Opinião

Contra Bolsonaro e Guedes, a nossa luta

Busquemos ensinamentos que nos possam tirar destras trevas

Foto: Marcos Corrêa/PR
 Foto: Marcos Corrêa/PR
Foto: Marcos Corrêa/PR Foto: Marcos Corrêa/PR

“Uma fracasso total, uma verdadeira tragédia para os brasileiros e para o mundo”. Assim se referiu ao desgoverno brasileiro o ex-presidente da Colômbia e prêmio Nobel da Paz, Juan Manuel Santos.

O ex-presidente Lula e o ex-chanceler Celso Amorim têm repetido que o Brasil é um pária internacional.

As demonstrações dessa condição vergonhosa são inúmeras, desde aquelas na imprensa internacional até as respostas comerciais, sendo as mais recentes a recusa da Noruega em comprar soja do Brasil – pelo desmatamento na Amazônia – e o descredenciamento, pela China, de três frigoríficos brasileiros, suspeitos de contaminação pelo covid 19.

A resposta do desgoverno não poderia ser mais tosca: dobrar os gastos governamentais com propaganda.

Para dar uma ideia da obtusidade do desgoverno, cito apenas o caso da Colômbia, para que se possa aferir o nível do que tínhamos e do que não temos mais, em termos de diplomacia.

Logo após ser eleito, Juan Manuel Santos enviou missão ao Brasil, chefiada pela própria primeira-dama, para conhecer os programas sociais brasileiros.

Tive o prazer de organizar a visita, de que participaram também representantes dos entes subnacionais colombianos.

Foram três dias de reuniões com ministérios e com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), para que os parceiros colombianos pudessem inteirar-se da miríade de programas sociais brasileiros, que então havia.

Isso demonstra o nível de intimidade que tínhamos com um país irmão e vizinho. Dessa forma, constroem-se relações, laços de troca, cooperação, ensino e aprendizagem. Uma linguagem incompreensível para genocidas, vende-pátrias e corruptos, de um país em que o sinistro da economia é processado por fraude bilionária e a primeira-dama recebe dinheiro de “rachadinha” na própria conta bancária, tudo sob os olhares de militares que, em meio à pandemia que deixou milhões de brasileiros sem emprego, negociam e recebem aumentos salariais. Uma vergonha inominável.

Para termos uma ideia mais clara da profundeza em que nos encontramos, basta lembrar que Juan Manuel Santos, antes de ser presidente, fora Ministro da Defesa de seu honrado país.

Que vergonha, Brasil.

Busquemos, portanto, ensinamentos que nos possam tirar destras trevas.

No excelente “Os filhos dos dias”, de Eduardo Galeano, da editora L&PM, encontramos: “Adeus às armas. O presidente da Costa Rica, dom Pepe Figueres, tinha dito:

– Aqui, a única coisa que anda mal é tudo.

E no ano de 1948, suprimiu as Forças Armadas.

Muitos anunciaram o fim do mundo, ou pelo menos o fim da Costa Rica.

Mas o mundo continuou girando, e a Costa Rica se salvou das guerras e dos golpes de Estado.”

Conheci pessoalmente dom Pepe em Managua, em 1986, no período mais duro para a revolução sandinista, sob o risco de invasão do país pelos mercenários de Reagan, como hoje ocorre com a Venezuela, pelos mercenários de Trump.

Dom Pepe fora levar sua solidariedade ao país vizinho, em risco de banho de sangue, o enésimo promovido pelo império do Norte no continente.

Era um homem da maior simplicidade, que em nada deixava transparecer que fora o maior presidente que seu país já tivera e talvez, um dos maiores do mundo, para os pacifistas.

Vale recordar que, naquele momento, poucos tinham a coragem de desembarcar no aeroporto internacional Augusto César Sandino; mas dom Pepe e seu pacifismo militante lá estavam.

Com efeito, sobre heróis e vende-pátrias é extensa a literatura latino-americana, podendo mesmo verificar-se certa paridade entre ambas as categorias, o que leva a crer que o mal pode até vir a engendrar o bem.

Sobre os maus e seus inúmeros representantes locais, inclusive aqueles que participaram do desgoverno Pinochet e dele tomaram a ideologia de morte, vale mencionar mais uma vez aquela obra de Eduardo Galeano, transcorrida uma semana da aprovação, pelo Congresso, da privatização da água no Brasil: “Homem de bom coração. Em 1981, num gesto de generosidade que faz jus à sua memória, o general Augusto Pinochet vendeu a preço de presente os rios, os lagos e as águas subterrâneas do Chile.

Algumas empresas mineradoras, como a suíça Xs-trata, e empresas elétricas, como a espanhola Endesa e a norte-americana AESGener, se fizeram donas, para a perpetuidade, dos rios mais caudalosos do Chile. A Endesa recebeu uma extensão de águas equivalente ao mapa da Bélgica.

Os camponeses e as comunidades indígenas perderam o direito à água, condenados a comprá-la, e a partir daí o deserto avança, comendo terras férteis, e vai se esvaziando de gente a paisagem rural.”

Esse o modelo de morte de Guedes e Bolsonaro; contra ele, a nossa luta.

Milton Rondó

Milton Rondó
Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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