Lélia Gonzalez e o “cancelamento” de mulheres negras

'É preciso interrogar os motivos que fazem com que, ao menor sinal de 'erro', mulheres negras sejam julgadas nos tribunais da internet'

Créditos: Reprodução

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Opinião

Embora muitos defendam que o Twitter é a melhor rede social, não gosto muito. Não consigo lidar com a ideia de um “texto”, uma informação se limitar a 280 caracteres. Mantenho uma conta para, vez por outra, “espiar” o que pessoas que respeito e admiro andam falando.

Foi no Twitter que tomei conhecimento da discussão envolvendo a filósofa Djamila Ribeiro e a ativista Letícia Parks. Há dias é um dos assuntos mais comentados na internet. Ganhou a imprensa escrita e televisiva. Virou caso de polícia. Djamila foi “cancelada”. Enquanto mulher negra, limito-me a dizer que lamento profundamente. Por tudo. Todas nós perdemos com isso.

O episódio motivou a escrita desse texto, mas as palavras a seguir não se limitam a ele. Longe disso. Interessa-me compreender a “cultura do cancelamento” de mulheres negras, cada vez mais recorrente nos espaços virtuais. Muitas vezes, mais do que falar, é preciso silenciar, ouvir, compreender de forma mais ampla o cerne das questões.

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Para tal intento, recorri ao pensamento de Lélia Gonzalez, uma das intelectuais mais importantes que esse país já teve. “Nossos passos vêm de longe”, já disse Jurema Werneck. No Youtube, deparei-me com uma entrevista concedida por Lélia à jornalista Mali Garcia na década de 1980. Era o que eu precisava. Nela, encontrei respostas para minhas dúvidas e anseios.

No vídeo de dez minutos, Lélia Gonzalez lembra que no final dos anos de 1970, quando ainda não se usava esse termo, Zezé Motta foi “cancelada” pelo Movimento Negro após protagonizar “Xica da Silva”, filme do cineasta Cacá Diegues. Sob a atriz, pesou a acusação de “trair” a causa negra ao interpretar a ex-escravizada construída sob a ótica de Diegues. No filme, Xica é retratada de maneira extremamente racista, estereotipada, sexualizada, animalizada, destoando completamente da verdadeira história de vida de Francisca da Silva de Oliveira, conforme apontou a historiadora Júnia Ferreira Furtado.

Lélia caminhou na direção contrária. Ao invés de execrar Zezé Motta pelo papel, saiu em defesa da atriz: “É uma autocrítica muito grande que o Movimento Negro precisa fazer. Não era a Zezé Motta a responsável pela imagem do filme, mas o diretor. A partir daí, eu me solidarizei com ela. Saí em defesa da Zezé. Toda crítica que o Movimento Negro fez em relação ao filme, jogou em cima da [Zezé]. É uma das grandes contradições que nós temos. De repente, não vemos onde está o inimigo. A gente fica achando que é um companheiro ou uma companheira que está em uma determinada situação e a gente acha que é o culpado. E é por isso mesmo que eu me solidarizei à Zezé”.

Segundo Lélia Gonzalez, após o lançamento do filme, Zezé Motta foi relegada ao ostracismo. Por muito tempo, era convidada para interpretar somente papéis secundários, como os de empregadas domésticas e escravizadas. Em 2018, Cacá Diegues foi eleito imortal pela Academia Brasileira de Letras, numa disputa que teve a escritora Conceição Evaristo como candidata.

Essa é a grande questão. Temos tido a capacidade de enxergar os nossos verdadeiros inimigos ou reproduzimos as mesmas injustiças que recaíram sobre os ombros da Zezé Motta há quarenta anos? Chama-me atenção o fato de artistas, ativistas, youtubers, influenciadores digitais brancos não receberem as mesmas cobranças que são dirigidas às mulheres negras.

Mulheres brancas não são questionadas por estampar companhas de moda de empresas condenadas por trabalhos análogos à escravidão. Apresentadores brancos não são “cancelados” por apoiar políticas econômicas que roubam direitos e precarizam a vida da população preta e pobre. Apresentadoras brancas não são interpeladas quando cometem a imoralidade de dizer que o “lado bom da pandemia” é descobrir que sabem lavar louça e arrumar a própria cama.

Críticas fazem parte da nossa existência. Costumam ser recorrentes quando se ocupa um lugar de destaque, evidência. Quando feitas de maneira respeitosa, são bem-vindas, pois nos dão a oportunidade de refletir, mudar de rota quando necessário. Contudo, é preciso interrogar os motivos que fazem com que, ao menor sinal de “erro”, as mulheres negras sejam duramente julgadas nos tribunais da internet, “canceladas”.

Vivemos num período em que, como bem lembrou a saudosa médica psiquiatra Neusa Santos Souza, os negros tomam a palavra. Há muitos anos faço da leitura dos principais jornais do país o meu desjejum. Não me lembro de encontrar tantas vozes negras protagonizando entrevistas, contando suas histórias. Os olhares das editoras estão voltados para escritores e escritoras negras. Não há debate sobre feminismo que não passe pela voz das mulheres negras. É um caminho sem volta. Por outro lado, os números relativos à educação, ao emprego e à saúde evidenciam que um verdadeiro apartheid separa brancos e negros no Brasil.

Na pandemia da covid19, são os negros que estão morrendo “feito baratas”. De acordo com pesquisadoras da Unicamp e da Unesp, mortes provocadas pelo novo coronavírus são o dobro entre as mulheres grávidas pretas se comparado com as brancas. Diante desses dados, cabe perguntar mais uma vez: quem são nossos verdadeiros inimigos?

Na semana passada, a Zahar anunciou que em breve publicará “Por um Feminismo Afro-Latino-Americano”, coletânea que reunirá toda obra de Lélia Gonzalez. Será a primeira vez que Lélia terá seu nome estampado em uma grande editora. Com isso, ganharemos a oportunidade de acessar todo o pensamento da intelectual afro-mineira. Precisamos aprender com as mais velhas. Nesse momento em que o “cancelamento” de mulheres negras impera, ler, aprender com Lélia é urgente e necessário. Ela nos ajuda a entender de uma vez por todas quem são os nossos verdadeiros inimigos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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