Opinião

Existem dois centrões: o engravatado e o fardado. Qual é pior para o País?

A fome do centrão militar não é satisfeita apenas com cargos. Para ter o seu apoio, Bolsonaro precisa oferecer tudo do melhor

O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Carolina Antunes/PR
O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Carolina Antunes/PR

Existem dois centrões: o enfatiotado e o fardado. O primeiro é velho e seu nome é escrito com maiúscula na inicial. O segundo é novidade e não merece a distinção. São iguais no que interessa: formam a sustentação do governo do pior presidente de nossa história. Contra o espanto e apesar da rejeição da maioria do País, os dois centrões seguram Jair Bolsonaro no cargo. Sem eles, o ex-capitão teria ido para o espaço e o pesadelo bolsonarista seria passado.

O Centrão habita o prédio do Congresso Nacional. Seus integrantes são conhecidos, se apresentaram ao eleitorado e foram eleitos. São senadores e deputados cujos nomes estão nas portas dos gabinetes em que trabalham. Sabemos os partidos a que pertencem e os estados que representam. Quem quiser se aprofundar, rapidamente obtém informações a respeito de sua trajetória pessoal e profissional.

A fome do centrão fardado não é satisfeita apenas com milhares de cargos

O centrão com farda é opaco, não se conhecem os nomes de seus integrantes, suas origens e biografias, salvo da dúzia que chefia ministérios. Ninguém sabe quantos estão no governo, de onde vieram e como chegaram aos postos que ocupam. Na estimativa mais recente, passam de 6 mil, vindos do Exército, Marinha e Aeronáutica. Só no topo das 19 estatais vinculadas à União havia, em março, 93 cargos de comando preenchidos por militares. Hoje devem chegar a cem, enquanto, no fim do período de Temer, eram nove. O capitão levou sua galera para empregos de luxo na Petrobras, Casa da Moeda, nos Correios, no Serpro e na Infraero, entre outros lugares onde os indicados nem sempre precisam trabalhar.

O Centrão do Congresso teve diversas composições, mas, de Sarney ao ex-capitão, sempre apoiou quem estava na Presidência, em troca de verbas e nomeações. O preço variou em função do benefício que tinha a oferecer: presidentes fortes precisavam pouco de seus préstimos, fracos podiam estar desesperados e pagavam qualquer ágio. Como agora, quando Bolsonaro não tem opção e faz o que a turma quer.

A fome do centrão fardado não é satisfeita apenas com milhares de cargos. Para contar com seu apoio, Bolsonaro trata a pão de ló os militares. Para eles, tudo é melhor: salários, aposentadorias, programas habitacionais, verbas para treinamento e qualificação. Nenhum de seus velhos privilégios é questionado. Até disparates, como as tradicionais pensões vitalícias para as filhas de militares (independentemente da idade e que podem passar de 100 mil reais ao mês), permanecem praticamente inabalados.

Há, para o cidadão e contribuinte, alguma diferença entre o que Bolsonaro gasta de dinheiro público no pagamento do apoio de um ou outro centrão? Aquilo que aplica para obter o voto dos parlamentares do Centrão no que quiser e, muito especialmente, na rejeição do impeachment? O que destina para a remuneração de milhares de militares em cargos públicos, fora os parentes e agregados? Os benefícios que mantém ou inventa para os membros das Três Forças, em troca do que se permite tratá-las como “suas” e ameaçar usá-las contra a ordem jurídica e as instituições?

Qual dos dois centrões é mais nocivo? Qual o mais caro? Qual mais contribui para a desmoralização do Estado, dando às pessoas o sentimento de que objetivos e formas de atuação do Poder Público são compráveis? Qual centrão mais funciona na base do toma lá, dá cá? Qual mais avilta o conceito de interesse coletivo, gastando recursos que pertencem a todos para alcançar finalidades privadas? Ambos são corruptos? Não há prova cabal que sim, mas é certo que há suspeitas de corrupção de integrantes dos dois.

A existência do Centrão no Parlamento brasileiro é uma distorção que decorre dos problemas que existem em nosso sistema político. Pode demorar a ser consertada, através de mudanças na legislação eleitoral e partidária e nos regimentos das Casas do Congresso, mas não é inevitável.

O centrão fardado é um problema premente e mais grave. Ou a elite brasileira o enfrenta, sem medo de grunhidos e arreganhos, ou continuaremos reféns de personagens que pervertem a democracia, se escondendo atrás do respeito que as Forças Armadas tiveram um dia.

Publicado na edição nº 1166 de CartaCapital, em 15 de julho de 2021.

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