Um mês de CPI da Covid: investigação indica aposta na imunidade de rebanho

As evidências apontam para uma política deliberada de exposição da população ao vírus e sistemática recusa na aquisição de vacinas

O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Frente Ampla

A CPI da Covid completa um mês de trabalhos reunindo informações e documentos importantes sobre a estratégia adotada pelo governo federal para o enfrentamento da crise sanitária desencadeada pelo novo coronavírus. Indícios apontam a aposta na imunidade coletiva, por meio da exposição em massa da população ao vírus, e com uso de um kit de medicamentos sem nenhuma eficácia comprovada contra a Covid-19.

O desconhecimento inicial acerca da doença foi um desafio para a medicina, obrigada a definir de uma hora para a outra protocolos clínicos e abordagem farmacológica para o tratamento dos infectados. A experiência adquirida com enfermidades semelhantes forneceu uma alternativa seminal, e o uso de alguns medicamentos, como a cloroquina e derivados, chegou a ser utilizada no tratamento dos enfermos. Sua ineficácia, entretanto, ficou comprovada.

Diferentes estudos internacionais atualmente demonstram que seu uso não ajuda a impedir o desenvolvimento de formas graves da doença, podendo inclusive produzir efeitos colaterais graves nas pessoas em que for administrada. A própria OMS condena sua prescrição, recomendando que seja abolida no tratamento da Covid-19.

Versões conflitantes nos depoimentos sugerem que alguém faltou com a verdade – ou todos

Embora todas as evidências apontem para a ineficácia do chamado “tratamento precoce”, este parece ter sido a aposta do governo federal para controlar a pandemia do novo coronavírus no Brasil. Diferentes fatos ajudam a consolidar essa impressão, desde a ostensiva publicidade do medicamento feita por autoridades do país à onipresença do fármaco nas prescrições fornecidas pelo TrateCov, aplicativo criado e disponibilizado pelo Ministério da Saúde para auxiliar no diagnóstico e tratamento da Covid-19. 

Isto fica patente nas respostas evasivas fornecidas por autoridades já ouvidas na CPI, especialmente aquelas do Ministério da Saúde. A insistência no tratamento precoce em detrimento da aquisição de vacinas e demais insumos para controle da crise sanitária – como oxigênio suplementar para evitar o colapso ocorrido em Manaus, por exemplo – deu a tônica da participação de autoridades da pasta, sem falar na suspeita da existência de uma estrutura paralela de aconselhamento e implementação de políticas para enfrentamento da pandemia. 

O comportamento dessas autoridades na CPI da Covid inclusive ensejou a reconvocação dos ex-ministros Marcelo Queiroga e Eduardo Pazuello para que deponham novamente sobre o trabalho desenvolvido pelo Ministério da Saúde. Versões conflitantes nos depoimentos sugerem que alguém faltou com a verdade – ou todos. Assim, novas oitivas se fazem necessárias.

A questão dos imunizantes contra o novo coronavírus também começa a se desenhar com o andamento das investigações. O Brasil poderia ter iniciado a vacinação em massa da população ainda em dezembro de 2020 caso tivesse respondido às múltiplas ofertas de vacinas oferecidas por diferentes laboratórios. Pfizer e Butantan tinham condições de fazer as primeiras entregas caso as tratativas para aquisição das vacinas tivessem avançado desde os primeiros contatos feitos com o governo federal. O quantitativo poderia ultrapassar as 60 milhões de doses.

Para as próximas semanas estão previstos depoimentos da comunidade científica, momento importante para aprofundarmos as discussões sobre protocolos clínicos e abordagem terapêuticas, além de medidas sanitárias para contenção do espalhamento do novo coronavírus. Também foram aprovados requerimentos para o comparecimento de governadores.

A CPI da Covid adentra o segundo mês de trabalhos munida de informações e dados importantes sobre a resposta brasileira à crise sanitária. As evidências apontam para uma política deliberada de exposição da população ao vírus e sistemática recusa na aquisição de vacinas. Continuam as investigações em busca de repostas que expliquem o genocídio do povo brasileiro.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

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