Deseducação acima de tudo: a ideologia dos que não têm ideologia

Quem serão os reais ganhadores com o fim da educação superior pública? Quem lucrará com isto? Quem se beneficiará com este desmonte?

Deseducação acima de tudo: a ideologia dos que não têm ideologia

Educação,Opinião

“Em defesa da educação” estampava a faixa afixada na fachada da icônica sede da Universidade Federal do Paraná em Curitiba. Esta faixa, com uma mensagem apartidária em favor de uma causa que qualquer pessoa minimamente racional apoiaria, acabou se convertendo no símbolo das manifestações pró-governo, em defesa da confusa e ineficiente gestão de Bolsonaro, no último domingo, 26 de maio.

Em um vídeo que viralizou nas redes sociais, vemos um homem com a camisa da seleção brasileira, peça que vem simbolizando o patriotismo fajuto calcado num reacionarismo tupiniquim, dizendo o seguinte: “vamos retirar esta faixa, porque prédio público não pode ser utilizado de forma ideológica”, enquanto isto, vê-se atrás dele outros paramentados manifestantes bolsonaristas cumprindo o prometido.

Confesso que tive de me esforçar para encontrar o viés ideológico implícito nos dizeres “Em defesa da educação”. Como saber qual grupo político está por detrás disto? Quem se beneficiará com isto? A quem serve?

Mas o fato é que defender a educação é e sempre será uma postura ideológica, pois suscita outra indagação: que tipo de educação? Para quem?

De fato, todos vivemos num mundo permeado por ideologias, somos atravessados por elas e todos os nossos atos, falas e omissões são dotados de carga ideológica. Sob esta ótica, a faixa “Em defesa da educação” é claramente um slogan ideológico, assim como também é ideológica a fachada neoclássica desta sede da UFPR, com colunas, traves de cornijas que remetem a princípios arquitetônicos da Antiguidade greco-romana. A camiseta amarela da seleção brasileira com o logo da Fifa é também revestida de ideologia e a própria afirmação que “prédio público não pode ser usado de forma ideológica” também é, por sua vez, altamente ideológica.

Portanto, o problema essencial na cabeça do manifestante não é Ideologia com “i” maiúsculo, mas uma determinada ideologia da qual ele discorda, já que os atos seguintes são ainda mais reveladores. No lugar de “Em defesa da educação”, foi afixada outra faixa que dizia “Olavo tem razão, ao mestre com carinho” e incluía também a inscrição “Ninguém nos déte”, sabe-se lá o que isto queira dizer.

A cena expõe, como podemos supor, um conflito profundamente ideológico e que está no cerne do governo bolsonarista. Na base desta guerra cultural está o explícito ataque ao conhecimento, aos professores e aos estudantes universitários. Segundo Olavo de Carvalho, a pessoa homenageada na faixa posta no lugar daquela que defendia a educação, as universidades são antros esquerdistas que servem de ponta de lança para uma revolução comunista de inspiração gramscista, numa “marcha pelas instituições” para a consolidação da hegemonia cultural e intelectual dos vermelhos – de maneira resumida, isto é o que se chama de “marxismo cultural”.

Sendo assim, conquistar estes espaços educacionais, expurgar professores “comunistas”, reescrever a História e extirpar quaisquer vestígios da ideologia contrária é uma condição sine qua non desta guerra cultural. Para os olavistas, qualquer vitória política sem esta vitória cultural não será uma vitória completa, pois deixará margem para que os comunistas retornem rapidamente às esferas de controle social e político. O expurgo deve ser completo e irrestrito.

“Em defesa da educação” passa uma mensagem evidente, principalmente em uma universidade federal: de uma educação pública, de qualidade e inclusiva. Contudo, para quem pensa na universidade como um espaço destinado a uma elite, é evidente que isto pode soar como afronta. Sabe-se que o acesso à educação é um dos principais pré-requisitos para a redução da desigualdade social, por permitir melhores oportunidades de trabalho e, por isso, estimular a mobilidade social. O acesso dos mais pobres ao ensino superior público permite duradouras transformações numa sociedade. A quem duvide sugiro que veja o que fizeram os países do norte da Europa, hoje amplamente acatados como melhores modelos de sociedade. Neles a real implantação da socialdemocracia comprovou o antigo mote segundo o qual: uma sociedade é tão rica quanto é rica sua porção mais pobre.

Mas, voltemos à questão. A quem não interessa isto?

E deixo para resposta de vocês estas últimas perguntas: quem serão os reais ganhadores com o fim da educação superior pública? Quem lucrará com isto? Quem se beneficiará com este desmonte?

Adianto que qualquer resposta será ideológica, mas com inevitáveis e catastróficas implicações práticas para milhões de jovens estudantes que agora estão na linha de frente deste embate por seu futuro, por suas carreiras e, mais do que isto, por um modelo de sociedade mais aberta e inclusiva.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Henry Bugalho é curitibano, formado em Filosofia pela UFPR e especialista em Literatura e História. Com um estilo de vida nômade, já morou em Nova York, Buenos Aires, Perúgia, Madri, Lisboa, Manchester e Alicante. Por dois anos, viajou com sua família e cachorrinha pela Europa, morando cada mês numa cidade diferente. Autor de romances, contos, novelas, guias de viagem e um livro de fotografia. Foi editor da Revista SAMIZDAT, que, ao longo de seus 10 anos, revelou grandes talentos literários brasileiros. Desde 2015 apresenta um canal no Youtube, no qual fala de Filosofia, Literatura, Política e assuntos contemporâneos.

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