É preciso reconhecer que usamos a violência para educar crianças

Violência contra crianças é naturalizada e justificada por adultos que também foram alvos da violência que reproduzem em seus filhos.

Tambor onde criança foi encontrada acorrentada pelo pai em Campinas/SP.

Tambor onde criança foi encontrada acorrentada pelo pai em Campinas/SP.

Educação,Opinião

Adultos educados através da violência, tendem a reproduzir o ciclo. Diversas vezes ouvi pessoas dizendo com orgulho que foram surradas na infância, mas estão vivas, alegando debochadamente que surras não matam.  São muitos os memes nas redes sociais ironizando um assunto tão sério: A violência contra crianças.

Fico pensando nas sequelas emocionais que os saudosos das chineladas carregam, que possivelmente reproduzem o ciclo perverso e covarde sem se darem conta do prejuízo causado a suas psiques e consequentemente as pessoas que convivem.

Durante os 30 anos que atuei na educação, me deparei com histórias de crianças e jovens, vítimas de violência que pediram socorro e não foram ouvidas. Inúmeras vezes escutei dos adultos durante atendimento nas escolas frases como:

“Se não me obedecer leva uma surra.

Quando chegarmos em casa você me paga.

Na minha casa quem manda sou eu.

 Enquanto ele viver na minha casa tem que fazer o que eu disser.

 Quando seu pai souber ele vai te matar.

Na minha família todo mundo fala gritando.

 Eu já bati, mas não adiantou nada.

Se apanhar na rua, ao chegar em casa apanhará de novo.

Engole esse choro e não fala um A ”

Muitas vezes ouvi que educar através da violência era uma estratégia respaldada pela Bíblia Sagrada, pois há uma menção sobre ensinar crianças com a vara: “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela” ( Provérbios 22:15 ).

Adultos me contavam orgulhosos que possuíam galhos ou ripas de madeira com os nomes dos filhos, guardadas em um local de fácil alcance em obediência ao livro sagrado para os cristãos.

Dos relatos que trago na memória, um deles me marcou:

Era uma menina de 11 anos que não participava das brincadeiras. Estava sempre isolada, pouco falava e quase não sorria. Era inteligente e trazia uma tristeza no olhar, mas nunca sondei as raízes daquele comportamento.

Até que um dia durante a aula apresentei a turma a canção Leãozinho de Caetano Veloso. Ela chorou silenciosamente enquanto cantávamos e conversávamos sobre a letra. No final perguntei as razões das lágrimas e ela me disse: Meu pai gosta que eu o chame de Leãozinho, professora.

Não tive tempo para investigar, pois no dia seguinte a Diretora informou que o Conselho Tutelar havia retirado a menina da escola. O motivo foi a denúncia feita pela avó, que relatou os abusos sofridos pela neta. A avó soube pela menina que ela era obrigada a desfilar com roupas intimas para o pai e queria ajuda porque foi avisada por ele, que sua irmã estava crescendo e seria a próxima. A menina queria proteger a irmã de um pai que batia em todos na casa com frequência.

Eu não sei se a aula contribuiu para que ela buscasse ajuda. Gosto de pensar que sim, pois a avó me disse que foi procurada pela menina no mesmo dia da dinâmica com a música. Disse também que não entendia como o seu filho havia se transformado em um “monstro”. Repetia incessantemente que ela e o pai do abusador, batiam no filho enquanto pequeno quando fazia coisas erradas. Era para mim evidente o ciclo de violência se repetindo.

As crianças encontram linguagens para expressar que precisam de ajuda, assim como Henry, um menino de 4 anos que morava com sua mãe, Monique e o namorado dela, o vereador Jairinho, que ganhou repercussão apresentando um cenário de torturas físicas e psicológicas sistematicamente sofridas pelo menino, que culminaram em morte. Hoje sabemos que Henry pediu socorro. Chorava, vomitava e demonstrava o horror em que estava submetido, mas não foi ouvido de maneira que sua morte pudesse ser evitada.

Henry Borel ao lado da mãe, Monique. Créditos: Reprodução/Instagram

O Brasil é um pais que violenta crianças diariamente, a maioria delas negras, mas o agressor, abusador e infanticida é só o vizinho. Nunca nós ou as pessoas que compartilhamos os mesmos espaços. Nos comovemos e nos indignamos com notícias, a exemplo do ocorrido no caso de um menino de 11 anos, que vivia em cárcere privado e foi encontrado acorrentado, preso dentro de um tambor de tinta ou do ocorrido com Lucas, 8 anos, Alexandre, 10 e Fernando, 11 que estão há mais de quatro meses sem respostas. Os meninos desapareceram no dia 27 de dezembro.  Mas, será que reconhecemos que podemos ser cumplices ou reprodutores de violências?

O Anuário de Segurança Pública 2020 mostra dados assustadores sobre a violência contra crianças e adolescentes no Brasil. Somente no ano passado, o país teve ao menos 4.971 crianças e adolescentes mortos de forma violenta. Muitos desses casos acontecem no interior das famílias. O levantamento da Organização Nacional de Direitos Humanos permitiu identificar que a violência sexual acontece, em 73% dos casos, na casa da própria vítima ou do suspeito, mas é cometida por pai ou padrasto em 40% das denúncias. Dados terríveis que não revelam a totalidade, pois existe a cultura da subnotificação.

A menina que foi minha aluna me avisou enquanto ouvia a canção entre lágrimas e pediu socorro através do isolamento e tristeza demostrada diariamente. As vivencias que tive nas escolas, me fizeram entender e reconhecer que a cultura da educação violenta precisa mudar. Crianças são sujeitos que devem ser respeitados e protegidos, neste pais que segue violentando pessoas vulneráveis onde a dor das vítimas é atualmente resumida cinicamente em três silabas: mi mi mi, por quem se recusa ao olhar no espelho e ver possivelmente uma face criminosa.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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