Claudia Wanderley

Pesquisadora permanente do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Opinião

Memória, verdade, justiça e reparação para o Brasil

O ano de 1964 bate à nossa porta em 2024 – inclusive, é um ano de eleição, e temos muito para tratar em público, em alto e bom som

Manifestantes em ato 'Ditadura Nunca Mais', em São Paulo, no dia 6 de agosto de 2019. Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas
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“Bandeira Branca, Amor
Não Posso Mais
Pela Saudade Que Me Invade Eu Peço Paz
Saudade Mal De Amor,
De Amor Saudade Dor Que Dói Demais
Vem Meu Amor
Bandeira Branca Eu Peço Paz”

Compositores: Max Nunes / Laércio Alves (1970)

Minha mãe adorava essa música, que cantava em casa a plenos pulmões. Tínhamos também em casa – desde que me lembro – um anjo grande de madeira pendurado na parede, de um artesão que ela achou em Fortaleza, fazendo o sinal de silêncio. A combinação do som de minha mãe cantando “bandeira branca” com  o anjo cearense pedindo silêncio sempre me chamou a atenção. 

O tempo, que nos conta qual é nossa origem e nos aponta para nosso futuro, por vezes nos chama a resolver questões com as quais tínhamos aprendido a conviver, mas não nos fazem bem. Em algum momento precisamos retomar e prosperar na vida familiar e na vida pública. E muita gente deixou de se dispor a frequentar o debate público sobre/no nosso país, e considerar o que podemos almejar juntos, por causa das brigas e violências ligadas a certos temas. Infelizmente, há o hábito da agressão, às vezes ameaças inclusive, às vezes vemos até assassinatos, e com o tempo, percebemos que há questões que vão sendo interditadas de serem debatidas, questões muito brasileiras, muito íntimas de todos nós, muito próximas de muita gente boa, para quem escrevo hoje chamando para o diálogo.

Recém passadas as festas de final de ano, estamos com os encontros (muitas vezes os não encontros) familiares na flor da memória. Os parentes que desapareceram no período do regime militar, que não sabemos onde estão, a dificuldade de conviver com a dor de familiares que foram torturados, de familiares que foram assassinados, de ter tido nossos filhos ou irmãos sequestrados, de não saber o que se passou ou onde estão. Esta dor que não ressoa na esfera pública, porque não encaminhamos essas questões devidamente até aqui, precisa de um lugar para se expressar. Precisa de informações adequadas também. E precisa de uma política pública, por uma questão simples de saúde mental coletiva, para não apontar mais uma vez apenas para o âmbito da justiça, sempre inegociável, porque, sim, queremos justiça e reparação.

Em 2024, lamentamos os 60 anos do golpe militar, que instalou no Brasil um regime autoritário, a ditadura militar brasileira, que vigorou de 1964 até 1985. Fazendo um cálculo simples, se você nasceu depois de 1985 (ou seja, está com menos de 39 anos – que é o maior contingente da população brasileira hoje), é preciso que essa informação – de que nós no Brasil já passamos por um regime autoritário – chegue até você. Poderia chegar por livros didáticos, por museus, para não esquecermos e aprendermos com os erros, por livros de relatos explicitando o horror que foi viver sob a repressão do Estado, convivendo com censura, tortura, sequestros, crimes contra a liberdade de expressão, crimes contra a humanidade, etc.  

O Instituto Vladimir Herzog lançou, em dezembro, o novo portal Memórias da Ditadura, com o propósito de “divulgar a História do Brasil no período de 1964 a 1985 junto ao grande público, em especial à população jovem”. É uma iniciativa muito importante para podermos conversar entre gerações sobre nossa própria história e, possivelmente também, sobre as questões que esta geração herda desse período e sobre as quais precisa, portanto, estar a par. O fato de termos um Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que inclui as questões de memória, verdade, justiça e reparação, é uma ótima notícia de 2023. 

Creio que não devemos deixar para o governo a tarefa de discutirmos o que nos cabe debater. A sociedade civil precisa se dispor à vida pública novamente. Quem tem mais de 50 anos, meus caros amigos, se pode fazer um debate, uma roda de conversa, um livro, um artigo, um podcast, um video no youtube, uma música, uma peça de teatro, um documentário sobre o golpe militar de 1964 e o que foi viver em um regime autoritário no país, mãos à obra! Se você já tem isso pronto e está engavetado, empoeirado, vamos lá resgatar esse seu projeto e trazer luz para esse período. Precisamos pautar o que a lei da anistia e o medo do retorno do regime autoritário não nos deixaram repercutir nos anos 80: o que aconteceu de fato. Quando uma geração não lida com seus traumas, eles são passados para a próxima geração, então, precisamos nos organizar para resolver nossas questões.

