas necessidades básicas. Ainda, os serviços de saúde que lhes são ofertados são os piores. Vítimas de violência obstétrica, padecem desde a concepção de seus filhos. O que se passa na cabeça de um médico para ele entender que uma mulher negra não necessita receber anestesia? Desabam com mortes violentas e desaparecimentos, que as atingem como mães, irmãs e esposas, fatos que dissipam famílias e as marcam emocionalmente de modo indelével.

Os espaços de poder também ainda não são ocupados por mulheres negras. Quantas são as governadoras e prefeitas? Quantas são as vereadoras, deputadas, senadoras? Há mulheres negras nos tribunais superiores do nosso país? Essa absurda realidade se reflete nas condições sociais nas quais vivem, pois sem exercerem sua voz e colaborarem para a construção de políticas públicas, pouco ou nada lhes é destinado, o que as mantém em condições de sobrevivência indignas.

Não obstante, é necessário que se diga que a sociedade precisa compreender que na medida em que as mulheres negras melhoram, toda a cadeia social tende a melhorar. Ora, uma mulher negra com remuneração digna proverá alimento aos seus que consequentemente terão saúde acurada e serão mantidos na escola. Assim, uma mulher negra emancipada poderá oferecer aos seus os bens e serviços antes não merecidos e toda sociedade caminhará para condições de vida mais justas.

Por conseguinte, no 8 de março da mulher negra há poucas conquistas a serem comemoradas. Elas necessitam de atenção integral do Estado e da sociedade.

Em um país composto por mais de 56% de pessoas negras, mulheres são mães, irmãs, tias, avós, da maioria da população brasileira. Por isto, todos precisamos promover seu movimento rumo a todos os espaços para que todos possam viver dias melhores!

Essa é a razão por que não comemoro a data, mas saúdo todas, em especial as mulheres negras, com a esperança de que recebam o merecido reconhecimento e de que no futuro encontrem-se em condições de igualdade com todos e em todos os espaços.

Escrevo este artigo em alusão a uma mulher negra, que com apenas o quarto ano primário e experimentando muitas privações que atravessam vidas como a dela, criou quatro filhos, chorou a morte de um deles, sofreu, padeceu, mas vive e confirma a trajetória de luta, de perseverança e de resistência: minha amada mãe!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Advogado do Escritório Demarest Advogados, vencedor do Chambers Diversity & Inclusion Awards 2019, na categoria Future Leader - Minority Lawyers, membro do Comitê D Raízes do Demarest Advogados, da Comissão de Igualdade Racial da OAB/SP e do Fórum de Prevenção e Combate à Discriminação Racial no Trabalho do Ministério Público do Trabalho – MPT/SP, Coordenador do Projeto Incluir Direito, autor de artigos publicados.

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