Frente Ampla

A luta das mulheres afegãs é internacional

Infelizmente, a derrota dos Estados Unidos não garante uma perspectiva democrática para o povo afegão, em especial para as mulheres

Manifestação em apoio às mulheres e meninas afegãs, em Barcelona. A UE, os EUA e 19 outros países emitiram declaração conjunta dizendo que estão
Manifestação em apoio às mulheres e meninas afegãs, em Barcelona. A UE, os EUA e 19 outros países emitiram declaração conjunta dizendo que estão "profundamente preocupados com as mulheres e meninas afegãs" (Foto: LLUIS GENE / AFP)

No governo talibã de 1996 a 2001, ano em que se deu a invasão norte-americana, o fundamentalismo religioso era extremamente radical, sobretudo para as mulheres. Elas foram proibidas de trabalhar, de estudar e forçadas a casar a partir dos 15 anos.

Em nome de um estado teocrático radical, as mulheres passaram a ser subordinadas e oprimidas a uma suposta autoridade dos homens. Essa situação ameaça voltar agora, apesar das mudanças havidas no movimento Taleban.

Infelizmente, a derrota dos Estados Unidos não garante uma perspectiva democrática para o povo afegão, em especial para as mulheres.

O restabelecimento do governo teocrático dos talibãs está preocupando tanto o mundo progressista e mobiliza as mulheres que lutam por seus direitos e contra o machismo.

A defesa dos direitos humanos e da libertação das mulheres são causas universais e, no Brasil, se apresentam como uma desesperada luta contra a barbárie bolsonarista.

Mas não podemos glamourizar a ocupação norte-americana, que produziu mais de 180 mil mortos e 11 milhões de refugiados.

Apesar de usar a defesa da democracia, dos direitos humanos e das mulheres como justificativa para invadir o Afeganistão, o governo dos EUA estava mais interessado na sua estratégica localização no coração da Ásia Central do que na mudança da vida do povo.

Em vinte anos de ocupação, a situação social piorou e a condição da mulher pouco mudou. Antes da guerra, o país tinha 38,3% de sua população vivendo na pobreza, índice que pulou para 70% durante a ocupação.

Em relação ao novo governo, não há outro caminho a não ser condicionar o seu reconhecimento internacional ao respeito dos direitos humanos e das mulheres.

Corajosamente, as afegãs vêm se manifestando em defesa de seu direito ao trabalho e ao estudo.

A comunidade internacional deve apoiar esse movimento das mulheres afegãs e exigir do vitorioso governo Taleban o respeito ao direito das mulheres de estudar, de trabalhar e de não ser obrigada a casar contra a sua vontade, mesmo sem precisar negar seus princípios religiosos. Isso já ocorre, por exemplo, no Irã, onde é grande o contingente de mulheres estudando e trabalhando.

 

As mulheres brasileiras que lutam por seus direitos entendem perfeitamente o drama das afegãs, pois também aqui enfrentamos um tipo de “talebanismo”, o bolsonarista, que mistura fundamentalismo religioso e negação do Estado laico, da cultura, ciência e educação, com racismo e discriminação de minorias sexuais.

A luta contra a barbárie Taleban, no Afeganistão, não pode estar desligada da nossa luta contra a barbárie bolsonarista. Quanto mais avançarmos na defesa da democracia e contra o machismo, mais nosso País pode contribuir na ONU para uma integração minimamente civilizada do Afeganistão na ordem internacional.

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