Depoimento de um vírus: “Vim esclarecer pontos fundamentais”

Estúpidos afirmam que a economia importa mais que vidas humanas, na condição de vírus não tenho essa idiotia como posicionamento

Foto: AFP

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Opinião

Sou um simples vírus. Vim esclarecer pontos fundamentais sobre a minha razão de ser. Não é fato que provoco o desequilíbrio no mundo, ao contrário, veja como a poluição diminui, como se é possível ver o firmamento estrelado até nas grandes cidades. Os rios estão mais limpos. As pessoas voltaram a se preocupar umas com as outras.

Embora esteja envolto no manto da morte, trago de volta o valor da vida. Mostrei o tanto que a arrogância e prepotência dos governantes é mais letal do que qualquer novo vírus. Não sou eu que crio a fome, a miséria envolta em desigualdade social muito além da mortalidade provocada por qualquer vírus. Nem tampouco o destempero desqualificado de figuras tão patéticas como Bolsonaro e Trump. Esses estúpidos afirmam que a economia importa mais que vidas humanas, na condição de vírus não tenho essa idiotia como posicionamento.

Culpem os vírus por essa desordem mundial, certamente é mais cômodo. A destruição ambiental não foi causada por qualquer vírus; a brutalidade nas relações interpessoais também não é virótica; o consumismo desenfreado que leva ao total distanciamento entre as pessoas, entre bens de consumo necessários e supérfluos, tampouco tem a presença de vírus. O ódio que incendeia o coração humano traz o vírus da desesperança, do desalento e da total perda da condição humana.

Tudo agora é o vírus, e figuras tão esdrúxulas como o Doria ganham protagonismo de estadista diante da boçalidade bolsonarista. Mais fácil culpar os vírus. As pessoas em situação de rua estão sendo dizimadas, em nova assepsia social, assim também com a população carcerária. Culpemos o vírus. E todos estarão tranquilos e em paz com suas consciências.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É psicoterapeuta existencial. Lecionou em cursos de pós-graduação em Psicologia da Saúde na PUC de São Paulo e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Autor com o maior número de livros publicados em psicologia no Brasil, adotados nas principais universidades da América Latina e Europa.

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