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Coringa: o desamparo estatal e a produção social da Loucura

Negar condições institucionais e simbólicas aos indivíduos significa predispô-los para o sofrimento psíquico

O filme Coringa suscita questões muito importantes para entendermos certos aspectos da experiência psíquica no mundo atual. O personagem Arthur Fleck nos é apresentado como um homem portador de sofrimento mental. Muitos diriam que esse é o motivo de seus impulsos criminosos, mas essa leitura parece ser apressada e simplista.

Ao contrário do que argumentam muitos professores de direito penal que ainda hoje reproduzem teorias criminológicas baseadas no racismo científico, atos criminosos são em grande parte produto das condições sociais nas quais as pessoas vivem. Como argumentam muitos estudiosos da criminologia critica, esse é um dos motivos pelos quais nossas prisões estão repletas de pessoas negras, grupo de indivíduos sistematicamente discriminados em todas as esferas da vida.

A marginalidade é uma produção social; ela existe porque grupos majoritários fazem todo o possível para manter oportunidades sociais nas suas mãos.

A loucura também não pode ser explicada apenas a partir de uma base biológica. É certo que várias doenças mentais são geneticamente transmitidas, mas muitas delas são socialmente criadas. Esses genes serão ativados em função da experiência social dos indivíduos. 

Erik Erikson, psicanalista alemão.

O filme nos mostra a relevância do pensamento de Erik Erikson sobre o desenvolvimento moral dos seres humanos. Esse psicanalista atribuiu grande importância à questão da identidade na sua produção acadêmica, conceito entendido aqui como uma dimensão da existência baseada na construção de um senso de integração psíquica e competência pessoal.

O autor afirma que podemos construir um sentimento de segurança psicológica na medida em que estamos inseridos em um ambiente no qual as pessoas responsáveis por nós oferecem as experiências e os elementos necessários para desenvolvermos habilidades emocionais, cognitivas e sociais. Quanto maior for o empenho dos nossos cuidadores para que isso ocorra, maiores serão as possibilidades da formação de funções psíquicas de maneiras positiva. Eles podem desempenhar esses papeis na medida em que também possuem competência afetiva e recursos institucionais, o que depende das condições materiais da existência. 

Para Erikson, a soma das experiências individuais e as oportunidades institucionais formam o que ele chama de repertório identificatório.

O indivíduo que tem acesso a diversas formas de direitos humanos terá as condições para tomar decisões duradouras ou permanentes na sua vida. Isso permitirá que ele se afirme como um sujeito produtivo e obtenha estima social. Esse conceito também está relacionado com aquelas identidades que podem ter expressão no espaço público. Enquanto algumas delas são institucionalizadas, outras são marginalizadas, sendo parâmetros a partir dos quais pessoas são excluídas de oportunidades. Os que estão nessa condição não conseguem ter oportunidades materiais, nem respeitabilidade social, o que torna a vida em sociedade uma carga emocional e negativa constante.

Portanto, nosso desenvolvimento psíquico está amplamente relacionado com as políticas estatais vigentes. Quanto maior for o empenho do Estado para a construção da segurança material das famílias, maiores serão as chances de nos afirmarmos como sujeitos competentes. Da mesma forma, o nível de inclusão social determina as chances de um indivíduo poder ter respeitabilidade, requisito para que ele possa desenvolver um senso positivo de autoestima. 

 

Há uma vasta literatura sobre as relações entre sofrimento mental e direitos humanos, tema do meu próximo livro. Ela estabelece ligações diretas entre estima social, estresse psicológico e doença mental. Esses estudos indicam que a ausência de acesso a condições materiais de existência e de respeitabilidade criam dificuldades significativas para que os indivíduos possam se reconhecer como atores sociais competentes.

É certo que membros de grupos minoritários também desenvolvem mecanismos de resiliência mental, mas essa realidade os torna mais vulneráveis ao sofrimento psíquico.

