CPI da Covid: jogando luz nas sombras

A existência de um gabinete das sombras ganha força e a CPI aprofunda investigações nessa direção

O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

O vice-presidente da CPI da Covid, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Frente Ampla

A CPI da Covid segue acumulando evidências sobre a estratégia adotada pelo governo federal de exposição deliberada da população brasileira ao novo coronavírus, apostando em um kit de medicamentos cientificamente ineficazes contra a Covid-19 e postergando a aquisição de diferentes vacinas que poderiam ter começado a ser aplicadas ainda em 2020. Para termos noção da gravidade, basta pensarmos que ano passado foram 194.949 vidas perdidas para o coronavírus. Neste junho de 2021, as previsões são de ultrapassarmos as 500.000 mortes.

A insistência no inócuo “tratamento precoce” e a relutância na aquisição de vacinas mais uma vez ficaram evidentes no depoimento de integrantes do governo federal colhidos nesta semana. Na terça, a nova oitiva com Marcelo Queiroga, ministro da saúde; quarta, o ex-secretário executivo da pasta na gestão Pazuello, Élcio Franco.

Em ambas ocasiões, repetiram a cantilena de atendimento precoce dos contaminados e viabilidade técnica das vacinas, em um duplo negacionismo difícil de compreender. Afinal, a ciência já demonstrou a eficácia dos imunizantes bem como a inutilidade do “kit-covid”.

Também ficou demonstrada a pouca ou nenhuma autonomia do Ministério da Saúde no enfrentamento à pandemia, além de baixa efetividade das ações empreendidas pela pasta. A existência de um gabinete das sombras para aconselhamento e formulação de políticas de combate ao coronavírus ganha força e a CPI aprofunda as investigações nessa direção. Aliás, a novidade da semana foi a determinação do presidente ao ministro da saúde para elaborar um parecer para desobrigar o uso de máscaras por pessoas imunizadas ou que já tenham sido infectadas. É o chefe da estrutura paralela em plena ação e haja sapo para o ministro engolir.

Requerimentos para quebra de sigilos telefônicos e telemáticos foram aprovados, atingindo diferentes autoridades do governo federal. Queremos saber o papel desempenhado por cada um no enfrentamento à pandemia, seu grau de influência na tomada de decisões e de onde surgiram as diretrizes adotadas. As quebras alcançam nomes como o de Ernesto Araújo, ex-ministro das relações exteriores, e Eduardo Pazuello, que foi titular do Ministério da Saúde. Figuras proeminentes do governo, como Filipe Martins e Mayra Pinheiro, também compõem a lista.

Duas quebras atingem pessoas que não possuem cargo no governo, mas parecem ocupar lugar especial na condução da pandemia: o empresário Carlos Wizard e o virologista Paolo Zanotto, suspeitos de integrarem “um gabinete paralelo” de onde emanam as ações de enfrentamento à pandemia. Laboratórios farmacêuticos e empresas de publicidade compõem o resto da lista de sigilos quebrados, ao lado de outras autoridades governamentais.

A ciência e o conhecimento sistematizado sobre o novo coronavírus também tiveram destaque na semana da CPI da Covid, com o depoimento da microbiologista Natália Pasternak, pesquisadora da USP, e do médico sanitarista Cláudio Maierovitch, ex-presidente da Anvisa e Fiocruz. Em mais de 8 horas de depoimentos, abordaram diferentes aspectos da pandemia para trazer um panorama expandido de suas consequências, não limitando-se à esfera da saúde pública, mas sim os impactos globais do coronavírus na sociedade.

 

Munidos dos estudos mais recentes sobre a pandemia e suas consequências no Brasil, desmontaram a falácia do tratamento precoce e reafirmaram a importância de medidas simples de controle como o isolamento social, o uso de máscaras e higiene sistemática das mãos. Ficamos sabendo, por exemplo, que 3 em cada 4 mortes poderiam ter sido evitadas caso o governo federal tivesse uma postura mais assertiva em relação à ciência. O negacionismo mata!

As novas informações que virão com as quebras de sigilos e a compilação dos estudos científicos apresentados à comissão ajudarão a delimitar atitudes e identificar responsabilidades que propiciaram o descontrole com que o novo coronavírus se espalhou pelo Brasil.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É senador pela Rede/AP, professor, graduado em História, bacharel em Direito e mestre em Políticas Públicas.

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