De Djuena Tikuna a Matsipaya Waura: música vira resistência indígena

No ecoar de vozes de uma população que constantemente tem sido calada, as reivindicações dos direitos e a história dos povos

(Foto: Diego Janata)

(Foto: Diego Janata)

Opinião

Os artistas indígenas estão, cada vez mais, se organizando e ocupando espaços nas redes sociais e nos palcos brasileiros. Na atual conjuntura política, de perda de direitos conquistados, de promessa de campanha do atual presidente dizendo que não irá demarcar nem um centímetro de terra, de projetos de exploração dentro das reservas e do avanço do agronegócio na Amazônia, a arte tem sido uma grande aliada para que os povos originários sejam ouvidos, respeitados e fortalecidos. A música também é uma forma de luta! Alguns cantores misturam o português com a sua língua nativa e sabemos que cantar nas línguas indígenas fora das aldeias é um ato de resistência, afirmação de identidade e, acima de tudo, de coragem.

No ecoar de vozes de uma população que constantemente tem sido calada, ouvimos as reivindicações dos direitos e a história dos povos.

Em 2018, Djuena Tikuna, foi indicada na maior premiação mundial da música indígena, o Indigenous Music Awards, na cidade de Winnipeg, no Canadá. Djuena Tikuna é uma cantora do povo Tikuna, a nação indígena mais numerosa do Brasil, que fica no Amazonas, região do Alto Solimões. A irmã dela, Wee’e’na Tikuna, também segue o mesmo caminho e já gravou seu primeiro CD, chamado We’e’ena- Encanto Indígena.

O coletivo de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós possui um grupo musical com o mesmo nome, no Pará, e é o primeiro grupo a fazer música indígena e carimbó (música paraense com matriz africana, europeia e indígena). Sem caráter comercial, nos dedicamos a popularizar a música regional e a incentivar protagonismo da mulher indígena, fazendo apresentações em universidades, escolas, seminários, manifestações populares, praças e em todos os eventos realizados pelo movimento indígena do Baixo Tapajós.

Suraras do Tapajós (Foto: Pablo Albarenga)

Em novembro de 2019 , acontecerá no Unibes Cultural, em São Paulo, o YBY Festival da Música Indígena, uma iniciativa da rádio Yandê. Alguns artistas confirmados são Arandu arakuaa, Brisa Flow, Bro’s MCs, Djuena Tikuna, Edivan Fulni-Ô , GeanRamos Pankararu, Ian Wapichana, Katu Mirim, Nory Kayapó, OZ Guarani, Oxóssi Karajá,Wakay, Wera Kunumi e Wera MC.

A música tradicional é parte do vasto universo cultural dos povos indígenas brasileiros, sendo uma das suas atividades culturais mais importantes. É principalmente composta por voz acompanhada da batida dos pés no chão, mas também conta com instrumentos de sopro e percussão como tambores, chocalhos e maracás. Essa manifestação cultural faz parte da vida social, do universo transcendental e cosmológico dos povos e está presente em quase todos os momentos: nos rituais, na caça, pesca, nas comemorações, nas lutas, etc.

Com a colonização e extermínios dos povos originários, grande parte do universo musical se perdeu. Porém ainda é muito presente na vida dos povos que resistem. Apesar de estar viva há 519 anos, a música indígena ainda não está incorporada ao universo sonoro do dia a dia do brasileiro, mas sua presença cresce a cada dia.

As músicas indígenas já sofreram algumas modificações como por exemplo incluir instrumentos musicais não indígenas, entre eles o violão. Os jovens indígenas também estão cantando e tocando outros gêneros musicais como o rap, raggae e pop. Destaque para a cantora Katu Mirim, da periferia de São Paulo, e para o cantor Matsipaya Waura Txucarramãe, do Mato Grosso, que com sua música de protesto Índio do Brasil vem sendo inspiração para muitos outros jovens indígenas.

Mas qual é a música indígena?

É aquela de origem ancestral sem ter influência da música do não-indígena e também toda música produzida pelos indígenas, seja qual for o gênero ou instrumentos utilizados. Afinal, mesmo que o indígena aprenda novos ritmos, de outras culturas, por uma questão de ancestralidade, tudo que é produzido pelo indígena terá sempre sua identidade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É turismóloga e militante pelo coletivo de mulheres indígenas Suraras do Tapajós

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