Deixar a política externa dependente de ‘ideologia’ é um erro juvenil

O desmatamento desenfreado da Amazônia é uma irresponsabilidade global que conduzirá o Brasil à irrelevância e ao isolamento mundial

Deixar a política externa dependente de ‘ideologia’ é um erro juvenil

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O presidente da República do Brasil decidiu subitamente cancelar um encontro como ministro dos Negócios Estrangeiros francês. Horas depois, decidiu tornar públicas as imperiosas razões de agenda que impediram o encontro: cortar o cabelo. O ministro encaixou, afirmando que tinha recebido a mensagem com a “calma dos veteranos”. O Brasil abre assim um novo capítulo na sua política externa, a diplomacia de cabeleireiro e a humilhação como método. 

Salvo melhor opinião, não me parece que este incidente seja apenas mais um excêntrico episódio sem consequências, semelhante a tantos outros que têm acontecido na política brasileira. Ao contrário. O gesto parece traduzir a opção de desvalorizar duas das mais firmes bases da política externa brasileira: a sua ligação histórica com a Europa e o papel central do País na segurança ambiental mundial. 

Europa em primeiro lugar. É talvez o momento de recordar que a União Europeia constituiu em 2007 uma parceria estratégica com o Brasil. Até aí a Europa tinha relações políticas e de negociação econômica com o conjunto dos países do Mercosul. A parceria estratégica elevou o Brasil a um estatuto de liderança em toda a América Latina, que nem todos estavam dispostos a aceitar (a França, a propósito, apoiou firmemente). No fundo, a decisão europeia reconheceu ao Brasil o seu estatuto de novo ator mundial e o seu papel na segurança ambiental mundial. Eis algo que nunca os Estados Unidos teriam feito e, enquanto puderem, nunca farão –  elevar a interlocutor estratégico um único país da América Latina.

Sim, a União Europeia não é igual aos Estados Unidos. São aliados e parceiros, mas não são iguais. E essa diferença pode se resumir assim: a Europa inclina-se mais para uma ordem mundial baseada no direito internacional e menos na força militar, mais no convencimento do que na coação. A defesa da paz, da democracia, da dignidade universal da pessoa humana e a defesa ambiental constituem o soft power da Europa. Para muitos este capital político é pouco como influência no mundo e, para alguns dentre esses, não devemos sequer lhe chamar de poder. E, no entanto, bem vistas as coisas, o que a experiência histórica recente nos tem mostrado é o fracasso das soluções políticas baseadas apenas na força e na dominação militar. O novo mundo interdependente, conectado e instantâneo, traz consigo novas exigências de legitimidade que é errado ignorar ou menosprezar. Uma delas é a preservação ambiental.  

O desmatamento desenfreado da Amazônia é uma irresponsabilidade global que conduzirá o Brasil à irrelevância e ao isolamento mundial

Por outro lado, talvez seja avisado para não confundir os Estados Unidos com o seu atual governo. A diplomacia americana vai além dos caprichos dos titulares em funções (embora, às vezes, não pareça) e os seus interesses não oscilam em razão de amizades de ocasião. Pretender humilhar a França, país membro do Conselho de Segurança e com capacidade nuclear, apenas com o objetivo de agradar ao presidente atual dos Estados Unidos e às suas insensatas ideias a propósito do aquecimento global, não me parece que impressione nenhum americano responsável e muito menos que tenha futuro como linha política. 

Depois, a questão ambiental. É importante sublinhar três pontos para entender a relação entre o ambiente e a política europeia. Primeiro, o tema ecológico faz hoje em dia parte das questões estratégicas e constitui dimensões com que se avalia a segurança mundial. Segundo, a questão ambiental é uma peça central da política externa da União Europeia e o combate ao aquecimento global faz parte essencial do seu núcleo específico de interesses. Em terceiro lugar, este tópico se reforçou nestas eleições europeias com o aumento significativo do número de parlamentares eleitos pelos partidos verdes. 

O Brasil é essencial na segurança ambiental do planeta

Postas as coisas simplesmente, a questão ambiental não é um adorno retórico da política externa europeia, mas representa, isto sim, um eixo fundamental da sua política externa. Para a Europa, o desmatamento da Amazônia é um assunto muito sério e a mudança climática não é um “dogma científico influenciado pela cultura marxista”. O aquecimento global é visto como a maior ameaça à nossa segurança coletiva e as referências pueris relativas ao “frio de maio na Itália” são recebidas como brejeirices de mau gosto. É assim na Europa. 

Gostaria de ir um pouco mais longe neste tópico. Vejo por aí repetido o enorme equívoco de se considerar a Amazônia como um fardo que o Brasil carrega nas costas. Um espaço natural que, em vez de ser explorado a serviço do País, serve de compensação ambiental para o resto do mundo. Engano fatal: a Amazônia confere ao Brasil uma posição estratégica vital na segurança ambiental mundial, no desenvolvimento sustentável e na luta contra o aquecimento global. Ela representa um precioso ativo para a afirmação internacional da diplomacia brasileira. Esta é, com o devido respeito, a forma correta de ver as coisas. Já houve tempos (sim, no tempo de Lula e de Celso Amorim) em que a comunidade internacional discutia seriamente a democratização das Nações Unidas e o alargamento do Conselho de Segurança, de modo a reforçar a representação regional e dar espaço aos novos atores mundiais. Um dos argumentos invocados para a entrada do Brasil era justamente o de ser um país essencial na segurança ambiental do planeta e a palavra-chave desse discurso era essa: Amazônia. O desmatamento desenfreado é uma irresponsabilidade global que conduzirá o Brasil à irrelevância e ao isolamento mundial. 

Cortar o cabelo é mais importante do que receber um ministro estrangeiro? Veremos

Regressemos à diplomacia. Há boas razões para que as nações não mudem de política externa sempre que mudam de governo. A estabilidade torna os países parceiros confiáveis e previsíveis nas suas relações internacionais. Deixar a política externa dependente de humores presidenciais é um sinal de imaturidade. Deixá-la dependente de cumplicidades ideológicas é um erro de principiante. Esperar que não tenha consequências, em especial no momento em que um tratado econômico está para ser aprovado, só pode ser ingenuidade. Cobrir de opróbrio um dignitário estrangeiro costuma ser daquelas coisas que os povos tardam a esquecer.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Ex-primeiro ministro de Portugal (2005 a 2011)

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