O receio de falar das questões importantes para nós, por causa do perfil autoritário introjetado na esfera pública e das possíveis retaliações, que imaginamos que podem ocorrer conosco, nos impede muitas vezes de ter acesso a informações de qualidade. Porque quem poderia contribuir para a construção dessa memória viva talvez não se sinta em condições de segurança (seja psicológica, seja objetiva) para apresentar os fatos como deveria, considerando o bem comum e nosso envolvimento saudável com a vida brasileira. A Unesco, hoje, trata a questão do acesso à informação como um bem público. Ter acesso à informação diversa, plural e de qualidade traz melhorias em vários âmbitos da vida em sociedade, e é um fator determinante para a vida democrática.

Em nosso trabalho no Observatório da Desinformação, eu trouxe a hipótese de que muito da desinformação que sofremos no Brasil tem a ver com os constrangimentos e as censuras que passamos, ou nossos pais e avós passaram, durante os 21 anos do período autoritário. E essa sombra vai nos habituando a saber o que está acontecendo pelos parentes, pelos vizinhos, a desconfiar dos jornais, a desconfiar dos cientistas, a desconfiar de qualquer autoridade. Essa sombra abre um espaço imenso para teorias da conspiração das mais variadas. Essa sombra nos habitua também a pensar que a esfera pública é um lugar onde não devemos pautar ou reivindicar nada e, portanto, não gostamos de política. 

Consequentemente, quando é possível fazer isso, por uma questão de hábito histórico não o fazemos. Isso faz com que nossa cena pública brasileira não tenha a contribuição massiva dos atores que poderiam estar nela. E nós, cidadãos, ficamos à deriva e contamos com poucas iniciativas consolidadas, como o trabalho maravilhoso do Instituto Herzog, por exemplo. Neste quadro de ausência de vozes envolvidas com o que se passou, as dinâmicas de desinformação têm condições muito propícias para florescer, como infelizmente vimos acontecer também durante a pandemia.

Depois de uma pandemia, que no caso do Brasil chegou aos números de um genocídio, muitos de nós se recolheram por diferentes motivos. A dificuldade de ter parentes que morreram por covid porque alguém querido disse para não se vacinar, a dificuldade de lidar com parentes que negaram a pandemia e infectaram nossos pais, avós, tios mais velhos em visitas cordiais. Inclusive a dificuldade da desinformação promovendo ódio entre os nossos. 

Espero que haja espaço e disposição para que os fatos, as responsabilidades, os erros, os acertos surjam e sejam elaborados coletivamente de maneira cada vez mais ampla no país. Ou seja, fatos apresentados e considerados publicamente, assim como resoluções encaminhadas politicamente para a melhoria de nossa qualidade de vida como um coletivo. 

Trato aqui de uma condição atual de nossa sociedade, no Brasil, que nos afeta a todos: não é fácil viver em um lugar em que o diálogo necessário é interditado, quando a gente precisaria falar e resolver tantas coisas juntos, para poder seguir adiante e em paz. O ano de 1964 bate à nossa porta em 2024 – inclusive, é um ano de eleição, e temos muito para tratar em público, em alto e bom som.

Este texto, meus caros, é um pedido, é uma convocação, é uma proposição para dialogarmos e nos inteirarmos do que de fato ocorreu e do que ocorre com nossas famílias, com nossos bairros, com nossas cidades, com nosso país, conosco mesmo.  Seja lá para onde formos, é preciso que façamos isso de forma consciente, e não simplesmente reagindo a provocações e a notícias falsas, ou fugindo da verdade. Vamos somar forças, vamos falar o que sabemos honestamente. O instrumental para este diálogo é o kit filosófico mais antigo e simples: saber dos fatos e, considerando os fatos, elaborar melhor quem somos, onde estamos, para onde vamos aqui no Brasil, com uma ideia inclusiva de bem comum como nossa bússola. 

A bandeira branca pede por tempos de paz, e nós também. Não queremos comprar briga, queremos desfilar no carnaval, queremos alegria. Queremos desfilar bem na nossa vida também, e para isso é preciso saber dos fatos. Memória, Verdade, Justiça e Reparação pedem passagem. Vem com a gente.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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