Opinião

Novamente, o Chile volta a nos ensinar o caminho

Chegará também a hora do Brasil e do Paraguai, para que toda a pátria missioneira esteja novamente sob o sol da verdade, da justiça e da paz

Manifestantes encaram polícia em frente ao Congresso do Chile (Foto: Javier Torres/AFP)
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Enquanto o Brasil entrega mais uma parte de sua soberania aos Estados Unidos da América (a Base Aeroespacial de Alcântara), o Chile desperta. Um gigante, não por acaso, a pátria de dois prêmios Nobel de Literatura, Gabriela Mistral e Pablo Neruda, este, meu colega, diplomata chileno. Quanta inspiração!

“Confesso que vivi” foi um dos livros que me levou a prestar o vestibular do Instituto Rio Branco (IRBR). Nele, encontrei alguém que, de fato, conhecia, amava e representava seu país.

Não se escondia atrás da falácia de que diplomatas representam o Estado, pois não o representam. Segundo as Convenções de Viena sobre Relações Diplomáticas e Consulares, diplomatas representam governos.

Uma vez cursando o IRBR, tive uma grande professora de inglês, Sara Walker. Sem dúvida, uma das professoras com quem mais aprendi. Democrática, abriu a possibilidade de elaboração de trabalhos em substituição das provas. Indaguei-lhe se poderia verter para o inglês poemas da “Antologia Poética” de Neruda, então recém-editada no Brasil. Ela assentiu.

Naquela edição, os poemas vinham impressos no original, em castelhano; acompanhados da tradução ao português, facilitavam em muito a versão ao inglês.

O ano era de 1982 e ainda vivíamos sob a ditadura. Eu escolhi os trechos mais politizados e traduzi com enorme prazer, como fazemos quando trabalhamos com o que gostamos, qualidade distintiva que bem notara Paulo Freire.

 

Hoje, lembro com carinho daqueles dias, em que Neruda me permitiu tanta intimidade com seu povo, suas lutas e amores.

Como pulsa nosso sangue latino-americano!

Novamente, o Chile volta a nos ensinar o caminho! As sementes de Neruda, Mistral, Parra, Jara e Allende brotam!

É Sepe Tiaraju quem se elege mais uma vez na Bolívia, para horror do império, que não quer latino-americanos alfabetizados, informando e sendo informados, por meio de rádios comunitárias e outros veículo de informação que rompem a máquina de manipulação; aqui, liderada pela Rede Globo.

Na semana passada, em todo o Brasil, houve manifestações em frente dos Consulados do Chile, apoiando a luta heróica dos chilenos e chilenas.

Nossa luta, de libertação anti-imperialista.

Somos os latino-americanos a deliciosa multiplicidade que se formam as unidades. Um mosaico cultural, não a homogeneidade empobrecida que o império quer nos vender, para melhor e mais facilmente nos dominar.

Somos muitos, mas não somos legião. Somos união, não divisão. Porque a vida é múltipla, rica, auto-sustentável, complementar, não competitiva.

Em verdade, só um grupo diverso é acolhedor, por definição.

Pela vida, vamos peregrinando, até reconhecermos companheiros e companheiras, amigos e amigas, culturas que nos deem as respostas que buscamos; pelas quais anela nosso inconsciente coletivo, como bem identificou o pai da psicologia analítica, Carl Gustav Jung.

Com efeito, se as cigarras morrem, as sementes, por outro lado, ainda brotam (apesar da sinistra da agricultura e das necropolíticas que ela e o chefe miliciano executam).

Na Argentina e no Uruguai, dois outros países onde as sementes missioneiras estão germinando, a verdade deverá voltar a se impor, nas eleições presidenciais.

Países mais alfabetizados e cultos estão menos vulneráveis às mentiras que tanto foram disseminadas no Brasil e que permitiram a vitória, temporária, das trevas.

Chegará também a hora da libertação do Brasil e do Paraguai, para que toda a pátria missioneira esteja novamente sob o sol da verdade, da justiça e da paz.

Não estará longe esse dia, haja vista que governo não há. Os desastres de Brumadinho e da contaminação das praias do Nordeste deixam isso tristemente claro.

Nenhum protocolo nacional ou internacional de defesa civil foi seguido, não apenas na prevenção mas também na resposta aos referidos desastres. Talvez porque o desgoverno ilegítimo seja ele próprio um e, como bem disse o Cristo, um demônio não pode expulsar outro.

Vale observar que o psicopata que nos desgoverna – não tratado – vê seus comparsas internacionais caírem, um a um: Salvini, Bibi, Orbán e, já na fila, Moreno e Piñera.

À queda de Bibi, reagiu: mudaremos o embaixador em Israel! O delírio de grandeza em toda a sua amplitude, a megalomania em sua face mais perversa e patológica.

Entretanto, se eles têm os demônios, temos os santos.

Santa Dulce dos Pobres, recém-canonizada; São Frei Galvão, franciscano cujo dia 25 de outubro acabamos de comemorar; São José de Anchieta, jesuíta como Francisco; e Santa Madre Paulina, a pioneira no panteão celeste.

Conta a hagiografia que São Francisco conversava com as cigarras e que elas não saíam de sua presença até que as licenciasse, tal a ascendência que tinha, pelo amor que lhes professava, não pela vigilância, o medo ou a dominação.

Simbolicamente – e de fato – as cigarras abandonaram esta pátria, que voltou a ser “desimportante”, como bem cantara Cazuza.

Mas a luz não se estingue, nem na cruz, nem sob o lodo, nem sob o óleo. O ódio, a ignorância e a traição, esses extinguem-se, graças a Deus.

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