Girar a economia sem um plano bem-estruturado de reabertura pode ser o prenúncio de um desastre

Sem uma vacina eficaz, a infecção parece inevitável. Não precisamos todos ficar contaminados no mesmo dia

O lockdown foi adotado no estado do Pará, para reduzir a disseminação do novo coronavírus. Foto: Marcelo Seabra/Agência Pará

O lockdown foi adotado no estado do Pará, para reduzir a disseminação do novo coronavírus. Foto: Marcelo Seabra/Agência Pará

Opinião

Parece que logo estaremos de volta ao trabalho. Nos locais originais. Boa notícia potencial para a economia, mas com riscos reais. Não tenho certeza se esses riscos foram colocados honestamente na equação pelas autoridades federais, estaduais ou municipais. Os médicos ficam pensando: como, com a curva de mortalidade diária pela covid-19 ainda em franca ascensão e nenhum tratamento milagroso ou preventivo eficaz, alguém nas esferas do governo estaria advogando o relaxamento do isolamento social. Pior, sem apresentar um plano com critérios de implementação que se baseie em um mínimo de evidências científicas.

Que a roda da economia precisa voltar a girar, isso é do conhecimento tanto do mundo mineral quanto dos botões perplexos de Mino Carta. Mas começar a girar a economia sem um plano bem-estruturado pode ser o prenúncio de um desastre. E não precisa ser assim. Hoje, após alguns meses de coronavírus, sabemos um pouco mais a respeito da covid-19. E alguns conhecimentos observados pelos cientistas podem nos orientar, em nosso ambiente de trabalho, sobre como agir para reduzir os riscos de funcionários ou executivos serem infectados.

Como somos infectados? Bastaria um número mínimo (geralmente ao redor de mil a 2 mil) de partículas virais inaladas via nariz ou boca, ou esfregadas nos olhos, para começar a infecção. Isso, claramente, é relacionado à carga viral total. Você pode receber essa carga de uma só vez de alguém que venha a tossir no seu rosto, ou em doses pequenas repetidas durante o dia, por exemplo, de um teclado de computador ou maçaneta contaminados. Somente por curiosidade, estima-se que em um espirro, ou tossida, de um infectado libere no ambiente ao redor de 200 milhões de partículas. Muitas ficam dispersas no ar, “viajando” no escritório ou na fábrica. Veja, então, como é fácil se contaminar.

Espirrar, tossir e até falar alto foram confirmados como fontes intensas de minúsculas gotas de secreção, potencialmente carregadas de vírus, a se espalhar pelo ar. A maioria dessas gotículas cai rapidamente no solo, mas algumas delas ficam suspensas no ar.

Espantosamente, estudos mostram que essas poucas gotículas podem persistir no ambiente por minutos e até horas. A depender do fluxo de ar no local, elas podem ser deslocadas para qualquer canto do ambiente em que se está. No restaurante. No bar. Na academia. No salão de beleza… Manter uma boa ventilação e as janelas abertas ajuda a reduzir tais riscos. Está confirmado que trabalhar em um local fechado, compartilhando mesas, maçanetas, botões e, principalmente, ar por períodos prolongados, aumenta os riscos de exposição e infecção.

Portanto, quando for tomada a decisão de relaxamento do isolamento social, os departamentos de recursos humanos de empresas, fábricas e escritórios devem avaliar detalhadamente o local de trabalho de funcionários e colaboradores, antes de abrir as portas. O número de pessoas, o tempo que cada um ficará fechado nesse ambiente, a distância entre elas e o fluxo do ar ou ventilação. E lembrar das medidas óbvias independentemente do isolamento: máscaras faciais sempre, higienização frequente das mãos com água e sabão ou álcool gel, e não tocar o rosto.

Sem uma vacina eficaz, a infecção parece inevitável. Não precisamos todos ficar contaminados no mesmo dia. Achatar a curva de novos infectados não cura a pandemia. Apenas a torna suportável no nível da assistência médica. E, se muitos forem infectados após o relaxamento e tiverem de ser afastados do trabalho, não sei quem vai sobrar para girar a roda da economia. Nem quem sairia para fazer as compras ou jantar nos restaurantes. Nem quem cuidará dos pacientes, pois médicos e enfermeiros também se infectam.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médico, diretor do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e professor da Faculdade de Medicina da USP.

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