Coronavírus criará novo “normal” no capitalismo – não no Brasil

Bolsonaro vai repetir as ideias de sempre, o que vai colocar nosso país entre os que mais sofrerão a recessão global

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Isac Nóbrega/PR

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Isac Nóbrega/PR

Economia,Opinião

As crises são episódios de ruptura brusca da normalidade. Quando são graves, sair delas traz um “novo normal” que pode ser muito diferente do passado. Na década de 1930, por exemplo, uma crise econômica global sem precedentes levou tanto ao avanço do nazifascismo quanto à social-democracia no mundo anglo-saxão e no norte europeu.

Nos dois casos, os líderes de governo, empurrados por partidos e movimentos sociais de massa, ampliaram o papel do Estado na recuperação e gestão da economia e na proteção social. Os dogmas do liberalismo econômico – é melhor cada um por si – caíram por terra, enquanto o totalitarismo fascista, a social-democracia e o planejamento soviético disputavam guerras, corações e mentes pelo mundo.

O fim da Segunda Guerra Mundial foi seguido pela Guerra Fria. A ofensiva dos sindicatos e a ameaça comunista forçou as elites conservadoras a engolirem novas instituições que distribuíram renda e riqueza em larga escala.

No Ocidente desenvolvido, os ricos foram taxados em mais de 60% da renda (mais de 80% nos EUA e Inglaterra) entre 1932 e 1980, para financiar bens e serviços públicos para cidadãos que tinham agora não apenas direitos políticos plenos, mas também direitos sociais generosos: aposentadoria, seguro-desemprego, educação e saúde públicas em muitos casos, além de salário mínimo, descanso semanal e férias remunerados.

Países pobres, como o Brasil, foram autorizados a usar uma bateria de instrumentos heterodoxos para se industrializar, experimentando uma série de políticas que a China comunista imitaria a partir da década de 1980.

Isto tudo sofreu ataque brutal depois de uma nova crise global ocorrida entre 1979 e 1982, depois do Segundo Choque do Petróleo e da defesa do papel do dólar como moeda global com taxas de juros estratosféricas. O ataque à social-democracia e ao nacionalismo econômico ficou conhecido como neoliberalismo, um termo cunhado pelos próprios intelectuais neoliberais nos anos 1940 e 1950.

Milton Friedman, um dos expoentes do movimento político e ideológico desde a Universidade de Chicago e o principal inspirador de Ronald Reagan (Hayek era o de Margaret Thatcher), preparava-se para aproveitar uma crise séria há anos.

Já usara o Chile como laboratório neoliberal durante a ditadura de Pinochet, e escreveu em 1982 que “apenas uma crise – real ou percebida – produz mudança real. Quando a crise ocorre, as ações tomadas dependem das ideias que estejam circulando. Esta é, acredito, nossa função básica: desenvolver alternativas às políticas vigentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”.

Lembre-se que nosso ministro Paulo Guedes formou-se em Chicago e empregou-se no Chile com base nas redes neoliberais universitárias. Não surpreende que tenha afirmado que temos que aproveitar a crise do coronavírus para “crescer”, ou seja, para aprovar mais reformas neoliberais que não trazem crescimento desde 2015 e que são culpadas pelo “pibinho” de 2019.

A primeira reação de Donald Trump à crise do coronavírus foi a mesma de sempre: propor a desoneração das contribuições à aposentadoria na folha de pagamentos. Ideia que serviria para provocar uma crise financeira na Previdência Social e que é um mantra neoliberal desde a experiência chilena. George W. Bush já havia tentado isso sem sucesso em 2005, e Trump fracassou de novo.

A ofensiva do movimento Occupy e de sua maior expressão política, o senador Bernie Sanders, transformou o Partido Democrata, que daria uma surra eleitoral em Trump se ele repetisse o que o próprio Bush e depois Barack Obama fizeram em 2008 e 2009: salvar os bancos e colocar na rua quem atrasava a hipoteca.

Semana passada foi Nancy Pelosi. A Democrata californiana, que é presidente da Câmara de Deputados, aproveitou a crise para aprovar uma ideia antiga do partido: licença-saúde, pois os americanos ainda perdem salários se ficarem doentes em casa. Trump resistiu acusando-a de oportunismo para aprovar uma agenda de mais de 30 anos, porém acabou cedendo para evitar uma perda de popularidade ainda maior.

Na terça-feira 17, contudo, Trump trucou e comprou a ideia-força de um dos candidatos Democratas à Presidência que ficou pelo meio do caminho, o empresário Andrew Yang: renda básica universal bancada pelo Estado. Ainda que temporariamente, o Partido Republicano vai propor a emissão de cheques para cada cidadão americano como forma de mitigar o colapso do gasto privado.

Na quarta 18, Trump imitou até o valor proposto pelo senador Sanders um dia antes: 2 mil dólares. Ou cerca de R$4.140,00 (em paridade de poder de compra), mais de 20 vezes o valor proposto no “voucher” do governo brasileiro para trabalhadores informais.

A crise é grave demais para brincar de neoliberalismo. O G-7, clube dos sete país ocidentais ricos, se comprometeu a fazer “o que for necessário” para que o PIB não despenque, o que significa compensar a queda do “PIB privado” com gasto público.

Como nem a cobrança de juros negativos pelo Banco Central animam a economia, a União Europeia já promete 10% do PIB para combater a crise. Na Espanha, o governo socialista nacionalizou hospitais, mas na França e na Itália governos centristas já propõem estatizar mais ainda, inclusive o pagamento de alugueis.

Enquanto a crise do coronavírus vai criar um novo “normal” no capitalismo global, no Brasil o “PIB privado” vai perder o bonde alguns anos. O governo Bolsonaro vai repetir as ideias de sempre, o que vai colocar nosso país na liga dos que mais sofrerão a recessão global e que mais demorarão para se recuperar dela.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Professor da Unicamp. Foi professor visitante na UC Berkeley (EUA).

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