Milton Rondó: Se a juventude soubesse

Como sempre, a História nos ensina (razão pela qual o desgoverno Temer buscou suprimi-la dos currículos escolares)

Milton Rondó: Se a juventude soubesse

Opinião

Os franceses têm bons ditados. Um deles é: “Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse”.

Denota complementariedade entre as gerações, exortando ao ideal de uma juventude sábia e de uma idade avançada em que a vitalidade não tem de ser menor.

Pensando nos ataques que sofre a universidade, atualmente, no Brasil, o dito torna-se bastante esclarecedor: o mau não pode conviver com a potência de universitários e universitárias cultos e sábios. Seria a perdição dele.

De fato, quando olhamos os países mais desenvolvidos, vemos uma correlação direta entre universidades e desenvolvimento socioeconômico, assim como científico, técnico e tecnológico.

A Universidade de Bolonha, com mais de 500 anos, fica na capital da uma das regiões mais ricas da Itália e de toda a Europa, a Emília-Romanha.

A Universidade Laval, em Quebec, está na Capital da Província mais afluente do Canadá; data de 1776 e é a mais antiga da América do Norte. Não seria coincidência Quebec ser também a província com a melhor qualidade de vida de todo o subcontinente norte-americano.

A Universidade Estatal da Rússia, em Moscou, foi criada em 1755. Atualmente, a Rússia está à frente dos Estados Unidos da América no desenvolvimento da tecnologia militar, que, historicamente, têm liderado as inovações tecnológicas, principalmente nos EUA.

Sobre a Rússia, acabo de ler o excelente livro “Os Russos”, do professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, Angelo Segrillo (Editora Contexto).

O livro traça um belíssimo percurso histórico daquele que é o maior país do mundo – em extensão, no qual convivem mais de uma centena de nacionalidades.

Como sempre, a História nos ensina (razão pela qual o desgoverno Temer buscou suprimi-la dos currículos escolares).

Neste momento dramático de destruição veloz do país, vale lembrar uma das lições históricas relatadas naquele livro e à qual deveríamos devotar grande atenção: “Nos anos 1930, a Grande Depressão nos países capitalistas lado a lado com o enorme crescimento da URSS socialista pareciam confirmar as previsões de Marx sobre a crise final do capitalismo. Pouco antes da manifestação da crise, Stalin ordenou uma mudança estratégica no Komintern (a organização internacional que reunia os partidos comunistas do mundo inteiro). No VI Congresso do Komintern em 1928, foi solidificada a ideia de que o capitalismo estaria em descenso e que nesta fase de ofensiva do socialismo, os últimos e mais difíceis inimigos a serem derrotados para a vitória final dos comunistas eram os sociais-democratas. Pois com suas concessões redistributivas de renda à classe trabalhadora, eles a cooptavam e a mantinham numa mentalidade meramente sindicalista e não revolucionária (ou seja, apenas voltada para lutas por melhores salários e não pela derrubada do capitalismo)… Por essa decisão do Komintern, a partir de 1928, os comunistas deixaram de cooperar formalmente com os sociais-democratas. Segundo alguns autores, essa divisão na esquerda facilitou o crescimento da extrema-direita nazista. Após a chegada ao poder de Hitler na Alemanha em 1933, Stalin, verificando que ele não era apenas mais um bufão extremista, mudaria de tática. O VII Congresso do Komintern, em 1935, adotaria a estratégia das frentes populares, em que uma frente composta de comunistas, sociais-democratas e outras forças progressistas lutaria contra os elementos fascistas e direitistas”.

Essa é uma lembrança importante de que não se derrota o fascismo em isolamento. Contra a desunião que ele representa, só o antídoto da união. Contra o diabólico (o que divide, a legião), o símbolo (o que une, reúne).

Auspiciosa, nesse contexto, a reunião que se realizou na semana passada, em São Paulo, com o lema “Direitos já, fórum pela democracia”. Dela participaram representantes do PT, do PSDB, do PSOL, do PCdoB e do PDT, além de representações da OAB, da UNE e do movimento negro, para a articulação de consensos mínimos, em torno de alguns temas, entre os quais a política externa.

Com efeito, faz-se urgente buscar atenção para a importância das relações exteriores, cujas escolhas são determinantes para todos os campos da vida nacional.

Muito pertinente, nesse sentido, também a descrição do Professor Segrillo sobre a organização político-institucional da Rússia: “O presidente é responsável pelas relações exteriores e pelas forças armadas (a segurança do país) e o primeiro-ministro é responsável pelas políticas internas (economia, administração burocrática etc).”

Como mencionado em outro artigo, em 1/4 dos países (em torno de 24) o cargo de vice-chefe de estado ou de governo (no parlamentarismo) acumula automaticamente a competência das relações exteriores. Portanto, na Rússia, as relações internacionais foram elevadas a um nível ainda mais alto, ao cargo supremo da nação, não parecendo ser coincidência o fato do país ter alcançado o status de superpotência.

Em contraponto, quando ainda era aluno do Instituto Rio Branco, nos anos finais da ditadura, pesquisei os programas dos partidos políticos então existentes (creio que sete) e me deparei com o fato de que a política externa era invariavelmente tratada nos últimos parágrafos de todos eles (muitas vezes apenas no último), inclusive no do PT.

A quem isso interessa? Certamente, não aos brasileiros e às brasileiras, muito menos aos demais países em desenvolvimento, que anteriormente viam no Brasil um verdadeiro farol de esperança, a junção do saber e do poder.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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