A ausência de respeitabilidade gera o que psicólogos sociais chamam de desamparo aprendido, conceito que designa a percepção de que a pessoa não tem controle sobre condições básicas da existência, o que provoca estresse mental constante. A crescente ou a permanente percepção de que o indivíduo nunca será visto como um igual aumenta as chances de que ele possa desenvolver problemas de ordem emocional. 

Nesse sentido, Arthur Fleck é o resultado de uma realidade na qual decisões estatais eliminam políticas públicas, desestruturam famílias e, consequentemente, impedem que os sujeitos possam ter segurança material e simbólica. É importante enfatizar a relação entre esses dois aspectos. Nossos cuidadores tornam-se pais competentes quando são vistos e tratados pela sociedade como atores sociais capazes e quando eles têm acesso ao apoio estatal necessário para realizarem suas funções.

Assim, acesso a um sistema de segurança social permite que eles desempenhem seus papeis de maneira adequada, o que possibilita a afirmação do processo de autoafirmação de sujeitos capazes. Nossa identidade é composta a partir do processo de introjeção de papeis, base também das cognições que são as formas como compreendemos os outros e a nós mesmos. 

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Essas reflexões nos ajudam a entender o caso de Arthur Fletcher. Sua mãe se sente angustiada por estar e por ver o filho em uma situação de grande desamparo. Ela mesma não obteve apoio adequado para tratar sua doença mental, o que dificultou significativamente o exercício da função materna da melhor forma. Esse é um grande fator de estresse mental, o que leva ao aprofundamento de problemas psiquiátricos. Seu filho passa por todo um processo de desagregação psíquica por nunca ter obtido qualquer tipo de estima social na sua vida, inclusive de sua própria mãe. A pobreza aparece como um fator de grande frustração emocional para ambos os personagens e Arthur afirma todo o tempo que nunca se sentiu um ser humano.

O personagem nunca conseguiu desenvolver um sentimento de confiança básica no ambiente no qual vive, condição essencial para que ele pudesse ver a si mesmo como um ator social competente.

Observamos ele sofrendo ataques à sua saúde mental das instituições estatais que eliminam serviços de assistência psiquiátrica, da mãe que escondeu durante toda a vida sua origem, dos seus concidadãos que ora o tratam de maneira instrumental, ora o estigmatizam como uma pessoa inferior. A cena dos primeiros assassinatos não poderia ser mais simbólica. Três homens brancos funcionários do sistema financeiro, instância que determina o funcionamento das instituições estatais, o ridicularizam porque ele estava apresentando um sintoma que o acomete todas as vezes que ele está em uma situação de ansiedade. 

É importante então traçar os seguintes paralelos: se um homem branco heterossexual é levado à loucura em função da completa ausência de estima social, o que ocorre então com membros de minorias raciais e sexuais?

Se esse indivíduo é drasticamente afetado pelo estigma da loucura, qual deve ser a experiência de membros de grupos que sofrem as consequências da interseção de vetores de discriminação como o racismo, o classismo, o sexismo e a homofobia? Qual deve ser a vivência de pessoas que ao longo de toda a história foram impedidas de terem relações familiares estruturadas?

Quais são as consequências psíquicas decorrentes da destruição da segurança material de famílias negras com a discriminação racial sistemática no mercado de trabalho?

Como pessoas negras podem ter um mínimo de segurança simbólica sendo vítimas cotidianas do humor racista, mecanismo que procura evitar que elas gozem de qualquer forma de respeitabilidade? Serão esses os motivos pelos quais jovens negros homossexuais sempre se mataram muito mais do que quaisquer outros grupos, situação que tem piorado ao longo dos últimos dois anos no Brasil e nos Estados Unidos? Quais são os limites da resiliência mental a práticas discriminatórias? Qual tem sido a minha contribuição para a produção social do sofrimento mental alheio? 

Enfim, a partir de que parâmetros eu direciono a minha atenção e o meu afeto? 

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