Economia brasileira não estava “decolando” antes do coronavírus

A eclosão da pandemia fez Paulo Guedes se desmentir outra vez apenas um mês depois de dizer que o pibinho de 1,1% em 2019 era 'esperado'

O ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Carl de Souza/AFP)

O ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: Carl de Souza/AFP)

Opinião

O roteiro é conhecido: 1) o ministro da Fazenda de plantão (Joaquim Levy, Henrique Meirelles ou Paulo Guedes) faz previsão otimista sobre o crescimento econômico brasileiro trazido pelas políticas de austeridade e “reformas” neoliberais; 2) erra as previsões; 3) culpa algum evento “exógeno” pelo erro das previsões; 4) refaz as mesmas promessas e previsões, apenas para errar de novo.

Paulo Guedes, contudo, inovou quando o pibinho de 2019 foi anunciado: simplesmente negou que tivesse previsto crescimento significativo, repreendendo seus assessores (como Mansueto de Almeida) que admitiram a frustração quando o crescimento de novo não veio depois da aprovação de mais uma reforma, desta vez a principal, ou seja, a da Previdência.

A eclosão da pandemia fez Paulo Guedes se desmentir outra vez apenas um mês depois de dizer que o pibinho de 1,1% em 2019 era “esperado”. Em videoconferência com empresários no início de abril, disse que a economia brasileira estava “decolando” antes da emergência de saúde pública. Qual Paulo Guedes estava certo? O do início de abril ou o do início de março?

Para responder, é bom lembrar que o PIB de 2019 já significou uma redução na taxa que já vinha baixa: o crescimento passou de 1,3% em 2017 e 2018 para 1,1%. O que é pior, uma das razões – talvez a principal – para não termos tido uma recessão em 2019 foi a retomada da construção civil a partir de segundo trimestre, puxada pela migração de recursos para os fundos imobiliários em razão da queda dos juros básicos.

O problema é que esta retomada já tinha acabado em 2019 mesmo, bem antes de a pandemia chegar por aqui. Em relação aos trimestres anteriores, a construção cresceu 2,4% no segundo trimestre e 1,6% no terceiro trimestre. No último trimestre de 2019, porém, o IBGE registrou queda de 2,5%, o que contribuiu para o pibinho de 2019.

Outros dados reforçam que o avião estava embicando antes da chegada da pandemia. Em fevereiro de 2020, o setor de serviços voltou a cair e registrou -1% em relação a janeiro. E o desemprego aumentou para 11,6% no trimestre (11,2% no trimestre anterior).

Pior, em fevereiro a taxa acumulada em 12 meses do crescimento do PIB estimado pelo Banco Central (o índice IBC-Br dessazonalizado) bateu em 0,7%, uma desaceleração nítida em relação a janeiro de 2019, o mês da posse de Bolsonaro (1,22%), reafirmando uma tendência de aterrisagem que vem desde a eleição de Bolsonaro.

Guedes não pode transferir esta culpa para a pandemia, pois o isolamento em São Paulo só começou no dia 24 de março. A austeridade fiscal, a contração e depois estagnação das exportações e o péssimo desempenho do mercado de trabalho são cargas pesadas demais para a decolagem prometida.

Se usarmos uma metáfora da aviação para descrever o desempenho da economia sob o comando de Paulo Guedes, é inevitável dizer que ela estava em processo de aterrisagem forçada. Se Guedes redobrar a aposta na austeridade e nas reformas depois da pandemia, é seguro que o avião vai permanecer no chão com a ave quebrada.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Professor da Unicamp. Foi professor visitante na UC Berkeley (EUA).

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