Não esqueçam Paulo Guedes

O ministro da Economia é inconsequente e leviano no trato com a pandemia como Bolsonaro

O ministro da Economia, Paulo Guedes, ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

O ministro da Economia, Paulo Guedes, ao lado do presidente Jair Bolsonaro. Foto: Isac Nóbrega/PR

Opinião

Bolsonaro é tão eloquente nas suas barbaridades que esquecemos de quem o cerca. Damares Alves brinca de Xuxa em um concurso de máscaras para crianças no qual o prêmio é uma tarde com ela e com a primeira-dama Michelle, e só conseguimos lamentar a sorte do vencedor. Abraham Weintraub insulta os ministros do Supremo, ataca os estudantes e defende a realização do Enem, o exame do ensino médio, na data marcada antes da pandemia e nem temos mais força para rebater o ministro. Restou torcer pela decisão do Senado, que forçou o governo a adiar a prova. Regina Duarte, a secretária que foi sem nunca ter sido, é rebaixada e não sai da cabeça a perspectiva de ver em seu lugar um ex-galã de Malhação. No Brasil de hoje, tudo pode ser pior. Sempre.

Esquecemos até do Paulo Guedes. O superministro da Economia, o último pé mais ou menos firme da penteadeira bamba chamada governo, o cruzado do mercado, goza de licença para ofender a lógica e os números, mentir e desdenhar de quem mais precisa de apoio neste momento. Nesta quarta-feira 20, Guedes voltou a atacar, impunemente. Os portais de notícias foram generosos. Diante de mais cotoveladas e pontapés do ministro, encontraram uma maneira de lustrar suas declarações. Guedes, dizem as manchetes, teria admitido pela primeira vez a possibilidade de estender o auxílio emergencial além de julho.

Comovente, racional, se assim fosse. O contexto não permite, porém, tanta boa vontade. Diante da destruição do PIB, que, só os patos não perceberam, será bem maior do que os 5% previstos pelas instituições financeiras no início da semana (o remédio amargo das más notícias vem a conta-gotas), o ministro propôs uma solução marota: para prorrogar o auxílio emergencial, basta dividir o valor em três parcelas. Em vez dos 600 reais aprovado pelo Congresso, pagos de uma só vez, os 200 reais propostos inicialmente pela equipe econômica em três suaves prestações.

Há, claro, um sentido didático, educativo, na proposta. O ministro explica: “Se falarmos que vai ter mais três meses, mais três meses, mais três meses, aí ninguém trabalha. Ninguém sai de casa e o isolamento vai ser de oito anos porque a vida está boa, está tudo tranquilo. E aí vamos morrer de fome do outro lado. É o meu pavor, a prateleira vazia”, disse.

 

Quanta falsa preocupação e incoerência em uma mesma frase. O sujeito vai receber a merreca de 200 reais, não vai sair de casa por achar tudo tranquilo, mas vai morrer de fome. Como seria? Perdi 30 quilos, estou à beira da inanição, pois com 200 reais mal compro um botijão de gás e uma cesta básica, meus filhos não tem o que mastigar, mas estou tranquilo. Trabalhar para quê? Posso ficar oito anos, a vida está boa. Segundo o ministro, estaria tudo tranquilo com um auxílio de 600 reais que excluiu milhões de vulneráveis e submete outros tantos a humilhações nas filas da Caixa e da Receita Federal.

Não se pode ir além, justifica o pensamento guediano, uma variação do vácuo bolsonarista, essa corja de vagabundos esquerdistas adora mamar nas tetas do Estado. Olha só o Bolsa-Família: quantos cortadores os canaviais perderam? Quantas domésticas deixaram de servir seus patrões? Quantos trabalhadores trocaram o pão obtido com o suor do rosto por sombra, água fresca e uma esmola, não é mesmo? É sempre um risco permitir que a patuleia sinta o gosto da vida boa. Se bobear, o chicote no lombo deixa de fazer efeito.

No mesmo encontro com empresários, Guedes não perdeu a oportunidade de mostrar sua generosidade, como se o dinheiro público fosse uma dádiva que lhe cabe distribuir: “Eu estou jogando dinheiro, não tem problema. Agora, a prateleira vai estar vazia porque vão parar de produzir. Então tem um equilíbrio delicado que a gente tem que seguir”. O ministro joga dinheiro como Sílvio Santos? Quem quer dinheiroooo. Na fila do gargarejo estão os bancos, coitados, socorridos com mais de 1 trilhão de reais dos compulsórios em tempo recorde, e as companhias aéreas, prontas a receber o Estado como sócio, medida sensata em meio ao caos econômico.

O problema é que a fila do gargarejo, a janelinha pela qual entra o dinheiro lançado por Guedes, não comporta muita gente, segundo os critérios oficiais. Está fechada para as pequenas e médias empresas, por exemplo. Sem acesso a crédito, sem perspectiva de apoio público e sem um horizonte, elas são obrigadas a dividir os assentos da classe econômica com informais e vulneráveis. Uma intervenção estatal a favor dessa turma, diria Guedes, seria um mau sinal, podem achar que a vida está boa, ficar oito anos sem produzir. Um prêmio à ineficiência, uso indevido do dinheiro público. Não podemos permitir. O Brasil não é comunista, não vai virar a Venezuela. Ou vai?

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É diretor-executivo de CartaCapital.

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