Parasita, no Brasil, é documentário

Ganhadora de Oscar de melhor filme, obra sul coreana encontra ecos no retrocesso brasileiro

O feito de Parasita no Oscar 2020 foi algo sem precedentes na história, por tudo o que representa, seja como filme em língua estrangeira ou como produção que descentraliza o eixo hegemônico e excludente. Por muito tempo fomos levados a viver forçadamente sob “o perigo da história única”, nas palavras da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, devido a um monopólio colonizador de códigos e imagens eurocêntricas na cultura global.

Eis que Parasita, dirigido por Bong Joon-Ho, marca justo o ano em que o Oscar mudou o nome da categoria filme em língua estrangeira para filme internacional. Isso rompeu uma barreira universal da linguagem, que fazia parecer que tais culturas estariam distantes demais para o conhecimento de massas, tipo uma torre de babel. E é bastante irônico que o próprio contexto do filme aborde isso, pois a disparidade de classes e de oportunidades sociais descortina um fracasso moral inevitável: a humanidade ainda não conseguiu criar outra forma de organização que não se alimentasse de forma parasitária e simbiótica a superar este cruel abismo.

Um perfeito exemplo está acontecendo correntemente no Brasil: os alagamentos e inundações a assolar em especial a região Sudeste, na qual se concentra boa parte do PIB nacional, ampliaram a disparidade entre classes e seus respectivos territórios de moradia. As regiões mais desguarnecidas sempre são as que sofrem as piores perdas. Neste tipo de representação, o filme “Parasita” merece palmas. Especialmente na diferença de escalas com que seu design de produção reconstruiu cenários inteiros em desníveis geográficos, com uma casa rica e privilegiada no alto e um apartamento módico, quase um bunker, nas partes mais subterrâneas da zona urbana. Tanto que a ironia da trama é que os obstáculos enfrentados pelos respectivos lados advém de ordem inversa: enquanto a ameaça à família rica vem de baixo, do que não se quer enxergar, o que assola a família proletariada vem de cima, os alaga e afoga.

A famosa expressão do filme, “cheiro de pobre”, também encontra ecos aqui.

A contaminação da água potável no Rio de Janeiro afetou diferentemente as diversas camadas da população. Em regiões mais pobres, ou não há fornecimento ou o esgoto chega direto em suas torneiras de casa… Nos bairros mais nobres da cidade, raras foram as ocasiões em que a água alterou seu cheiro, cor ou gosto, ainda que a água mineral esteja acabando em todo mercado… Afinal, quem quer correr o risco de adoecer com água contaminada, se muitos nem podem se dar ao luxo de parar de trabalhar e ganhar seu sustento? Os direitos são bastante desiguais, como se exemplifica no espelho estilhaçado de identificação internacional colocado em nossa frente pelo filme “Parasita”.


O ritmo e cadência perfeitos com que a história é contada levam à montagem quase “kinder ovo”, onde você abre e sempre recebe uma surpresa, numa edição cíclica no tempo, mostrando vários espaços e linhas temporais simultâneas no primeiro ato. Depois uma sequência de tirar o fôlego no segundo ato, a partir do momento que os porões liberam seus fantasmas sociais. Até o terceiro ato ter direito a um respiro utópico para os otimistas, ou um último delírio que destrói com o sonho falso de meritocracia, pois os privilegiados não aceitam abrir mão de seus privilégios, e os que conseguem escalar este muro costumam ser derrubados sem nenhuma clemência (como demonstraram as recentes palavras do nosso Ministro da Economia Paulo Guedes)!

Nada irá reduzir o mérito da vitória de Parasita. Pode não ter sido a primeira Palma de Ouro (que foi Marty) e nem a primeira produção estrangeira a ganhar o Oscar (vide filmes britânicos como Carruagens de Fogo)… Porém, esta foi a primeira vez que um filme em língua estrangeira recebeu tal reconhecimento, já que a única outra produção não-inglesa a levar a respectiva estatueta havia sido o francês O Artista, que homenageava a gênese da própria Hollywood na Era Muda, e não possuía falas em qualquer língua. Nossa língua também é propriedade intelectual, é cultura, e também deve ser reivindicada. Um filme internacional, realizado por equipe e em território estrangeiros, tudo isso abre precedentes para que não apenas o Oscar, como o mundo inteiro fique mais atento a histórias antes tidas como periféricas… como a brasileira, por exemplo, como “Bacurau”, como “Democracia em Vertigem”… E talvez, com esta nova aproximação, possamos tentar, enfim, diminuir as desigualdades que tanto nos separam numa suposta torre de babel.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Filippo Pitanga

Jornalista e Advogado. Membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro – ACCR. Professor na Academia Internacional de Cinema – AIC-RJ, curador de Cineclubes no Estação Net de Cinema e Editor-chefe do Almanaque Virtual.